Os caminhos de Bituca

O dia que eu conheci Milton Nascimento e ouvi sobre passado, presente e futuro

Fotos: Eduardo Medeiros/Reprodução

Era 1967 e Milton Nascimento morava em São Paulo. Ele tinha três músicas com melodia e letra, mas tinha uma, só com melodia, à espera de um parceiro inspirado. Milton me conta que tinha um amigo em Belo Horizonte (BH). Era Fernando Brant, um cara “legal demais” para quem Bituca entregou parte daquela que seria uma das obras mais marcantes da música brasileira.

“Peguei um ônibus da Viação Cometa e encontrei com Fernando lá no Maletta (famoso edifício de BH). Quando pedi que ele fizesse a música, ele desconversou, dizendo que não sabia fazer música. Disse que ele faria do mesmo jeito. Passou um tempo e nos encontramos novamente no mesmo lugar. Ele estava com um papelzinho e não queria me entregá-lo de jeito nenhum. Depois de insistir, ele me deu o papel e saiu correndo para o banheiro. Era ‘Travessia’. A primeira letra que ele fez na vida. E foi esse negócio todo”, me releva Milton. Ao vivo. E em cores.

A história de “Travessia” é uma das várias memórias que tive chance de ouvir em uma entrevista com Milton durante o 19º Festival de Inverno de Bonito. Bituca, como é chamado pelos amigos mais próximos, também lembra do momento em que tiraram a música pela primeira vez no violão.

“Todos os dias, lá pelas 11h da manhã, víamos uma mulher passar em uma avenida em Belo Horizonte. Ficávamos desesperados com ela. Depois que Fernando me entregou a letra, fomos para a casa dele para ver se a letra estava certa, eu sabia que estava, mas foi lá mesmo assim. Estava tocando o violão que a irmã do Fernando tinha ganhado do namorado, quando a gente ouve uma voz: ‘o que vocês estão tocando aí?’. A gente respondeu que não era nada não. O lugar era quase sem luz, mas quando vi o rosto dela perguntei se ela era irmã do Fernando. Era a mesma menina que íamos ver passar na avenida!”.

A coincidência faz as jornalistas caírem na risada. Não dava para imaginar Milton, um cara tão sério, contando um “causo” desse. Aquele homem que chegou tímido, com um olhar meio desconfiado, já estava solto, com olhos curiosos e um sorriso carinhoso.

No dia seguinte, o cantor e compositor mineiro (apesar de carioca na certidão de nascimento) apresentaria pela primeira vez “Semente da Terra” em Bonito, Mato Grosso do Sul. O show, inspirado nos indígenas Guarani-Kaiowá, já tinha passado por Corumbá e Campo Grande.

“É uma apresentação que tem tudo a ver com o Mato Grosso do Sul. Estávamos esperando por isso há muito tempo. Aconteceu agora. Estamos com tudo aqui dentro (ele aponta para o coração) batendo”, diz Milton.

A história do artista com a comunidade indígena é antiga. O álbum “Txai” (1990) nasceu depois de uma visita aos Ashaninka, no Acre. Uma das faixas mais emblemáticas do disco, “Benke”, é uma homenagem a um garotinho que Milton conheceu lá.

O cantor classifica como indescritível o encontro com os Ashaninka. Ele lembra que estava no Rio Juruá quando um menino pulou e atravessou o rio na frente dele. Pouco depois, o mesmo garoto apareceu, oferecendo um coco ao cantor. O encantamento por aquela figurinha resultou em “Benke”, música de Milton com Márcio Borges que começa assim:

“Beija-Flor me chamou: olha

Lua Branca chegou na hora

O Beija-Mar me deu prova:

Uma estrela bem nova

Na luminária da mata

Força que vem e renova”

Anos depois, o cantor conversou com Benke sobre a letra que fala de um beija-flor (curiosamente, a única ave capaz de permanecer imóvel no ar). Benke, hoje cacique, contou que é justamente o beija-flor o animal que o rege. Mais uma dessas “coincidências” de Milton…

Mas voltando aos Guarani-Kaiowá: em 2010, Milton fez um show em Campo Grande e ali, a relação com a comunidade indígena que já era forte, ficou ainda mais potente.

