Cabeça raspada

Um conto para a coluna Jogando em casa

Foto: Internet/Reprodução com alterações

Observa as cinco pedrinhas sobre a palma da mão suja de terra. O que elas serão hoje? Formigas? Soldadinhos? Pensa por alguns longos minutos até jogá-las para o alto. Caem todas espalhadas na grama queimada do quintal. A menina permanece em pé por alguns minutos.

Enquanto procura as pedrinhas, Marília finge não ouvir o chamado para o almoço. Barulho de pratos, copos e talheres invadem seu ouvido. Ela espera o ruído diminuir para entrar em casa na ponta dos pés. Começa a refeição enquanto na TV passa o telejornal. As notícias acabam, o filme insosso da tarde inicia, continua com o prato cheio à sua frente. O garfo fura o tomate repetidas vezes. A mãe grita lá de dentro, manda a menina fazer bolinhos com a comida para acabar com aquilo logo. Come tudo mesmo sem vontade. Quer voltar para o quintal.

Onde devem estar as suas pedrinhas-formigas? Sim, formigas trabalhadeiras. A pedra maior é a rainha delas. Marília segue a tarde inteira brincando nos fundos da casa. Não escovou os dentes depois do almoço. O cabelo está embolado bem perto da nuca. Precisa tomar banho.

Marília gosta de água caindo no corpo. Do alto dos seus oito anos, já sabe de muita coisa que gosta e de que não gosta. Gosta de goiabada, de brincar no quintal, de suco de acerola, de sonhar com cachorrinhos, da vovó Lúcia e do vovô Renato. Gosta um pouco menos de Fafá, de ir à escola, de requeijão. Não gosta de beterraba, da professora, do vizinho enxerido, de ter aquele pesadelo. Sente falta do pai durante a semana, mas só um pouquinho. Gosta e desgosta da mãe, depende do dia, da hora e da cara que a mãe está fazendo para ela.

A noite chega e Marília finalmente recebe um beijo apressado na testa. Pede para as luzes do quarto ficarem acesas, mas não é atendida. Não quer sonhar de novo com aquilo. Dormir faz parte da lista do não-gosto-de. O sono vem muito depois, quando a exaustão se instala.

Acorda no horário habitual. Não sente o cheiro de café porque Fafá não está em casa. Prefere deixar o vestido separado pela mãe dentro do armário – não é dia de vestido. O tom das vozes dos pais não está nada bom; pode ouvir o zum-zum-zum abafado enquanto atravessa o corredor. O quintal naquela manhã de domingo parece mais verde. A menina saltita pelo pequeno trajeto entre a porta de serviço e a árvore solitária. É um dia quente, ainda bem que não vestia nada por cima da calcinha rendada de algodão. Cata algumas flores caídas no chão para fazer os costumeiros experimentos. Na pouca sombra que paira num canto do quintal, em pé e concentrada, Marília usa o muro baixo que separa a sua casa da casa do vizinho enxerido para mexer as flores dentro de vasilhas de vidro.

Cadu ouve os barulhinhos produzidos por Marília e fica quieto do outro lado do muro. Quer aproveitar para dar um susto na vizinha metida. Apesar de ser dois anos mais velho que ela, se sente menor quando tenta se aproximar. Continua em silêncio enquanto vai chegando cada vez mais perto. Mais perto. Buuu!!! Dá uma grande gargalhada enquanto aponta para a calcinha de Marília. A risada fica mais alta e parece que a cidade inteira está ouvindo a macaquice de Cadu. A menina cora e derruba as vasilhas que se espatifam no chão com estardalhaço. Um pequeno caco de vidro faz um furinho na planta do pé de Marília. Ela prefere não sentir dor e entra correndo em casa.

A mãe a encara e, com o uso de seus poderes mágicos para descobrir o que ela chama de “coisas malfeitas”, adivinha o que aconteceu. “Eu já te disse para não ficar no quintal de calcinha! Você tá vendo? Cadu te viu praticamente nua. Você já é uma mocinha, Marilia Azevedo. Uma mocinha! Agora ele vai contar para todos os meninos da rua”.

A menina treme dos pés à cabeça. Tenta abraçar a mãe, mas não consegue. Seus braços não obedecem ao comando. Assim que a mulher se retira da sala, sai pela porta dos fundos, passa pela garagem e avança até o portão. Quando alcança o pequeno jardim da frente da casa, uma enorme ratazana cinza e molhada com seus três filhotes passa entre as suas pernas. O pé machucado raspa no pelo do último ratinho e Marilia dá um grito que faz acelerar o passo, o batimento cardíaco e a intenção de fugir.

Alcança o orelhão da esquina e liga a cobrar para o único número que sabe de cor. Vovó Lucia atende após três toques. O som da voz faz a menina parar de tremer. “Vovó?”. “Mamá, que número é esse? Você não está em casa?”. “Vovó, eu fugi. Cadu me viu de calcinha. Mamãe brigou comigo. Uma rata passou em cima do meu pé”. “Mamá, vovó e vovô vão te pegar. Volta pra casa. Não fique aí na rua não, é perigoso para uma menininha linda como você”. “Tá bom, vovó. Cê vem agora?”. “Tô indo”.

