“Caravanas”, de Chico “O MELHOR BRASILEIRO VIVO” Buarque

A Revista Seca fez um letra a letra e deu nota para todas as canções desse belo disco do mito Francisco

Em uma noite de 2015, Francisco Buarque de Holanda, então com 71 anos de idade, foi xingado por um grupo de playboys do Leblon. Um deles, Tulio Dek, é ex-namorado de Cleo Pires, e peço que cliquem no link para que possam desfrutar das “músicas” que ele faz e também para dar uma força para o rapaz com o click. Outro dos xingões é Álvaro Garnero filho, amigo do Ronaldo Fenômeno e filho de Álvaro Garnero, herdeiro e dono da Brasilinvest – que quase teve problemas judiciais numa época em que as gavetas eram as melhores amigas dos ricos, e amigo (ou será ex-amigo?) de Aécio Neves.

Esses amigos de famosos não tiveram vergonha de xingar um senhor de 71 anos, um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, que jantava com outros senhores também com mais de 70 anos. Isso diz muito sobre eles, mas também sobre uma mudança de vibe no Brasil: os ricos que achavam chique mentir que gostavam de Chico Buarque (não tinham, e não têm, capacidade cognitiva para entender as letras, já que a nossa elite de rapina sempre foi inculta e grosseira) até o começo dos anos 2000 agora acham elegante xingar o velho na rua e na internet. Mas Chico, que é um bom malandro, já entendeu isso e tá sabendo jogar:

Se esse país fosse sério, Chico Buarque seria tratado como um Deus. A ele seria permitido fazer tudo o que quisesse sem ser importunado por nada. Ele estaria livre de pagar impostos, jantaria de graça em todos os restaurantes da nação, a polícia o escoltaria à praia para que os paparazzi não o fotografassem sem consentimento e ele teria um camarote à disposição sempre que quisesse ir ver um jogo de futebol. Mas, como já disse o Tom, outro brasileirão da porra e amigão do Chico, “esse país não é para principiantes”.

Foi na pior fase recente do pior país da América Latina que Chico Buarque lançou seu ótimo disco, “Caravanas” (Biscoito Fino, 2017), com sete músicas inéditas e duas regravações. Seguindo a tendência lançada pelos Racionais MC´S – outros deuses da música brasileira – em “Cores e Valores”, é um disco curto, de 27 minutos, mas que diz muito. Vamos no letra a letra para desvendar o SALVE GERAL do Bruxo:

  • Tua Cantiga: essa canção deu uma polêmica danada no Facebook quando foi lançada por causa do verso “largo mulher e filhos e de joelho vou te seguir”. Muito se falou sobre o abandono paterno, que tem índices gigantes no Brasil. Este método de crítica também já foi usado contra Chico, recentemente, pelo demagogo Reinaldo Azevedo.  Mais aprofundada que as críticas de Facebook e do polemista amigo de Andrea Neves é a crítica de Guto Leite, professor da UFRGS. Ele vê na canção referências a outras cantigas e um temperinho mórbido. Nem concordando nem discordando das opiniões dos críticos, não me acanho de afirmar que é um texto que não é desse tempo e exatamente por isso é a que abre o álbum: Caravanas é um disco sobre como o tempo presente é visto por um gênio de outro tempo. Nota: 7,5/10
  • Blues para Bia: esse bluezinho bem humorado, que começa com poucos instrumentos e culmina com uma big band chamando alto, é uma delícia, um dos pontos altos do disco. Na letra, em primeira pessoa, um poeta que me soa como um adolescente apaixonado se lamenta por não conseguir se aproximar de sua musa lésbica e conclui que talvez “vire menina”. A possibilidade de “virar menina” é, sem sombra de dúvidas, uma das coisas boas deste tempo – fruto dos movimentos pela visibilidade trans –, impensável há dez ou vinte anos. Aqui, Chico fala com este tempo, diferentemente do que faz em “Tua Cantiga”. 9/10
  • A moça do sonho: é uma das músicas que não é inédita no disco. Essa eu nunca nem ouvi inteira, não gosto de nada desses papos sobre sonho, sou profundamente contra tudo que é onírico. Sem nota/10
  • Jogo de bola: é a canção que tem mais samba no disco – disco que é, prioritariamente, um disco de canções, chanson. É a música mais claramente referente à passagem dos tempos. Na primeira parte, o narrador fala sobre como se deve jogar a bola: com classe, com elegância, sabendo perder sem perder a cabeça. Uma forma de jogar que, parece, é também a forma que Chico leva a vida: “salve o futebol / salve a filosofia de botequim / salve jogar bonito / não ganhar no grito”. Na segunda parte, esse mesmo narrador fala sobre como se deve assistir a um jogo, não sem antes elogiar a si mesmo dizendo que “um Puskas eras, a fera das feras das feras”. E diz que, na velhice, o que lhe resta é aplaudir o jogo bonito e que “ver rolar a bola nos pés de um moleque é ver o próprio tempo num relance / e sorrir por dentro”. Um dos fatos indiscutíveis que faz de Chico o maior brasileiro vivo é o fato de que ele já deu milhões de provas de que gosta de música, de futebol, mas prefere mesmo é sorrir. 10/10
  • Massarandupió: valsa feita por Chico Brown, neto de Chico Buarque. É linda. A letra é autorreferente, e nela o narrador se lembra de umas férias em Massarandupió, quando o netinho, hoje um puta compositor e guitarrista, ainda era um bebê. Assim como em “Jogo de bola”, é com uma leveza tremenda que o tempo passa nessa música. Pega o lenço e vem ver a montagem que Chico Brown fez com essa música! (Chico Buarque, além de tudo, é um vovozão da porra!) 9/10

