Arte Corpo Bambu e o mar que não tem beira

Entrevistamos Poema Mühlenberg, da Cia Nós no Bambu, que se apresenta na Funarte no fim setembro e início de outubro.

Foto: Daniel Lavenere / Reprodução

A Cia Nós no Bambu estreou em maio deste ano o espetáculo “Mar sem Beira”, o quinto da companhia, que está nos palcos desde 2008, quando montou “Uirapuru Bambu”. Em temporada de oito apresentações nos meses de setembro e outubro, “Mar sem Beira” volta a ser montado em Brasília, na Funarte.

A arte corpo bambu encanta plateias de todas as idades com a acrobacia, a estética do risco, a relação com objetos. Todos elementos do circo contemporâneo, que são misturados à dança e ao teatro físico. Ou seja, é arte em essência.

Serviço:

28, 29 e 30 de setembro (quinta a sábado) às 20h
01 de outubro (domingo) às 19h
5, 6 e 7 de outubro (quinta a sábado) às 20h
8 de outubro (domingo), matinê 16h

Local: Teatro Funarte Plínio Marcos
Endereço: Complexo Cultural Funarte – Eixo Monumental,
Setor de Divulgação Cultural, Lt 2 – Brasília-DF

Valor dos ingressos:
R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia-entrada)

Classificação Indicativa LIVRE

A Revista Seca foi até o espaço da Companhia e conversou com Poema Mühlenberg, produtora, cofundadora do Nós no Bambu e uma das dançarinas intérpretes do espetáculo. Confira abaixo a conversa que tivemos aos pés de uma enorme gameleira.

 

Foto: Nanah Vieira

Seca – Como começou a companhia?

Poema Mühlenberg – Era uma vez… [risos]. Um homem chamado Marcelo Rio Branco. Ele é formado em Educação Física pela UnB. Ele é um cara muito inquieto, criativo. Antes de fazer educação física, ele fez matemática, e largou. Toca bateria… Sabe essas pessoas assim, com esse cérebro ativo? Aí ele procurava uma atividade física que, em uma hora e meia de prática, ele tivesse tudo que fosse necessário pra manter as aptidões físicas, a saúde. Então ele descobriu que, subindo em árvore, ele tinha tudo o que precisava. No quintal da casa da mãe dele tinha umas mangueiras boas de subir. Ele viu que o legal da árvore é que ela te ensina um estado de prontidão, porque é sua vida que está lá no alto, você tem que estar alerta, presente. Saber abrir a sua sensibilidade ´pra saber se o galho é forte ou é fraco. Ela te oferece ganchos, alavancas, torções. O acolhimento de uma rede. Uma automassagem. Tudo isso em uma árvore, né. A possibilidade de fazer vias. E um ambiente muito diversificado, muito antagônico ao que se pratica em uma musculação, que ele não curtia, achava que não era o caminho pra uma inteligência corporal.

E aí, um dia, ele teve o insight de começar a fazer árvores de bambu. No dia 25 de julho ele viu uma pilha de bambu na rua e disse “Ah, assim dá pra eu construir formas que eu possa repetir e me comunicar com outras pessoas”. Porque cada árvore é de um jeito, se eu estou em uma mangueira daqui e você em outra ali, não dá pra eu falar pra você “Pega seu braço direito e põe ali…”, porque vai ser outra coisa. Então ele começou a desenvolver o sistema integral bambu. Que já tem 18 anos.

