Muitas das sujeiras só quem está limpando é que vê

Mais um abuso judicial no país da Lava-Jato

Ilustração: Sarah Sado

 

Numa manhã de quinta-feira, o oficial de justiça foi até minha casa entregar uma intimação para que eu comparecesse na semana seguinte a uma audiência. Na ocasião, o promotor propôs que cada pessoa do coletivo cumprisse  vinte horas de serviço para que se arquivasse o caso sem julgamento. A denúncia era de “perturbação do trabalho e do sossego alheio” e foi feita em decorrência de um ato por melhorias no transporte coletivo do qual participei. O promotor viu que não valia a pena acionar a justiça por conta do ocorrido. A verdade é que no dia do ato, o major acionado queria mostrar serviço quando voltasse à delegacia e então ficou atiçando a visível inexperiência do administrador da região. A situação, que então já tinha sido resolvida entre nós, virou. Para não negar sua macheza perante o militar, o administrador autorizou nossa detenção e, não satisfeito, fez uma denúncia de cárcere privado, acusação para além do razoável. Mas a dinâmica do poder em nossa sociedade é essa mesmo, se você tem autoridade e recusa-se a usá-la, você se arrisca a perdê-la. Institucionaliza-se a ideia de que é sempre melhor abusar do poder do que subutilizá-lo. E aqui estamos…

Lá no tribunal, quando me indicaram a entidade para prestar as horas de serviço, disseram que se tratava de uma creche. Mas, quando cheguei no local, era só uma casa usada como escritório. “Aqui é a sede”, me explicou o motorista de um dos automóveis parados na frente. A mulher que me atendeu informou que o trabalho que precisavam ali era de limpeza, “Te avisaram isso lá?”, “Não disseram nada” – respondi. Ela parecia um pouco constrangida, disse que eu ia pagar as horas rapidinho, que eu podia fazer os horários que eu quisesse e que ninguém ia ficar me cobrando. “Gostaria que você começasse pelos banheiros, você se importa?”. Fiz que não, “eu já lavei muito banheiro na minha vida” – apesar dessa minha aparência branca e delicada, pensei.

Trabalhar na limpeza foi a melhor coisa para aliviar um pouco da raiva que eu sentia naquele lugar, tendo que reorganizar meu tempo para estar ali, com tantas outras prioridades em mente.

Os funcionários atendiam ao telefone dizendo “Casa de Passagem”. Mas não havia ninguém “de passagem”, a não ser eu mesma. Não havia camas para dormir, os quartos eram utilizados apenas como depósito de material de limpeza e alimentos recebidos como doação. Sentia-me em um enredo de Kafka e Orwell ao mesmo tempo. A televisão na sala ficava ligada nos jornais, que contavam dos milhões de reais desviados pelos governadores na época da Copa do Mundo, e eu ali sendo punida por conta de uma manifestação popular. A perseguição à política institucional não alivia em nada a criminalização dos movimentos sociais e influi menos ainda na intolerância aos pequenos crimes da população marginalizada, que permanecia como prato principal nos noticiários do meio-dia.

Eu consegui desfocar da raiva significando o que era ocupar o lugar do serviço de limpeza feito para ser sinônimo de humilhação e punição. Pensava na minha casa que eu não tinha tido tempo de limpar. Mas me vinha também o estranhamento do lugar da faxineira que não foi construído para mim, apesar da condição de mulher. Muitas das sujeiras só quem está limpando é que vê. E no contato com o sujo, cresce um senso de dignidade muito forte. Uma consciência que quem não limpa a sua própria sujeira nunca terá. Enquanto eu vivenciava essa situação, minha voz interna logo se distraía da experiência real e imaginava o cotidiano de uma diarista que se tornou ambidestra porque em todas as casas em que chegava a luva da mão direita já estava estragada, só sobrando a esquerda para usar. Mas que bobagem, a luva esquerda também estava furada.

A sensibilidade humanista na qual fui criada me coloca esse dilema ético. Ela me aproxima do outro, mas não deixa de ser uma sensibilidade limitada ao lugar social e que quase nunca consegue escapar da exotização ou do distanciamento impotente.  O que vem depois que compreendemos a existência daquela alteridade, a ponto de conseguirmos narrar tão bem a sua dor? Borbulho por dentro na busca de construir outra forma de lidar com a sensibilidade que me constituiu, que é bem menos libertadora do que se dizia.