Marília volta correndo para casa. Percebe a TV ligada na sala e o barulho do chuveiro dos pais. Entra no seu quarto e escolhe algumas roupas para colocar na mochila. Compenetrada, abre gavetas, decide por algumas peças, define cores. Não pode se esquecer das calcinhas, laços de fita e a pantufa em formato de nuvem. O furo no pé começa a incomodar. Vai ao banheiro no corredor para um banho rápido e silencioso. Limpa a ferida, coloca merthiolate e um band-aid de princesas. Volta enrolada na toalha para o seu quarto. Lê um gibi e espera.

Vovó Lucia chega mais rápido do que Marília havia previsto. Fica no quarto quietinha enquanto escuta a discussão entre mãe e filha na sala. Segue uma conversa dura. Uma conversa que já transcorreu inúmeras vezes e que acontecerá ainda muitas outras entre aquelas duas mulheres. Acusações de ambos os lados. Choros & Gritos. Ar pesado que carrega as almas das antepassadas da família. Mãe e filha; mãeefilha; mães e filhas.

De repente, os gritos se transformam em sussurros. Marília não consegue ouvir mais nada de dentro do seu quarto. Atravessa o corredor na ponta dos pés para ficar encolhida atrás da porta da sala. Ainda invisível, vê dois homens calados e duas mulheres conectadas por olhares ferozes. Observa a mãe mexer com as mãos tal como se fosse segurar o ar; a avó solta longos suspiros. Será que eu vou ser assim quando crescer?

A conversa continua e a menina ouve apenas palavras soltas. Olha para os pés. As unhas estão grandes e sujas de terra. Não dá para roer as unhas do pé, uma pena! Mamãe não corta as unhas dos pés dela já faz tempo. Fafá também se esqueceu. Vai ter que pedir para a vovó, apesar de ela já estar meio velhinha e sempre tirar uns bifes dos cantinhos.

Uma frase vomitada pela mãe faz com que a menina volte a atenção à conversa. Ela vai ter um irmão? Será que a arrumação do quarto trancado tem a ver com isso? Papai do céu deve ter ouvido os seus pedidos! Queria uma irmã, mas um menino também resolve, desde que ele não bagunce os seus experimentos no quintal. E ela vai poder mandar nele todos os dias, afinal ela será a irmã muito, mas muito mais velha. A primeira proibição: não brincar com o Cadu (seu irmãozinho não pode ficar igual àquele menino chato). A segunda: não mexer nas suas experiências científicas. Também haveria ordens. A primeira: dormir agarradinho com ela todas as noites. A segunda: comer o almoço dela e não contar nada para a mamãe.

Um silêncio cai sobre a casa inteira. Vovó Lucia mira os olhos da sua filha e não abre mais a boca. Dirige-se à neta, sabia que ela estava ali faz tempo. A menina segura a mão da avó e só solta para dar beijos rápidos na bochecha da mãe e do pai. Ambos acompanham com olhos vazios a filha no meio dos avós, carregando a mochila pesada nas costas, uma mão com a Vovó Lúcia e outra com o Vovô Renato. Os três caminham firmes e silenciosos em direção ao carro.

De longe, Cadu tenta controlar uma inquietação no peito. Quer correr atrás de Marília, pedir desculpas e implorar para que ela fique e brinque com ele. Antes do vizinho chegar ao seu destino, a menina, como se estivesse em transe, entra no carro, tranca a porta e não abre a janela. Olha para a frente enquanto o avô acelera. O menino, cabisbaixo, volta para a sua casa não sem antes encarar selvagem os pais de Marília. Nunca gostou deles mesmo.

O trajeto até o novo destino é feito em silêncio. Marília chega à casa dos avós e pede para descansar. O quarto de hóspedes está à sua espera, como de costume. Sente o cheiro de comida gostosa vindo da cozinha. Vovó está preparando bife com batatas fritas. Vai pedir para comer goiabada depois de limpar a louça. Deita na cama e contempla pela janela as nuvens grandes que se movimentam com lentidão. Queria ser nuvem, talvez chuva, com certeza lua, sol não, porque é muito quente.

Um sono leve alcança a menina e o pesadelo recorrente vem tal como uma película velha que começa a rodar cheia de ruídos produzidos por um projetor quebrado. O pesadelo de sempre, de noite sim, noite não. Pesadelo que já contou para Fafá, para as formigas do quintal e uma vez quase contou para Cadu. A menina tem a cabeça raspada pela mãe enquanto chora e suplica para que tenha piedade dos seus cachos. A mãe, compenetrada, extermina com perícia todos os fios de cabelo da filha que, paralisada em cima de uma cadeira de couro branco dentro de um imenso quarto branco, deixa lágrimas escorrerem até o queixo. Quando o suplício chega ao fim, a menina passa as mãos sobre a sua cabeça lisa como uma cigana passa as mãos sobre uma bola de cristal. Fica longos minutos nesse carinho choroso, já com saudades dos cachos. A mãe prontamente arruma o quarto, varre os fios de cabelo, manda a menina parar de drama e levantar da cadeira. Precisa limpar os móveis brancos do quarto branco. Marília obedece à ordem e abre a porta do quarto.

Ainda entre as névoas do cochilo e do pesadelo, a menina não desperta coberta de suor como sempre faz. Sorri um sorriso bobo e até feliz. Essa é a última vez que aquele sonho terrível irá persegui-la. Mamãe não precisa mais raspar a cabeça dela. Não é necessário. Ela vai ter um irmãozinho.


Mariana Carvalho

14 de janeiro de 2021