Em 2003, ele tinha um espaço de pesquisa no C.O da UnB, e eu comecei meu segundo curso lá também nesse ano. Aí comecei a praticar como uma atividade física criativa, lúdica. Lá eu encontrei com a Ana Flávia almeida e a Roberta Martins, que também eram praticantes e também tinham experiências anteriores em dança e teatro, e aí a gente começou a brincar, dialogar. O Marcelo também participava muito dessas explorações de novas formas. Nessa época, ainda não se usava muito o Youtube, então a gente ia descobrindo por nós mesmo o que dava pra fazer com aquelas formas. A gente não tinha claro essa referência de que a gente estava dentro do contexto do Circo Novo, pra gente, a gente estava subindo em bambu. Só que era um grupo que, além de gostar de subir em bambu, já tinha uma aptidão artística por experiências anteriores. Aí a gente começou a receber convites pra participar de eventos. Amigos que conheciam e promoviam festas diziam “Ah, leva esses bambus, monta lá, e tal”. O Marcelo foi quem deu o pontapé nisso, foi ele que recebeu os primeiros convites, aí ele pensava em umas formas malucas e montava nas festas. Aí a gente ia lá e explorava, sem ensaiar nem nada, na louca. Então foi começando a surgir a vontade de ensaiar, de criar coreografias. E nesse processo o Marcelo foi se distanciando, porque o objetivo dele era mais pesquisa e pedagogia, do que o palco. Aí a gente foi fortalecendo esse núcleo duro de pessoas interessadas em desenvolver a vertente artística do sistema integral bambu, né.

O Marcelo diz que a integral tem três profissões. Médico, operário e artista. O médico porque você cuida da sua saúde, com automassagem, com descompressão de vértebras, torções, etc. O operário, que é a habilidade motora, inteligência motora, saber como administrar a sua energia, a sua fadiga quando você tem uma determinada tarefa a realizar. E o artista, que utiliza essas habilidades pra expressão, pra poesia.

A gente continuou a receber convites pra eventos, então fomos criando números, performances. No início era muito difícil, porque não tinha local de ensaio. A gente tinha o local de treino da integral, que nessa época tinha baias, que é uma forma que não se pratica, que não tem mais no espaço da integral bambu hoje. E tinha mastros. O mastro foi a primeira estrutura que a gente achava mais performática. Só que, mesmo assim, era mais limitado, a gente não conseguia ensaiar. No início era muito improvisado, a gente combinava a coreografia de boca. Era tipo: “Ó, aí nessa hora, vou fazer assim, e vou inverter, e você faz assim com a perna…” Aí chegava na hora, batia uma perna na outra, não dava muito certo [risos]. Mas foi indo. Até que a gente conseguiu nosso primeiro espaço de ensaio. Aí a gente começou a construir uma arte coreográfica. E isso maraca um pouco a separação entre o que é a integral bambu e a companhia Nós no Bambu, que resolve se dedicar profissionalmente.

Foto: Daniel Lavenere / Reprodução

S – Você disse que o Marcelo viu o bambu na rua um dia e resolveu testar. Mas, por que o bambu deu certo? O que ele tem que garantiu a possibilidade de expressão?

PM – O bambu é especial por muitos motivos. Eu não saberia dizer todos. Tem o aspecto anatômico, porque ele tem uma certa regularidade na forma. É roliço, então é muito amigável à nossa estrutura óssea, ao corpo. Ele é acessível, porque a gente tem aqui fornecedores de bambu. Sem acessibilidade, não seria possível também, né. Tem a colônia de japoneses do Riacho Fundo, que Juscelino chamou pra cá. Vieram de Goiânia em 57 ainda, formar o cinturão verde ao redor de Brasília.

E ele é muito terapêutico, tem essa capacidade de acalmar o psiquismo, de levar a um processo de auto escuta. Tem uma energia sutil que é muito terapêutica. Pra mim, me levou a um processo de autoconhecimento, pelo corpo, pelo movimento.

E é leve, né! É relativamente fácil de construir com ele. É sustentável também. É uma combinação de fatores que possibilita o florescimento e o amadurecimento dessa nossa arte.

A gente foi construindo essa poética em que o movimento é impregnado pelo material. Essa flexibilidade, a questão de ser oco por dentro e rígido por fora, de ser ao mesmo tempo uma forma masculina e feminina. Todas essas coisas mais palpáveis, como a textura, e até as mais sutis, são materiais pra gente construir essa arte coreográfica integrada ao bambu. A gente chegou a um conceito do que é que a gente faz: a arte corpo bambu.

Foto: Nanah Vieira

S – Como é a história da chácara, do espaço onde a Companhia está instalada hoje?

