Por que assistir: Please Like Me.

Aviso aos navegantes: este texto conterá spoilers!

Please Like Me (PLM) é uma série australiana que entrou no catálogo do Netflix em 2016, com 4 temporadas. A comédia dramática narra a vida do jovem Josh e suas relações afetivas, dando uma perspectiva inusitada a temas do cotidiano de um recém-adulto. Josh, o protagonista, recebeu o mesmo nome do idealizador da série, que se inspirou em sua própria vida para criar o personagem.

Eu mesma só tive o prazer de saber da existência de PLM em março de 2017, quando comecei e terminei as temporadas disponíveis numa incansável maratona. Ao final da quarta temporada, pesquisando na internet, descobri que não existiria uma quinta. Segundo o idealizador: Em última análise, decidimos isso porque estamos muito felizes com o que fizemos e sentimos que está completo. Justo! Dessa forma, a série não se estende anos a fio, numa interminável história sem história, e só nos restam as lembranças boas, sem riscos de decepção.

Eu te amarei para sempre, PLM!

O inusitado:

Engana-se quem começa a assistir a série acreditando que se encantará de cara com o personagem principal. Josh é um homem jovem, com voz de criança e cara de adulto, é narcisista, fala demais e é irônico, mas um irônico não cínico (tirem suas próprias conclusões).

No primeiro episódio, após questionar a sua namorada a razão pela qual estaria levando um fora, Josh escuta que é gay. Motivo honesto para se terminar um namoro e um marco para os novos relacionamentos na vida do personagem principal. A reviravolta na vida de Josh, que se inicia com o término do relacionamento, vai ganhando densidade a partir do momento em que sua mãe, Rose, tenta se matar com uma caixa de Panadol e meia garrafa de Baileys, e seu pai, Alan, tenta socorrê-la, por pensar que o real motivo da tentativa de suicídio teria sido a separação deles. O contexto já parece bem complicado, mas piora após sabermos que Alan e Rose não se falam. De forma leve e bem-humorada, Josh contorna essa situação, atualizando seu pai com informações sobre a mãe e omitindo da mãe a preocupação do pai.

Onde está o inusitado nisso tudo?

A leveza do roteiro. Uau! Acompanho outras séries, como Love, Girls, Crashing, Lovesick, em que é retratada a mesma geração, a geração nem-nem, nem trabalha (ou quando trabalha está insatisfeita), nem estuda; passando por um momento vazio da vida, com a cabeça desocupada de obrigações, mas transbordando conflitos emocionais e familiares, numa busca por autocompreensão. Diferentemente dessas outras séries, PLM não vive de exageros, não transforma a vida numa catástrofe, não é um dramalhão. Sua extrema beleza está no retrato singelo que faz do cotidiano e na delicadeza com que apresenta seus personagens.

O Carisma:

Demorei alguns episódios para compreender o quanto Josh é carismático! Ele é suave em suas relações, e são essas relações que são capazes de mostrar o que o personagem tem a nos oferecer, quem ele é. Josh consegue ser engraçado, irônico e delicado num mesmo episódio. Mas também é um cara inseguro. Assim como qualquer outro jovem, o personagem tem problemas com seu corpo, com seu rosto e com relacionamentos, enfrentando essas situações ao seu modo. Bem longe de sentir qualquer tipo de autopiedade, ele lida com as circunstâncias da vida de forma bem particular, o que, para mim, dá o tempero da série. São situações desconfortáveis, dramáticas ou apenas cotidianas, que envolvem questões como sanidade metal, homossexualidade, preconceitos, relacionamentos, entre outras, todas reveladas através das relações diretas, ou indiretas, que envolvem Josh.

O soundtrack:

Acabada a série, corri para o Spotify para baixar a sua playlist completa. O meu primeiro interesse pelo soundtrack foi a música de abertura, I’ll be fine (Clairy Browne & The Bangin’ Rackettes). Incrível! Caiu como uma luva. Vou ficar bem, diz a cantora, conseguindo transmitir a série por inteira. O soundtrack, com várias músicas que eu não conhecia, também conta com as conhecidinhas Kiss me, da banda Sixpence None the Richer (ficou muito famosa com Dawson’s Creek), Someone like you, Adele, e com a incrível Chandelier, Sia, interpretada belissimamente por Arnold, o então namorado de Josh, em um momento de delicadeza, no qual Josh tenta dar ânimo a sua casa, convencendo seu pai a encenar com Arnold a ocasião em que este contaria a sua família que é gay; levando eu, Alan, Tom e Claire às lágrimas, num dos episódios mais emocionantes de toda a série.

O episódio inesquecível:

Para descrever a doçura dessa série, lembro o episódio Degustação. Ele é rico de detalhes e nos remete a uma experiência sensorial. Trata-se da noite em que Josh resolveu convidar a mãe e o pai para jantarem num restaurante chique. O cardápio gourmet, escolhido por ele, contou com 15 pratos mirabolantes, um espetáculo à parte. Cada prato, um assunto. Os diálogos são variados. É nesse episódio que Rose declara a sua admiração e amor ao filho, que Josh decide dar ouvidos ao pai e que Alan e Rose entram em sintonia, relembrando os tempos de casados. Entre revelações, impressões de uns sobre os outros e lembranças do passado, o episódio conta com o excelente humor de Rose, Josh e Alan. Esse grande encontro amarra as suas relações e nos aponta o rumo que a série tomaria.

Terminando a noite regada a vinhos e 15 pratos deliciosos, a conta de 900 dólares que tanto desagrada Alan é eleita por Rose como o melhor investimento da sua vida.

Rose se despede, diz que ama Josh, beija a boca de Alan, diz que o ama, e vai embora de trem.


Fernanda Tibana Machado

14 de junho de 2017