Uma lupa sobre o Cena Contemporânea

Rodolfo Godói é ator, professor, sociólogo, leonino, roqueiro raiz e topou fazer essa atenta cobertura do Festival Cena Contemporânea 2017 para a Revista Seca

O Cena Contemporânea tá de maior. Afoito pela liberdade, o Festival chegou à sua 18ª edição, 20 anos após seu nascimento. Em 2017, comemorou a sua maioridade por todo o DF com 23 espetáculos em mais de 60 apresentações, 10 oficinas, 13 mesas de debates, 3 lançamentos de livros. Tem gente dizendo que é TOP 5 dos Festivais, mas a gente acha que é tipo TOP 3 mesmo.

Teve teatro da África do Sul, Espanha, França, Colombia e Terras Brasilis também. Fortalecendo a circulação das artes cênicas, o Cena Contemporânea gira a economia criativa da cidade, promove empregos, encontros, fruição e até romances efêmeros.

A apresentação do Festival nos convoca a “levar às últimas consequências os objetivos do fazer artístico”, e aí cada um com seu cada qual objetivo. Nessa edição, as urgências sociais estiveram sob os holofotes, e as políticas identitárias gestadas nas últimas décadas entraram descendo a porrada em geral.

A vida do dia a dia é um teatro, e essa não é uma frase apenas para status do Facebook, acompanhada de foto do Charles Chaplin de sobrancelhas erguidas. Dizer isso é afirmar que, ao forjar-se enquanto real, o teatro mostra que todo o resto também é farsa e que, portanto, pode e será modificado. E todo o resto, para muita gente, tá foda, tá violento, tá uma barbárie.

A curadoria não se conteve em fazer uma apologia simplista à ‘diversidade’ ou ‘multiculturalismo’, no melhor estilo neoliberal. O teatro não é sobre formas estáticas a serem preenchidas por ‘representatividades’. Mas, sim, uma disputa de linguagens, de narrativas, de cor, de plateia, de quem se é e de quem se pode ser – rasgando ao meio o peito mesmo.

***

A primeira mesa do Cena Expandida, Circunferência – poéticas circenses na contemporaneidade, aconteceu no dia 22 de agosto e foi conduzida por Marcelo Nenevê, tendo como debatedores as mestrandas Julia Henning, Manuela Matusquela e Guilherme Bruno. A disputa das mulheres palhaças, como observa Manuela, objetiva insurgir o feminino na sua potência de também ser cômico. O circo se atualiza nas disputa dos semáforos, na busca do risco, no relaxamento do riso. Estilhaça significados.

Mesa de debate “Guerrilheiras ou para a terra não desaparecidos”. foto: Rômulo Juracy/Cena Contemporânea

O corpo das mulheres que não é cogitado como produtor de riso, tampouco é pensado pra guerra.  Em Guerrilheiras ou para a terra não desaparecidos, aprendemos sobre uma história que nunca nos foi contada, em um país que desconhece suas guerras, pois não quer se reconhecer em conflito. Das setenta pessoas que travaram a Guerrilha do Araguaia, dezessete eram mulheres, e foi um corpo de mulher o último a morrer. Afinal, quem é a verdadeira traidora em tempos de ditadura e golpe? #ForaTemer.

O corpo é estuprado, o corpo é violentado, o corpo vai à guerra, o corpo é matado, o corpo é enterrado. E é o corpo que, então, reivindica outros corpos no teatro. Que corporifica em si mesmo as alteridades. Para jamais esquecermos que, na disputa histórica, nem os nossos mortos estão a salvo, muito menos as nossas mortas.

A mesa As mulheres da resistência e a justiça de restauração reuniu artistas de dois espetáculos: Guerrilheiras e Duas Gotas de Lágrimas no Frasco de Perfume; além da Professora Doutora Camila Prando e da atriz Tatiana Bittar, da Cia Andaime de Teatro (DF). Nesse encontro, o diretor Sergio Maggio nos lembrou que Amarildo terá como atestado de óbito o mesmo que as vítimas da ditadura civil-militar no Brasil: atos violentos do Estado. Ter sido um homem negro, favelado e trabalhador não foram identidades aleatórias que se combinaram dentro de uma possível diversidade – foram marcadores de abjeção.

Precisamos ouvir os mortos. Ouvir o que não tem linguagem. “Dona Debora, uma das mães de maio, que teve seu filho morto pelos tiros de agentes do Estado no ano de 2006, no Estado de São Paulo, nos afirma: nossos mortos têm voz. E nos pergunta: ‘quem nos ajudará a dar voz aos nossos mortos?’”, Prof. Dr. Camila Prando (Direito UnB).

O mesmo Estado que mata e esconde seus mortos é o que exige comprovante de residência para estudante – mesmo que ele viva na rua. Max Maciel (RUAS), Fábio Felix (Conselho da Criança e do Adolescente), André Noblat (Traços), Lívia Fernanzes (espetáculo Teto e Paz) e Dyarley Viana (Coletivo da Cidade e INESC) estiveram partilhando potencias da arte e cultura para as urgências sociais na mesa Realidades Vulneráveis: Sonhos em Cena. Max Maciel faz mea-culpa do movimento social ao denunciar que a lógica de querer tirar as pessoas da rua é uma forma de colonizar sua experiência. No DF, tem muita gente morando na rua, muitos há muito tempo. Garantir direitos para essa população não deve implicar em obrigá-la a sair dos espaços onde construíram suas redes e subjetividades. Tampouco podemos nos calar frente à privatização e à mercantilização do acesso à cultura, se o cinema só rola no Shopping, o rolezinho será sempre barrado.