  • Duetos: nessa música que já fora gravada com Nara Leão, Chico agora canta com sua neta, Clara. Quem assistiu ao filme de 2015, “Chico: artista brasileiro”, de Miguel Faria Jr., com certeza se lembra da cena em que Chico tenta sem muito sucesso tirar essa música no violão, porque a sua neta queria cantá-la. Clara canta lindamente, e a música é ótima, mas a melhor parte é no final, quando, em um dueto, ficam vô e neta falando nomes de redes sociais e aplicativos destes tempos atuais (Tinder, Twitter, Snapchat). O Vô Chico se enrola legal, manda um “Orkut” no meio da brincadeira e termina rindo, como quem perdeu a brincadeira. Para amar ainda mais esse homem, ele fala “pojeto” e não projeto, da mesma maneira que o faz outro grande brasileiro, o professor Vanderley Luxemburgo. 9/10
  • Casualmente: uma salsa lenta que cita uma viagem a Havana. Certeza que ele fez essa pros caras que ficam gritando pra ele “Volta pra Cuba!”. Mas pode não ter sido. Cantando em espanhol, Chico mostra que além de ser o maior brasileiro vivo é também um dos maiores latino-americanos da história. 7/10
  • Desaforos: nesse bolero o narrador não entende como uma determinada pessoa se incomoda tanto com ele, já que nunca sequer “beberam do mesmo regato”. E custa a crer que “meros leros-leros de um cantor possam te dar tal dissabor”. Muita gente na internet diz que essa música é pros coisa que xingaram ele lá no Leblon. Nunca saberemos, da mesma maneira que nunca saberemos se “Jorge Maravilha” foi feita pro Geisel. Na dúvida, prefiro acreditar que sim, pois mais interessante que a verdade é uma bela história. 8/10
  • AS CARAVANAS: um musicão desse, bicho, tem que ser em caixa alta. É sinistra, tensa, uma levada de violão que tensiona, tensiona e descarrega num funk pancadão. É a mais política das músicas do álbum, e uma das melhores da carreira do Bruxo. Fala sobre os moradores da Zona Sul tendo um surto racista, fascista, ao ver chegar um ônibus do subúrbio em Copacabana para aproveitar a praia. A “gente ordeira e virtuosa” grita que tem que bater, tem que matar aquele “populacho” e mandar eles de volta para a “favela, Benguela ou Guiné”. Aqui é o salto teórico da música: Chico percebe, e expõe, a ligação umbilical entre a escravidão e o racismo dos dias atuais, que matou e mata milhões de pessoas negras. Essa herança da escravidão se mostra no VERME da Zona Sul, que ao ver chegar o ônibus na praia se lembra das Caravanas. O narrador conclui que só pode estar louco, pois não haveria gente tão insana a ponto de expressar tamanho fascismo sem nenhuma vergonha, em pleno sábado de manhã, voltando com o pãozinho da padaria. Chico ainda DEITA mais e convida Rafael Mike do Dream Team do Passinho para fazer um beatbox maneiro. Mais um entre os milhões de motivos que temos para idolatrar o cara é o fato de que ele nunca deixou de tomar lado e, ainda mais raro, nunca tomou o lado errado. 11/10

Caravanas é um disco de um Bruxo de outros tempos diante de um tempo de orcs. Chico Buarque é o nosso Gandalf, mas até aqui estamos perdendo. Quem sabe esse disco não seja o ponto de virada?

De todos os países do mundo demos a sorte de esse homem nascer logo no nosso. Como diria Wilson das Neves, MONSTRO da música brasileiro que nos deixou por esses dias: “ô sorte!”.

Foto: Reprodução/Internet


Danilo Oliveira

21 de setembro de 2017