Meu nome é Paolo

São Paulo parece, àquele que vem bem de longe, um lugar encantador. Se existe alguma coisa no Brasil, pode crer, ela existiria em São Paulo. Mas ninguém me avisou que essas coisas não são para o nosso bico.

Foto: Amanda Bracho / Reprodução

Meu nome é Paolo. Papai nunca soube lidar com a copa de 82. Foram momentos difíceis para ele. Parece que capotou o carro embriagado depois da derrota por três a dois. Colocou meu nome de Paolo para marcar uma nova etapa em sua vida, mas sem esquecer do passado. Descobri isso mais tarde. Mamãe me falava que era por causa do Maldini. Eu gostava dessa ideia. Mas essa farsa acabou morrendo, como tantos outros sonhos e esperanças que morrem quando a gente cresce.

Desde menino, pivete em Sinop, onde o time de mesmo nome revelou Rogério Ceni em 90, sempre quis morar em São Paulo. No entanto, acabei me mudando para Brasília para cursar sociologia. Foi uma sábia escolha. Fiz bons amigos, mas acabei cedendo à vontade de morar na capital paulista. A grande realidade, que descobri pouco tempo depois e venho descobrindo todos os dias um pouco mais, é que jamais deveria ter ido embora. Penso muitas vezes que se tivesse eu nunca saído, estaria com aquela mina mais bonita dos últimos tempos, que certa feita pelejou um beijo meu e eu, inconsequente, acabei indo beber em um vendedor ambulante numa assembleia rachada da esquerda na esplanada dos ministérios. Mudei para São Paulo, Doria virou prefeito. Meu salário não pinga há três meses. A vida ficou tão cinza quanto as praias paulistas.

São Paulo é uma cidade complicada, mas não para todo mundo. Se você tem dinheiro, São Paulo é um grande lugar para se morar. Restaurante que os cozinheiros aparecem no GNT, automóvel para se locomover, noites cheias e consumo excessivo de drogas. E eu já sabia disso. Apesar de ter vindo de Sinop, meus pais são paulistas de Limeira. Se conheceram em um baile em Ponta Porã, história que nunca entendi direito. Mamãe, quando comuniquei que migraria para a chamada selva de pedra, me disse três coisas importantes, que sempre levo comigo. Primeiro, disse pra eu nunca ter vergonha de ganhar pouco, porque quem tem que ter vergonha é quem paga pouco. Emendou com um “gente rica é tudo filho da puta e em São Paulo tem muito”. Por fim, falou pra eu tomar cuidado. Sempre penso que o Lula sabia desses ensinamentos, virou presidente por causa deles, mas depois esqueceu.

São Paulo parece, àquele que vem bem de longe, um lugar encantador. Principal cidade do país, aqui seria o local exato onde tudo começa, onde tudo existe, onde tudo acontece. Se existe alguma coisa no Brasil, pode crer, ela existiria em São Paulo. Mas ninguém me avisou, pobre Paolo, filho de uma santista moderada e um palmeirense nostálgico, que essas coisas não são para o nosso bico. O lar de José Serra, João Dória, Luciano Huck e Nelsinho Piquet só é esta maravilha porque consegue angariar um número proporcionalmente baixo de ricos, com muitos pobres ao redor. Isso quer dizer, na prática, que se 5% da população de São Paulo é rica, dá mais de um milhão de pessoas dispostas a torrar rios de dinheiro em belos restaurantes, teatros, jet ski, casas de prostituição, barbearia e salões Gourmet, aluguéis exorbitantes, etc, etc, etc. Isso tudo é possível apenas porque existem ao seu redor mais 20 milhões de pessoas acordando às 4 da manhã para pegar o trem. Alguns se perguntam, neste instante, aonde quero chegar com isso. Lhes digo: ao se mudar para São Paulo, estando entre os 80% mais pobres, nós vamos viver tudo que São Paulo tem de ruim para te oferecer, mas nada daquilo que faz de São Paulo famosa. Em outras palavras, não vai ter restaurantes, não vai ter Oscar Freire, não vai ter teatrozinho, tampouco terá barzinho da hora em Pinheiros. Vai ter, e vai ter pra caralho, transporte público abarrotado, morar longe, cansaço, tristeza, alcoolismo e dívidas.