Espetáculo “Black off”. Foto: Rômulo Juracy/Cena Contemporânea

E, assim, a pergunta do mestrando em Artes Cênicas, Yuri Fidelis, permanece: “Como metaforizar o horror?”, como fazer arte a partir da tragédia do real? Black Off, que abriu o Festival, aponta vários caminhos para a luta anti-racista, nela a Sul-africana Ntando Cele é assertiva: “Vejam artistas negrxs, nós também fazemos arte. Leiam negrxs, nós também sabemos escrever.”. E essa também pode ser resposta a uma insistente pergunta que atravessou a trajetória de Cristiane Sobral, primeira atriz negra a se formar na UnB: “Quem você pensa que é?”. Ntando Cele, Cristiane Sobral, Viviane Ferreira e Victor Hugo compartilharam experiências de ser negrx em diaspora na mesa Entre áfricas e brasis: trajetórias negras e transatlanticas na cena contemporânea, que aconteceu na Faculdade de Comunicação da UnB, tendo a maior plateia de toda Cena Expandida.  Entre tantas coisas, nos relataram sobre como corpos e a produções artísticas negras são constantemente deslegitimadas ou acusadas de ‘meramente políticas’.

E quanta política e geopolítica nos inunda. Tsunami. O espetáculo foi gestado pela equipe criadora em diálogo intenso (e não desses fakes para cumprir tabela) com estudantes do Centro Educacional Stella dos Cherubins – Planaltina -DF. Com sutileza e riso frouxo, Ana Flávia Garcia nos coloca no meio da sua arapuca e de súbito puxa a corda e faz um furacão de nossas emoções – tudo isso sem falar uma palavra em português, nem em nenhuma outra língua já existente. Em Tsunami também vemos a diáspora, mas uma outra, a de tantas e tantos que hoje – agora – fogem de suas terras, de suas histórias, em busca de encontrarem aquilo que só quem perdeu sabe o preço que vale: Paz. Migrar é um direito humano.

O apagamento do passado também se apresenta nas tentativas de apagamento do presente. Foi na noite de 31 de agosto, que um grupo de católicos reuniu-se na frente do Teatro Paulo Gracindo – SESC Gama para rezarem-contra (isso existe?) o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, interpretado pela atriz Renata Carvalho. A obra fala sobre aquela parada óbvia: Jesus é manero, o fã-clube é que regaça. Pois, se andava entre os mais oprimidos e explorados, seria ao lado de pessoas travestis, como Renata, que Jesus voltaria.

Hoje insistimos em nomear as diversas identidades, para evidenciar um mundo conflituoso. Georgete Fadel, em Afinação I, dá uma aula sobre a urgência da razão em tempos de canalhice intelectual (leia-se burrice). Talvez Marx seja celebrado quase como deus, pois foi ele quem possibilitou a nomeação de uma série de angustias que ainda não tinham título nos primórdios do capitalismo europeu, aqueles que só tinham o próprio corpo para vender como força de trabalho: os proletários.

No princípio era o verbo, tanto do mundo como de nós mesmos, que só existimos pela nossa entrada na linguagem. O verbo dá vida ao mesmo tempo que mata tudo o que fica de fora. A linguagem é branca, patriarcal, elitista. A voz de Grace Passô, em Vaga Carne, surge do nada, atravessa objetos, seres, tempos e aloja-se no corpo de uma mulher. “Quem é essa mulher, digam vocês!”, a atriz nos convida a brincar de deus da plateia. A plateia do Teatro Paulo Autran estava bastante interessada em falar, inclusive.

 ***

No princípio, era o verbo, daí em diante, o que se sucedeu foi tudo teatro.

Mas antes do verbo ainda tem o corpo. E a capital federal acordou no dia dois de setembro com 115 corpos nus. Batizada de Fotona, o nú-manifesto registrado por Kazuo Okubo é o maior já registrado por aqui. Pele versus Concreto na cidade que dorme cedo, para incomodar a geração que nos anos 1980 tocava Roque’N’Roll nas Super Quadras, mas hoje anseia é que as violas e violões se calem cedinho. Nas interwebs, a intervenção ganhou diversas reações. Além das já manjadas acusações contrárias aos viados-putas-vagabundos-maconheiros-que-não-têm-mais-nada-o-quê-fazer, também a pergunta fundadora do Capital: “qual a utilidade disso?”. E a Fotona deixou seu recado: nascemos nus, o resto é performance.

Professor Ana Paula, da Escola Estadual Cândido Ulhoa, da cidade de Bonfinópolis. Foto: Rômulo Juracy/Cena Contemporânea

No mesmo dia 02, um daqueles presentes que nos fazem acreditar que de fato tamo no rumo certo. A Professora Ana Paula, da Escola Estadual Cândido Ulhoa, da cidade de Bonfinopolis (300km do DF), aporta na cidade com 50 estudantes do Ensino Médio para prestigiarem o Festival. A galera chegou por aqui às 9h, e às 11h trocaram uma ideia com a gente. As lágrimas marejaram os olhos da equipe. Em tempos de golpe, saber que tem gente nesse Brasilzão que aposta na cultura e educação é de sorrir e chorar ao mesmo tempo.

O #Cena2017 acabou e o #Cena2018 já tá no forno. Festival é tipo uma festa bem grandona.

Rodolfo Godói em foto de Rômulo Juracy/Cena Contemporânea


Rodolfo Godoi

29 de setembro de 2017