“Afeita”

A escritora e jornalista Gabriela Sobral presenteou a revista Seca com um dos poemas do seu livro de estreia, “Caranguejo”

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

Desculpa te olhar com tanta atenção; te fitar até cair comida da tua boca, mas carregas duas coisas muito minhas: os batimentos e a despedida. Só me restam poucos minutos de anotações, para preencher o resto dos dias, sendo a enxurrada que carrega os camara- das. Funciona como a imagem das tias velhas com a mangueira na mão, elas fingem estar ocupadas com as calçadas, mas, de fato, choram os contratos não rompidos e se veem secar, igual ao cimento que lavam. Os peitos aumentam, biologicamente, questão de manu- tenção; vivem emprenhados, como as barrigas proliferadas em família. Vivemos no país da criação. Assim como elas, te transformei em atos. Não te amo, mas te bebo nos goles dos cafezinhos de plástico, como nos alimentos e te tenho nas dobraduras dos lençóis. Estás materializado no cotidiano, e nada é mais eterno do que isso.

 

Gabriela Sobral nasceu em Belém (PA). É escritora de infância, após muitos anos de pausa, foi revisitando esta fase que voltou a escrever. Formou-se em jornalismo em Brasília, onde morou por sete anos e despertada pelo trânsito transpôs isso em linguagem. Expandindo-se, concluiu o mestrado em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Imergiu na literatura com a mediação do projeto Leia Mulheres na cidade de Belém e o projeto “Imaginárias – Um encontro entre narrativas imagéticas e literárias – com referência no trabalho de escritoras”, na Ilha do Marajó, premiado pela Fundação Cultural do Pará. Atualmente, divide-se entre o trabalho com patrimônio cultural e a poesia. Em 2017, lançou o primeiro livro, “Caranguejo”.


Gabriela Sobral

14 de junho de 2018