PM – Esse galpão é o local do primeiro centro de Umbanda de Brasília. Aqui era o centro espírita Nossa Senhora da Conceição, e foi fundado pela Dona Marleninha, que é carioca e veio pra cá. De 61 ou 62 até 98 o centro funcionou, até ela falecer. Aí os filhos de santo não seguiram com o trabalho aqui e os filhos de sangue quiseram vender o terreno. Parcelaram, e a minha família ficou com essa parte que compreende o galpão. O centro era maior, ia até o outro lado do rio. Mas aqui é o centro do Centro, né, digamos [risos]. Essa árvore [embaixo da qual conversamos] é uma árvore do panteão da Umbanda, o Iroko, a gameleira, que é a representação do Pai-Tempo. O bambuzal onde a gente estava é o bambuzal do Seu Urucuçu da Cobra-Coral, que é o caboclo guia da Dona Marleninha.

Aí contam que, quando ela estava atoada do Seu Urucuçu, ela chegava ali na porta e soltava flechas no bambuzal e a cobra-coral subia, entrava no salão. Essas coisas mágicas.

S – E como é a relação com essa energia? Isso tem a ver com o trabalho da Companhia também? Você sente esse diálogo?

PM – Eu sinto. Primeiro, porque eu sou batizada na Umbanda, a família é toda eclética. A gente é sensível às forças da natureza, que são as forças trabalhadas na Umbanda também, né. Eu acho que a espiritualidade verdadeira é uma com a arte. As duas têm o mesmo papel, eu acho, que é de fazer esse religare. Então eu me sinto tranquila de usar esse espaço sagrado pra criar.

S – Como foi a trajetória artística da Companhia, desde essa gênese, até chegar no “Mar sem Beira” agora? O que o novo espetáculo representa dentro dessa trajetória?

PM – Bom, é o quinto espetáculo da Companhia. Ele representa mais uma etapa na construção da nossa pesquisa. A Companhia sempre desenvolveu duas linhas de pesquisa simultâneas. A gente precisa ter as formas do bambu e o que fazer com elas. Então a pesquisa sempre se desenvolveu nessas duas linhas, uma de conhecer o bambu, aprender a trabalhar com ele, o que construir com ele. Uma pesquisa de design também. E, em paralelo, a pesquisa dramatúrgica, de movimento. Como construir um universo poético que tem o bambu como pretexto. A gente não parte de uma dramaturgia, a gente parte de um pretexto, né, que são os bambus.

Como é uma coisa muito diferente, em paralelo ao trabalho corporal, tem também um trabalho conceitual, que a gente foi, pouco a pouco, amadurecendo como conceituar o que a gente faz. E isso dá mais força e propriedade. Então, no início, a gente usava estruturas de bambu. E é também estrutura, mas também é cenografia. Se você abordar pela perspectiva do circo, é um aparelho acrobático. A gente chegou a um conceito na época que eram esculturas artesanais de bambu. Mas hoje eu acho que a melhor forma de definir é por instrumentos acrobáticos. Porque cada vara é de um jeito, então cada uma vai ser tratada artesanalmente, cada uma nasceu de um jeito, tem uma maturação, uma espessura, um diâmetro. Por mais que a gente tente chegar em uma semelhança, é impossível, né. É que nem você ter um violão. Cada violão vai ter uma especificidade, aí precisa de uma intimidade pra você tirar o bom som dele.

Foto: Daniel Lavenere / Reprodução

S – Nesse espetáculo especificamente, como foi esse processo? Quais foram as referências, ou em cima de que tipo de reflexão vocês construíram o Mar sem Beira?

PM – Então, voltando um pouco à construção dos instrumentos, o Uirapuru Bambu (primeiro espetáculo), tinha uma cenografia gigantesca. A gente tinha oito mastros de bambu, de seis metros de altura, no centro, uma geodésica com onze metros de altura por fora, mais umas três pirâmides gigantescas que a gente carregava em cena. A gente só apresentou no memorial dos povos indígenas.

Aí, no “Ultrapassa”, nós já resolvemos fazer uma coisa que coubesse no nosso espaço de ensaio. Muito sábio, né [risos]. Aí já foi uma etapa de simplificação. Já era um cenário que cabia num espaço e nove por nove metros. Mas, ainda, assim, levava um dia pra montar a cenografia. E aí, no “Desdobrar”, a gente usou só os tripés, que ainda não tinham a tecnologia que a gente tem hoje, que são os cabos que ficam presos de um ponta a outra e impedem que eles se abram totalmente. No “Teia”, a gente fez uma união de mastros e tripé. E ainda tinha um tetraézio pendurado, pra uma triz só usar.