Passei a primeira semana toda com a raiva não elaborada e só consegui voltar na entidade na semana seguinte. Menstruada. Nenhuma propaganda de absorvente ou remédio para cólica fala das dificuldades de se fazer faxina menstruada, do medo de sujar a calça quando precisar abaixar e o patrão olhar sua bunda. Mas nesse dia acabei dando sorte, me pediram para parar a faxina e organizar a despensa, pois já havia outra pessoa trabalhando na limpeza. Duvidei que era uma pessoa pagando horas à justiça, porque era uma mulher de certa idade.  Ela se referenciava ao funcionário da entidade chamando-o de “Seu Fulano” e se desculpava por fazer muito barulho enquanto lavava um balde de metal infestado com larvas de mosquito. Quase me convenci de que ela fosse uma diarista contratada.

Quando ela sentou  no sofá  da sala, para descansar em frente à TV, passava uma notícia sobre a chacina de dez homens pela polícia no Pará, e foi nesse momento que começamos a conversar. Ela contou do filho que perdera e disse que ele era PM. “Nossa, morreu como?” “De suicídio”. “Sinto muito. Essa profissão é muito complicada né?”. “Mas não foi por causa da polícia, não, ele trabalhou lá 9 anos, era inteligente, nasceu para estudar, você precisava ver. Foi por causa da namorada, era muito apaixonado por ela. Quando ele conseguiu comprar um apartamento, foi mostrar a ela o lugar onde morariam juntos, mas ela não quis continuar com ele. Ele se matou em seguida, no estacionamento do prédio”. Me esforcei para não contradizer a conclusão da senhora de que um comportamento passional associado ao porte de arma não tinha relação com o trabalho  na instituição policial, mas sim  com a mulher que não queria mais se casar. Só assim poderia continuar oferecendo alguma escuta. Então ela me explicou que entrou com pedido de pensão na PM, um direito seu, já que seu filho não era casado e ela estava fazendo tratamento contra um câncer, que era muito caro. Ela recebia aposentadoria por invalidez por conta da doença, mas era pouco. Acontece que entre luto, traumas e as burocracias de se perder um filho e de ter sua casa toda vasculhada pela PM em busca da arma de serviço do rapaz (que não foi a mesma arma que ele usou para se matar), a senhora assinara um documento afirmando que não recebia nenhum “benefício” – ou qualquer que fosse o termo técnico que usaram para não-explicar o que o documento significava. Ao que parece, ela não poderia receber dois “benefícios” (sua aposentadoria por invalidez mais a pensão por morte do filho), mas a instituição, não satisfeita em apenas recusar o pedido de pensão, entrou na justiça contra a senhora, alegando que ela agia de má-fé. A defensora que acompanhou a senhora aconselhou que ela dissesse que a assinatura não era dela ou que não se lembrava de ter assinado. Mas a senhora não achava certo mentir para a juíza. Na sua consciência, ela sabia que tinha assinado e Deus também sabia. Pegou sessenta horas de trabalho.

Ela é negra, mora na Chaparral, divisa entre Taguatinga e Ceilândia, e vai de ônibus até Taguatinga Sul fazer faxina nos dias em que não está se sentindo tão mal com efeitos da quimioterapia que faz semanalmente. Também cuida de um neto, que vai ter que parar o curso na faculdade particular, para que a vó consiga continuar pagando o tratamento. Ela já entrou na justiça para receber os remédios gratuitamente, mas o juiz negou alegando que o governo está sem dinheiro. “Agora ele vai ter que parar de estudar, senão eu morro”. Eu só conseguia me mostrar solidária e reafirmar o absurdo que era aquela história –  que, para minha dor, já era contada com naturalidade. Ela me contou também sobre a sua filha, que vive mudando de cidade para acompanhar o marido que trabalha no exército. Ela quer voltar para cuidar da mãe, mas a mãe disse que não aceita porque a filha tem obrigação de ficar com o marido, já que “o que Deus uniu é para sempre”. Eu gostaria de ter dito que não era assim, mas mexer nas certezas de uma mulher que já enfrentou tantas vezes a morte? Após um silêncio, ela cochichou comigo “Esse lugar aqui é o que mesmo, hein?”, “Também não entendi e não sei se devo perguntar”, “Também não. Só sei que eu venho”.

