Embarcando no delírio

Lucas Facó discute o Brasil atual a partir do delírio criado em torno da vinda da filósofa Judith Butler ao Brasil em 2017

A petição com 70 mil assinaturas pedindo o cancelamento da palestra da filósofa Judith Butler, que acontecerá como parte do evento “Os fins da democracia” entre os dias 7 e 9 de novembro, mostra quão denso é o atual prisma através do qual a realidade chega nas pessoas.

Lembro que, no colégio, havia uma piada/boato (que até hoje não sei se é verdade) sobre o fato de os norte-coreanos acreditarem que o seu líder era filho de um beija-flor – como seriam tão ingênuos? Na copa de 2010, que já não teve muita graça, foi preciso debochar do fato/boato de que o governo editava os jogos para parecer que a seleção norte-coreana não tinha ido tão mal – a graça era que os norte coreanos teriam feito a montagem na não-tão-ruim derrota por 2 a 1 contra o Brasil e, mais confiantes, resolveram transmitir fielmente a partida contra Portugal, que terminou num edificante 7 a 0 para os gajos – já sabem aonde quero chegar, certo?

Por trás dos dois exemplos ficava o espanto sobre como um país e uma sociedade podem viver tão ilhados ao ponto de perderem o senso, partilhado no resto do mundo, do que é real e do que é uma manipulação barata das coisas.

Sempre a ironia: falar do outro é, na verdade, falar de si mesmo a partir do outro, e cá estamos nós, embarcando em todo delírio que aparece desde, pelo menos, as eleições de 2014 – outros dirão: desde o 8 de Julho, vocês sabem qual. Seja como for, de lá para cá o delírio prosperou mais que qualquer outra coisa, e cada vez mais a sua vontade totalitária coloniza novas regiões da vida – claro, se não fosse assim, não seria totalitária.

“Ideologia de gênero” é o novo/velho inimigo contra o qual vale tudo e que traz no seu caudal todos os outros inimigos: o marxismo, o comunismo, o esquerdismo, o petismo, a corrupção, a arte degenerada, a pedofilia, o fim da família, a farra com dinheiro público, etc. E as exceções que são feitas para extirpar esses males vão se acomodando na rotina das instituições, que cada vez menos mantêm a fachada de democracia. Longe de ser apenas uma “massa louca” se chocando contra as portas de um museu, é toda uma série de dispositivos institucionais que, sob a aparência de permanecerem iguais, reorientam seu funcionamento de acordo com a toada da nova música. O que um ano atrás era impensável, hoje é o café da manhã.

O poder do delírio sobre a realidade é tão grande que, num misto imbecil de engajamento e leviandade, dezenas de milhares de pessoas se opõem à participação da Butler num evento tragicamente chamado de “Os fins da democracia” – evento que, até pouco tempo, aconteceria na calma laudatória própria dos grandes eventos acadêmicos. Como sempre, as crianças do Brasil estão em jogo. Judith Butler versus As Crianças do Brasil – nem os roteiristas de South Park viriam com essa. Mas, aparentemente, a palestra de uma das filósofas mais importantes do mundo é uma ameaça maior às crianças do que a violência sexual que elas sofrem diariamente e cujo principal responsável é a família nuclear.

Em outros países, a igualdade de gênero é discutida dentro da pauta da justiça social e dos direitos humanos. Países loucos que seguem a agenda daquela instituição lá, a UNESCO, cujo pezinho no comunism… hãã?? Já aqui, a igualdade de gênero é vista por muitos como a própria liquidação da sociedade. Soma-se isso à retirada de obras de museus, à perseguição a livros, ao assédio geral sofrido pelos produtores de cultura, e tem-se uma imagem tenebrosa da atual fragilidade do setor cultural e intelectual em afirmar sua liberdade e seu direito à existência.

Que a guerra política atual seja cada vez mais travada na área da cultura e dos costumes, da “ideologia”, parece a algumas pessoas uma estratégia para desviar as atenções do que “realmente importa”. Também, mas a perseguição cultural tem sua eficácia própria, nada desprezável (e os fascistas sabem disso muito bem) na construção de um consenso totalitário baseado no medo, na intimidação, na violência e na incriminação da crítica, apto a justificar absolutamente qualquer coisa – imagino o rosto de Alexandre Frota estampado nos clusters de LED do prédio da FIESP espalhando na avenida a toada do mal banal: “O NEGÓCIO É… proteger nossas crianças”.

Vai ficando impossível respirar outra coisa que não esse ar impregnado de má fé, ódio e mentira. Aqueles que quiseram ativamente o atual governo não têm mais coragem de apoiá-lo e, com mais esse vazio dentro de si (talvez vergonha, talvez desilusão), fazem um bom casamento com as máquinas de difamação e propagação de mentiras. Cria-se uma pura vontade de destruir qualquer coisa que tenha aparência de outro.

O mais triste, apesar das piadas, é não conseguir enxergar o fundo desse poço, um sinal de que a estrada está chegando em outra curva. Lidar com a realidade de que o país “se acabou” institucionalmente, ou, o que é pior, que ainda não acabou de se acabar, e ver que estão só começando os ecos disso na desproteção dos setores da sociedade que dependem de (e sustentam) uma democracia sólida, tudo isso é muito difícil. Recentemente, as Abuelas de la Plaza de Mayo anunciaram que foi identificada a centésima vigésima quinta neta que teve sua origem extraviada pela ditadura argentina. É um motivo de comemoração para todos comprometidos com a promoção dos direitos humanos, mas também uma lembrança triste de que, na nossa tortuosa história política, pelas crianças, além de se tentar cancelar palestras e exposições, mata-se crianças.

Lembro da euforia que as pessoas exibiram no impeachment da Dilma. Genuína ou não, essa onda de euforia agora é só uma espuma de ódio que não para de vazar da boca das “pessoas de bem”, dos defensores da ordem. Com as eleições do ano que vem cobertas por uma cortina de fumaça inescrutável, ficam algumas perguntas de brinde: Quem vai montar esse cachorro mongol? Aonde isso vai levar? A mais importante, no entanto, parece ser: Como lutar contra?

ps: Como a intenção do texto não é fazer nenhum alarmismo a respeito dos fatos, é preciso deixar claro que, até este momento, não há nenhuma menção por parte do Sesc, da USP ou da Universidade de Berkeley no sentido de cancelar o evento ou a participação de Butler – apesar das manifestações contrárias marcadas para acontecer. Também é preciso deixar clara a admiração irrestrita do autor pela filósofa americana, cuja obra possui um caráter verdadeiramente libertador para aqueles que dela se aproximam. Na opinião deste autor, as crianças deveriam ser alfabetizadas com “Problemas de gênero”.


Lucas Facó

31 de outubro de 2017