Brasília: afrofuturismo na cidade futurista

Quem conhece sabe que Aline Maia Nascimento é o nome mais promissor da antropologia feita no Brasil e uma das nossas melhores esperanças para um futuro melhor. Como se não bastasse, ainda manja muito de arte. Neste artigo ela parte de Brasília como a cidade futurista para apresentar a ideia de afrofuturismo e toda a potência política que dela se desdobra. E ainda dá umas dicas filmes, livros, discos e blogs afrofuturistas!

Arte: Daniel Carvalho/Revista Seca

Brasília é conhecida internacionalmente como um exemplo de cidade futurista. Concebida como um dos projetos arquitetônicos mais ambiciosos do século XX, a capital foi projetada urbanisticamente por Lúcio Costa e contou com a arquitetura de Oscar Niemeyer.

Andar por Brasília é, sem dúvida, um exercício de constante contato com edifícios cujas formas geométricas ressaltam as impressões do “cósmico”, do “satélite” e do “espaço extra-mundo” que o projeto futurista buscou oferecer. Isso pode ser verificado desde o retângulo que delimita as fronteiras do Distrito Federal até as pirâmides e esferas que dão forma aos monumentos turísticos erguidos em contraste com o cerrado gritante, de vegetação tortuosa e terra avermelhada.

A criação de Brasília simbolizava mais do que uma mudança de localização da capital, ela visava ser um prenúncio de uma nova era – tanto esteticamente, por sua diretriz arquitetônica com íntima relação com a era espacial, quanto politicamente, se levarmos em consideração o ideal nacional desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, cuja campanha ficou conhecida pela frase “50 anos em 5”.

Quando falamos sobre projeto de futuro, dificilmente nossa mente é capaz de nos transportar para a imagem de pessoas negras sendo criadoras de seu próprio futuro ou vivenciando o futuro planejado por suas próprias mãos. Em outras palavras, raramente somos capazes de idealizarmos um futuro preto! E é por isso que ouso dizer que os criadores de Brasília também não. Eles não viam sua criação futurista como preta.  Aqui, não se trata somente do famoso representatividade importa[1], mas de algo ainda mais profundo: de admitirmos a existência de uma maquinaria política e social que impede pessoas negras de deliberar a projeção de seu próprio mundo e de experienciar um projeto de nação no qual suas vidas, mesmo constituídas como grande parte da população, não estejam relegadas a segundo plano.

A preocupação em explorar um futuro preto é pauta central para o movimento afrofuturista, termo utilizado para designar uma interseção entre imaginação, tecnologia e a libertação, tendo como base central a ancestralidade africana.

Nesta “altura” da nossa conversa, você já deve está pensando: mais como isso se aplica na prática? Será mesmo possível explodir o presente e garantir um futuro em que as pessoas negras tenham a chave de seu próprio destino? Há meios de controlar o amanhã?

É difícil de conceber o Afrofuturismo em todas as suas dimensões se crermos que uma estrutura tão rígida, como a sociedade racializada em que vivemos, seja capaz de nos paralisar por completo. É preciso entender que pessoas negras sempre lutaram pelo seu futuro, honraram seu presente e reacenderam seu passado fadado ao esquecimento. No entanto, a supremacia branca e seu projeto cultural, econômico e filosófico fez o mundo crer num imaginário onde apenas a brancura é capaz de ser o sinônimo do “amanhã”.

O afrofuturismo aposta nas artes como um modo de encorajar a experimentação, reimaginar identidades e ativar a libertação de pessoas negras. Nesta luta, mirar para um futuro preto não é se obstinar em abdicar do presente para vivenciar o plano da imaginação despretensiosa, mas apostar que futuro seja antídoto para o vivido no presente-passado. Talvez, a noção de tempo que mais se aplique à cosmovisão do afrofuturismo seja aquela velha máxima utilizada para descrever as artimanhas de Exu: ele matou o pássaro ontem com a pedra que atirou somente hoje. Na visão do afrofuturismo o passado-presente-futuro se apresenta na mesma sentença para conferir o poder em nossas mãos, pessoas de pele preta!

Projetar um futuro preto, mesmo quando este é visto aparentemente como impossível de acontecer, é travar batalhas pelo despose de imaginários que conduzem o povo negro ao completo esquecimento do que são e do que serão. Assim, os afrofuturistas não se limitam somente a corrigir o futuro, mas estão interessados também em investigar os apelos que artistas negros fizeram ao futuro, em momentos em que qualquer futuro para eles parecia ser impossível der ser concebido.

Em 1967, na efervescente luta pelos direitos civis negros nos Estados Unidos, Nina Simone gravou a poderosa canção “I wish I knew how it would be free”, que descreve o anseio de viver um mundo livre da segregação racial institucionalizada que assolava o contexto norte-americano da época: “eu gostaria de poder compartilhar todo amor que há em meu coração/Remover todas as barreiras que nos mantém separados […]/Então você veria e concordaria que todo homem deveria ser livre”.

As Artes (cinema, teatro, moda, música, literatura, instalações artísticas) sempre foram morada para construção de futuros. Como reforça Ytasha Womack[2], a própria ficção científica “é um departamento de pesquisa e desenvolvimento no interior de uma indústria de futuros que sonha com a previsão e o controle de amanhã”. Por esse motivo, esse gênero tem sido um dos cenários mais disputados para experimentos afrofuturistas. Afinal, a ficção científica não é um mero exercício utópico ou uma projeção despretensiosa do futuro, ela é o meio pela qual se pré-programa o presente.