Voltei a desencaixotar e emprateleirar desinfetantes pensando em como ali, na “casa de passagem”, uma instituição filantrópica, permitiam que aquela senhora trabalhasse doente. Foi quando a moça da entidade entrou no depósito para perguntar se estava tudo bem. Comentei como a história daquela senhora era triste. Ela concordou, mas o assunto não foi para a frente. Minutos depois a senhora estava limpando o chão da sala com sabão e vassoura. Mais tarde, enquanto eu desmontava as caixas de papelão na varanda, ela sentou no banco para descansar novamente e, entre assuntos amenos, perguntei se ela não conseguia um atestado médico dizendo que ela não podia fazer esforço. Ela me explicou pacientemente que, durante a audiência, ela e a defensora apresentaram laudos de três oncologistas comprovando a doença, mas, mesmo assim, a juíza sentenciou o crime de falsidade ideológica com as horas de trabalho, provavelmente sentindo-se até caridosa.

Eu, por minha vez, pensei várias vezes em falar mais diretamente com a mulher da entidade que é responsável por registrar nossos tempos de trabalho. Queria sugerir deixar a senhora descansando para, de alguma forma, amenizar o sofrimento físico dela, ocasionado desnecessariamente por um sistema de justiça falho e desumano. Mas eu tenho menos coragem do que aparento. Eu tinha medo que a minha intervenção gerasse um mal estar que atrapalhasse meus trabalhos na instituição e, assim, me fizesse ficar presa na teia judicial por tempo indefinido. Eu tinha medo da resposta, que no fim é: “cada um tem que cuidar da sua vida, não podemos fazer nada, pois só seguimos a lei”. A minha verdade é a de que não podemos seguir cegamente as ordens. Só que eu estava lá porque me meti onde não devia, era o que eles provavelmente pensavam, embora não dissessem. E de alguma forma, com o meu silêncio, aprendi a lição que eles queriam, afinal, quem era eu para me revoltar mais do que a própria mulher, que apesar de tudo, ainda demonstrava sincero afeto pelas pessoas que ali trabalhavam?

E há alguma verdade nisso. Não quero ser heroína, não quero salvar ninguém mostrando o caminho da verdade. Quero construir junto esse caminho. Por vezes quero mesmo é destruir tudo. Mesmo que a injustiça não tenha acontecido comigo diretamente, ela me atinge porque ainda existe um nós, existe uma humanidade que foi violada, e isso me diz respeito. Mas isso não pode me levar a aparecer no momento de crise na vida das pessoas com uma solução pronta, muito menos com receitas reformistas. Não se muda as coisas agindo apenas nos momentos críticos.

Como têm dito alguns pensadores, depois da Guerra Fria, entramos na lógica da emergência, lógica que nada modifica e nada constrói. Ao contrário, nos deprime, pois não tem horizonte, só tem as migalhas no caminho. Não vamos sair dessa lógica apenas praticando nossa sensibilidade humanitária e heroica. É preciso construir novas estruturas, sabendo que a mudança é processual e coletiva. É lidar com a certeza de que muita coisa está praticamente condenada, que é preciso lidar com a morte, sem indiferença e sem salvacionismo. É preciso admitir o fim para que o novo venha. E, mesmo que ele não venha, se esse for o fim dos fins, que ainda assim tenhamos o compromisso de construí-lo do nosso jeito.

Faz duas semanas desde que conheci a senhora durante o cumprimento da medida alternativa e até então ela não voltou mais à entidade. Resolvi escrever sobre nossa experiência com o sistema de justiça, sabendo que, independentemente da minha forma de narrá-la, são histórias que por si só deveriam tocar as pessoas. Que o sentimento de injustiça as toque, não para perderem a fé nos seres humanos, mas nas instituições desumanas, e que percebam a necessidade real de destruí-las.


Raissa Menezes de Oliveira

14 de junho de 2017