No “Mar sem Beira”, a gente resolveu simplificar. A gente precisava fazer um espetáculo que fosse mais simples de circular. Então, vamos ficar só com o tripé de novo. Só que aí já eram outras pessoas, e cada um foi encontrando uma forma diferente de usar essa mesma estrutura. Ele é muito simples, ele é autoportante, ele é manipulável, então eu posso entrar e sair com ele de cena. Isso já simplifica muito a circulação. Então, foi a partir de uma ideia de mobilidade, e de uma visão mais amadurecida sobre produção também.

Aí a gente começou a ver o que dava pra fazer com o tripé de bambu. E a gente percebeu que dava pra fazer coisas muito diferentes, né. A gente começou a ver que, quanto mais a gente pesquisava, mais coisas diferentes dava pra fazer com o tripé de bambu. E daí que surgiu o nome “Mar sem Beira”. Uma vez que a gente definiu o nome, começamos a ser mais influenciados pelo imaginário do mar, e começou a surgir essa história de personagens que estão cada um na sua viagem, mas que de repente têm algo de semelhante, e o se encontram.

S – O espetáculo já estreou em maio, no próprio espaço da Companhia certo? Agora vai ter uma temporada na Funarte. Como foi a recepção do Mar sem Beira, e o que vocês esperam para essa nova montagem?

PM – Tudo vai amadurecendo. Acho que quanto mais a gente apresenta o espetáculo, mais gostoso fica de apresentar. Porque a estrutura dele já vai ficando mais dominada, e aí a gente consegue curtir mais dentro de cada micro momento ali, né.

Aqui a gente apresentou dentro da nossa casa, que foi muito legal, mas tem suas limitações como uma caixa cênica. Depois a gente apresentou no festival internacional de circo do Sesc, em São Paulo, o Circos. Apresentamos no Sesc Itaquera, e foi super legal. Lá, a gente apresentou em um espaço aberto, que é uma versatilidade que a gente já previu pro espetáculo. Foi super legal, porque a gente apresentou à tarde, e tinha muita criança, o que já possibilitou a gente descobrir um outro diálogo, né. Quando você fica na caixa cênica, o público fica meio escuro ali. Mas lá foi muito divertido pegar essa energia da criança, que de repente você olha, ela tá ali vidrada.

Agora, na Funarte, vai ser a primeira vez que a gente vai montar em uma caixa cênica de verdade. Então, a gente vai poder aprimorar a nossa iluminação, alguns aspectos técnicos que a gente espera melhorar. E que muito mais gente assista, né. Porque o objetivo é compartilhar o que a gente prepara com tanta dedicação.

Foto: Nanah Vieira

S – Como tem sido o trabalho de captação de recurso para a realização do espetáculo? Como você vê o cenário de produção cultural em Brasília?

PM – Pro “Mar sem Beira”, a gente teve o fomento do FAC, pra montar o espetáculo. Que não é uma super verba também. E agora a gente está indo pra nossa temporada de forma totalmente autônoma. A gente tem a pauta da Funarte, que praticamente não tem custo, ela cobra 10% da bilheteria, e o resto, nós estamos indo na cara e na coragem, com os próprios custos pra fazer acontecer. Nesse momento, a gente tem que segurar firme no lugar, não pode perder espaço que já foi conquistado.

Agora, falando do ideal, claro que seria ter muito mais possibilidades de desenvolvimento, de fomento. Não digo só ter recursos pra projetos específicos, mas pensar a cultura e a arte como uma ferramenta estratégica pro desenvolvimento de uma nação. É uma estupidez não se considerar isso, levando em conta que o Brasil é um país tão criativo, tão diversificado, divertido. É uma riqueza subutilizada. Se a gente tivesse uma porçãozinha pequena de tudo o que é subsidiado pro agronegócio [risos], a gente teria uma grande indústria da cultura e da arte no país.


Vitor Camargo de Melo

26 de setembro de 2017