BACURAU é de foder!

Só existem filmes de gênero. O filme pode ser de vingança, de amor, de futuro, de ET, de espada, de assalto, de porrada, de chorar, de perseguição de carro, de advogado, de ciborgue, de putaria, de superação, de pistoleiro, de rir e até mesmo de festival. Ironicamente, parte do público de um desses gêneros – os filmes de festival – acostumou-se a chamar todos os filmes que não gostam, ou que não gostam de gostar em público, de “filmes de gênero”, como algo menor dentro do universo da sétima arte. Creio que é contra isso que Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles afirmam, repetidamente, em suas entrevistas que Bacurau é um filme de gênero. O que equivale, politicamente, a dizer que Bacurau não foi feito unicamente para o pequeno e apaixonado público dos filmes de festival.

E qual seria o gênero desse grande filme de gêneros? É, antes de tudo, um filme de pistoleiro. Mas também é um filme de ciborgue, um filme de vingança, um filme de amor. Tem, ainda, notas de filme de ET e, vencedor em Cannes, também é um filme de festival. O que isso quer dizer? Para mim, nada. Só uma pequena parte das pessoas que gostam de filme estão interessadas em linguagem cinematográfica, enquadramento, referências. A maioria absoluta que saber é da história. A gente gosta de salsicha e não quer saber como ela é feita, já disse o Joesley Batista.

Bacurau é o melhor filme brasileiro de todos os tempos justamente porque conta sua história melhor que todos os outros – pelo menos os que já vi, que não foram todos, não foram nem todos canônicos, mas também, respeita minha história, foi mais que uma dúzia.  E eu acho que a mistura de gêneros à qual me referi acima não nasce de uma decisão estética dos diretores, mas sim da coragem de manejar o estilo a favor da narrativa sem se preocupar com a forma como as pessoas vão receber isso. Em outras palavras, é filme de ET porque ET é o melhor jeito de dizer o que tem que ser dito naquele momento.

E a história que Bacurau conta tampouco é nova. É a história de pessoas comuns fazendo coisas incríveis enquanto um ambiente desgraçado tenta atrapalhar. Mais um gênero pro filme: superação.

O ambiente político nesse tempo paia em que vivemos tem levado a discussão sobre Bacurau para uma análise política do filme, tratando ele como uma alegoria da nossa triste realidade. Eu concordo que Bacurau é o melhor filme político de ciborgue que já assisti, mas acho que submetê-lo a essa leitura é pouco. O filme é maior do que o nosso momento, suas questões serão mais duradouras que as desse nosso já longo inverno. Afinal de contas, é só um filme. É só o melhor filme de cangaceiro que já existiu.

Saí do cinema com o coração disparado, com vontade de beber, soltar rojão, correr de moto sem capacete, fazer um filme. É só um filme, mas daqueles que minha mãe diz que dão na gente vontade de melhorar como gente. Quanto eu ainda tenho que melhorar como ser humano para ser um sujeito digno de alugar uma casinha em Bacurau?

É só um filme, mas, de vez em quando, até mesmo esses filmes de festival batem no fundo do coração da gente.


Danilo de Oliveira

5 de setembro de 2019