Quando comecei a trabalhar em São Paulo, foi no chamado fundão da leste, local onde João Doria não põe o pé nem para fazer campanha. Pessoas como “João Trabalhador” acreditam que o mundo é um monte de gente que, a partir do seu esforço individual de construir um país próspero, gera riqueza e são recompensadas sendo gente rica, como ele. O prefeito provavelmente acredita que é uma pessoa que lutou para estar ali. Por outro lado, quem mora no fundão da leste seriam pessoas preguiçosas, visto que vivemos em uma sociedade que premia o esforço. Daí o desmonte da assistência social, por exemplo, se justificar. Mas ao fazer da exceção a regra – quem acredita sempre alcança, corra atrás dos seus sonhos, etc –, indiretamente produzem a mão de obra que torna possível todas as suas extravagâncias e, no limite, aquilo que permite São Paulo ser São Paulo.

Mas eu falava da Zona Leste porque, certa feita, indo para Vila Matias visitar um amigo, passei pela Rua Herwis. O nome me era familiar e logo me lembrei de onde. Eu tive um amigo, Olavo o nome dele. Não sei mais por onde anda, mas ele dizia que morava, quando ainda morava em São Paulo, perto da rua HERWIS, que é travessa da Avenida Vila Ema, avenida cuja criatividade do nome se assenta no bairro que esgarça: Vila Ema. Olavo sempre dizia que era uma homenagem equivocada e popularesca ao Elvis Presley. Sempre intervi dizendo que, se acaso fosse homenagem equivocada ao roqueiro, a rua se chamaria Herwis Presley. Olavo, que sumiu no mundo há muitos anos, sorria e falava que “só quem é de lá sabe o que acontece”, numa referência pobre e fora de contexto dos Racionais MC’s. Mas uma coisa que ele sempre deixou claro é que São Paulo é ilusão. Proponho analisarmos.

Tenho 28 anos e tinha vontade de me mudar para São Paulo. Mudei. Vou contar, então, com finita riqueza de detalhes, alguns pontos centrais na sucessão da minha vida nesta metrópole. É sempre bom lembrar que o indivíduo que pretende mudar para São Paulo deve ter neste inventário apenas um esboço, visto que as formas como as coisas acontecem mudam drasticamente a depender de seu gênero, raça, orientação sexual, classe social e dinheiro no bolso.

O primeiro passo do recém-chegado morador de São Paulo é conseguir um muquifo para se jogar. Isso mesmo. Em São Paulo, a regra é a periferia, não o centro. A regra é autoconstrução, quintal com 5 casas, sobrado, acabamento de má qualidade. A cada 33 quilômetros que você anda em direção à periferia, o preço do aluguel cai 3% e a qualidade da moradia cai 700%. Ao me dar conta, eu, este rapazola que veio para a locomotiva do Brasil, estava morando quase em Jacareí, num quarto de fundo de uma das 11 casas do quintal, que ficava a dois ônibus de distância do trem. Pagando 670 reais, com água e luz inclusas, mas sem a internet, que não consegui incluir no pacote nem com muito diálogo.

Moleque mediano, nunca fui bom, mas nunca fui deprimente, pensava que aos domingos poderia dar um passeio na Liberdade para comer o que é conhecido por aí como comida diferenciada. Apenas mais um desengano, constatei. O dia começa comigo acordando às 4h30, para pegar o primeiro ônibus, das 5. Pego outro. Chego no trem, com gente caindo pelas tabelas, antes das 6. Enfrento fila. Troco de trem. Troco de trem de novo. Pego o metrô e chego ao trabalho 7h40, magoado. Percebi com muita velocidade que o salário de 2000 sem carteira assinada não vai dar para tanta coisa assim. Na primeira semana, comi fora. Vintão todo dia no boteco o filé de frango. Depois comecei a levar marmita, porque já sabe, né? Ou acorda mais cedo ou dorme mais tarde para fazer a marmita. Saio do trabalho às 17h, com muita humildade. Chego em casa quase oito da noite.