“Eles nunca tinham ouvido falar de mim. Ficaram horas conversando, discutindo, olharam para uma foto minha. Em um momento, o chefe deles pintou minha cara de preto. Os outros vieram e disseram que partir daquela noite eu seria Ava Nheyeyru Iyi Yvy Renhoi, que em português significa Semente Ancestral que Germina Terra ou Semente da Terra”.

Ali, nasceu o nome de umas das turnês mais emocionantes de Milton Nascimento.

Passado, presente e futuro

Na estrada há algum tempo com “Semente da Terra”, Milton deve lançar até o fim do ano um novo disco, com música inédita e regravações em uma levada mais acústica – assim como “Maria, Maria”, divulgada como single em maio e com clipe a ser lançado nas próximas semanas.

Composta há 40 anos, “Maria, Maria” tem letra de Fernando Brant e música de Milton. Sucesso atemporal, a canção fala das forças das mulheres e foi inspirada em uma personagem real. Nas entrevistas, Milton explica que quem conheceu Maria foi Fernando. Ela foi uma mulher batalhadora, guerreira, mãe de três filhos, que vivia na beira da linha do trem. Apesar de imaginar a resposta, indago qual era a cor da pele de Maria. Ele me responde: “negra” e sinto ainda mais sentido nos versos “quem traz na pele essa marca/ possui a estranha mania de ter fé na vida”.

Milton Nascimento é um artista político desde sempre. Além da questão indígena, o cantor e compositor falou e fala sobre a causa negra. Quando pergunto se ele tem vontade de fazer algo parecido com “Missa dos Quilombos”, musical-álbum de 1982, ele confessa a vontade de repetir o projeto, que deu (e ainda dá) o que falar.

“Na época, ‘Missa dos Quilombos’ foi proibida pelo Vaticano. Mas quem é que segura? Fizemos em teatros, na Catedral de Nossa Senhora de Aparecida, em Santiago de Compostela… Foi uma coisa! Se der para fazer, bem que eu queria”, conta Milton, com seu olhar esperançoso.

A esperança e a doçura de Milton é tanta, que ele costuma dizer em suas apresentações que pode ser que o show não tenha tido todas as músicas que o público esperava, mas que ele fez de coração e sugere “que o povo continue sonhando”. Entretanto, a confiança em dias melhores tropeça quando o assunto é política. Desacreditado com o cenário atual, Milton vê a música e eventos como o Festival de Inverno de Bonito como coisas que “ainda valem a pena”.

E foi no palco, lugar onde mais se sente à vontade, que o artista mostrou – mais uma vez – a que veio. A fragilidade dos 75 anos e dos problemas de saúde desapareceu. À plenos pulmões (e algumas vezes com o violão em punho) cantou (e tocou) “Maria, Maria”, “Clube da Esquina nº 2”, “Travessia” e “Coração de estudante”, entre outros sucessos. A última música, inclusive, foi dedicada à Marielle Franco e a Anderson Gomes, executados em março deste ano, no Rio de Janeiro.

Entre sorrisos de encantamento e lágrimas de emoção, o público de Bonito viu a reta final do show “Semente da Terra” sob uma ventania forte, que chegou de repente. Na crença tupi-guarani, Polo é o deus dos ventos e mensageiro de Tupã, o grande criador dos céus, da terra e dos mares. Tupã também é quem concede aos pajés o conhecimento das plantas medicinais e dos rituais mágicos de cura.

Pesquisando sobre a vida de Milton, descobri que em 1966, quando ainda morava em São Paulo, ele e o pianista Adylson Godoy foram a um centro espírita no dia de São Cosme e Damião. Ali, ele foi avisado que sua vida teria uma reviravolta em pouco tempo. No ano seguinte, ele se inscreveu no Festival Internacional da Canção, foi eleito o melhor intérprete e uma das três canções inscritas, “Travessia”, ficou em segundo lugar, tornando-se sucesso no Brasil e no mundo.

A vida de Milton Nascimento é marcada por algumas “coincidências”. Eu chamaria de destino.

 

*A repórter viajou a Bonito a convite da Secretaria de Cultura e Cidadania do Governo do Mato Grosso do Sul


Maíra de Deus Brito

31 de julho de 2018