Apostando nessa perspectiva, o filme “Branco sai, preto fica”, do diretor brasiliense Adirley Queiroz, utiliza elementos da ficção científica para elaborar uma narrativa repleta de afrofuturismo: Cravalanças, personagem que vem do ano de 2073, está em busca de provas para responsabilizar o Estado, pois a polícia militar invadiu um baile popular na Ceilândia e vitimou dois rapazes negros, Marquim e Sartana. A trama se encerra com a ebulição de um futuro preto na Brasília de Oscar Niemeyer. Marquim e Sartana, em conjunto com os demais personagens vindos do futuro, arremessam uma bomba cultural com elementos e modos de vida pretos em Brasília. Tal artefato destrói qualquer vestígio da Brasília projetada em exclusividade para brancura.

Para que os efeitos radioativos dessa revolução atômica continue a se espalhar em escala mundial, te convido a conhecer um pouco mais sobre o afrofuturismo, pois já é evidente que o futuro é o agora na personificação de pretos, elaborando (in)imagináveis (im)possibilidades.

 

Dicas de arte afrofuturista:

Música:

Imagem disponível em: https://wallpaperscraft.com/download/sun_ra_man_look_name_face_14457/1600×1200

  • SUN RA (1914 – 1993) foi um negro norte americano, compositor de jazz, filósofo, pianista e Conhecido por sua “filosofia cósmica”, composições musicais e performances, é uma das principais referências do Afrofuturismo.

 

foto: diana block. projeto gráfico: kaká bessa. Carne Dura Produções.

 

  • Ellen Oléria, cantora, musicista, compositora e atriz brasileira. Lançou, em 2016, um álbum intitulado “Afrofuturista”, nas palavras da cantora, o álbum chega em tempo oportuno: Num tempo de muita violência, de extermínio das populações jovens e de outras espécies de vidas, extermínio baseado nas diferenças, o “Afrofuturo” nos convida a construir hoje uma reconexão com a solidariedade e com o amor – lembrando que só temos este tempo pra ser, estar e construir o desejo a partir da matéria do sonho: Agora. E, é claro, ninguém dá o que não tem, mas o que a gente tem, partilha.

  

BLOG

  • O Blog “Preta, Nerd & Burning Hell”, idealizado pela escritora e roteirista de quadrinhos Anne Caroline Quiangala, tem objetivo de debater de modo crítico filmes, quadrinhos, jogos e séries do mundo nerds. Segundo Anne, o blog busca pensar tanto “sobre a ‘’vida real’ quanto sobre as narrativas ficcionais (sob uma perspectiva específica), para explorar os caminhos que têm sido negados historicamente à população negra, em especial, às mulheres Negras”.

 

LITERATURA

foto: Thays Berbe.

  • Fábio Kabral – escritor afrofuturista brasileiro. Autor do livro “O caçador cibernético da Rua Treze”.  O livro faz uso de uma narrativa composta por elementos da mitologia Ioruba em uma trama afrofuturista incrivelmente sedutora.

 

CINEMA

Pôster do filme.

 

  • “Branco sai, preto fica” (93 min, 2014, Brasil, 12 anos, DCP). Sinopse: “Tiros em um baile de black music em Brasília ferem dois homens, que ficam marcados para sempre. Um terceiro vem do futuro para investigar o acontecido e provar que a culpa é da sociedade repressiva”.

Direção: Adirley Queiroz.

ElencoMarquim do TropaDilmar DurãesShockitoDJ JamaikaGleide Firmino.

IndicaçõesGrande Prêmio do Cinema Brasileiro – Melhor Roteiro Original.

 

Imagem disponível em: https://the-dots.com/projects/cristina-de-middel-the-afronauts-78453

 

  • The afronauts” [Afronautas] ( 14 min, EUA, 2014, livre, digital). Sinopse: “Em 1969, os EUA se preparam para lançar o Apollo 11. A milhares de quilômetros de distância, a Academia Espacial de Zâmbia espera chegar à lua antes dos estadunidenses. O filme é inspirado em fatos reais”.

 

DireçãoCristina De MiddelPep Bonet.

CinematografiaPep Bonet.

ElencoCristina De Middel.

Pôster do filme.

 

  • OYÁ: Rise of the suporishas [Oyá: a ascensão dos superorixás] (12 min, 2014, Nigéria, livre, digital). Sinopse: “Uma aventura mística conta a história de uma jovem mulher, Adesuwa, que se transforma em uma deusa guerreira e temível, Oyá, a Orixá da mudança. Adesuwa tem a missão de manter a porta fechada entre o Orixá e a humanidade”.

 

Diretor: Nosa Igbinedion.

Roteiro: Nosa Igbinedion.

Elenco: Orwi Manny Ameh, Luiana Bonfim, Ethosheia Hylton.

 

[1] Importante slogan utilizado pelo movimento negro para reivindicar a presença de negros nos espaços de poder.

[2] WOMACK, Ytasha. Afrofuturism: The world of Black sci-fi and fantasy culture. Chicago: Lawewrence Hill Books, 2013.


Aline Maia Nascimento

29 de setembro de 2017