É importante ressaltar, a esta altura, algo que muitos dos desaviados não devem saber. Primeiro, o metrô de São Paulo, ao contrário do que alguns vomitam pelos sete mares, é uma grande merda. Em Brasília eu não sabia disso, porque o turista, aquele indivíduo efêmero e despreocupado, ele vem para São Paulo e tudo funciona, porque o território onde está habitando e os seus horários lhe permitem afirmar isso e difundir para todo o seu pessoal. No entanto, o metrô de São Paulo ser o melhor do Brasil não faz dele bom, faz dele melhor que o do DF, que luta todos os dias para se tornar pior. Faz ser melhor que o do Rio, que é administrado em regime de concessão pela CCR[1], mesma empresa que administra os trens, a barca, a ponte Rio-Niterói, a Dutra, a linha amarela, a 101. Faz ser melhor que os metrôs de Porto Alegre e BH, que são trens que as pessoas chamam de metrô. Enfim, o metrô de São Paulo é curto, da pau todo dia, tá sempre em velocidade reduzida, a integração com o ônibus sai R$ 6,96, é lotado. Ônibus então…

Neste cenário, tudo o que eu, um cidadão comum brasileiro, quero fazer no exato momento em que entro no maldito muquifo em que moro é tomar uma cerveja gelada, sonhando com o final de semana. Não há dinheiro para um “rodízio de japonês” e, mesmo se houvesse, minha primeira opção é sempre permanecer na residência, como um portador de moléstia brava, e mal se mexer no sofá. À tarde, vou ao seu Magalhães almoçar. Fico por ali conversando com o pessoal. “Ô Paolo, vem cá. E o Corinthians?”. Fico ali até de noite falando de futebol. Também fico sabendo quantos adolescentes a polícia matou.  “Paolo, entrou a ROTA ontem. Já viu né?”.

Dessa forma, então, São Paulo foi se criando falsa, mentirosa, dissimulada. Dúzias e dúzias de pessoas se amontoando para os Faustos Silva, para um monte de gente branca, rica e meio velha, um monte de playboyzinho metido a besta, usufruírem de tudo que há de melhor. Nessa enganação, você evidencia que só vive o que há de ruim na cidade; o que há de bom fica com uma galerinha restrita, um pessoalzinho diferenciado aí.

Mas ainda fica faltando o último passo de uma trajetória errante e muito comum, que consiste em algo que todos sabemos o que é: formar dívidas que não podemos pagar. Se vai 700 de aluguel e 300 de transporte, temos aí metade do salário comprometido. Como é impossível viver sem se embriagar, mas sem chegar, por enquanto, nos destilados de baixo custo, a cerveja, a mais barata, consome mais 350. O resto é alimento. Mas aí surge o imprevisto, o cidadão precisa se medicar, o cidadão precisa se vestir e ter um calçado, o cidadão precisa comprar coisas como desodorantes e limpol, o cidadão também quer ter um celular. Então o cidadão se vê na obrigação de não honrar algumas de suas dívidas. Obviamente, o indivíduo – que possivelmente não entendeu que só tem filho da puta nessas coisas tipo dono de empresa grande e trader de bolsa – paga a maldita conta da TIM e deixa a conta do seu Magalhães para outra hora. Seu Magalhães não vai colocar seu nome no SPC, ele pensa. Na verdade, o serviço de proteção ao crédito é o serviço de filho da puta para fazer você pagar primeiro quem tem dinheiro para depois pagar quem não tem. E é isso que faço. Seu Magalhães segura minha conta e eu pago a conta de telefone que venceu três meses atrás.

O fim da história deste sonhador, que viu em São Paulo um lugar de oportunidade, é a tristeza e a saudade da vidinha que levava. A depender de sua idade e cor, o indivíduo pode ter alguns fins distintos do meu, como morrer na mão da polícia, morrer no bar embriagado, matar alguém e ir para o sistema, ser pego andando perto da biqueira e ser mandado para o sistema, casar e se endividar ainda mais ou viver a vida inteira assim, como eu, lutando por um Logus 94. Andar de metrô que funciona e comer comida tailandesa, meus amigos, fora de cogitação.

[1] A linha 4 do metrô de São Paulo também é administrada pela CCR, que acaba de vencer a licitação da linha 5 lilás, em mais um leilão controverso. O transporte sobre trilhos de São Paulo é alvo de inúmeras denúncias, seja em formação de cartéis para a venda de composições, seja na própria ideia de privatizar as linhas públicas para a iniciativa privada, onde sempre quem ganha é a CCR, em contratos que deixa a coisa pública totalmente desprotegida.


Gregório Diniz

14 de junho de 2018