“Não sei o que se passa na cabeça de alguém que gosta de Satanique Samba Trio”

Em um bate-papo com Munha da 7, conversamos sobre baião, história em quadrinhos, processos criativos, crise de pânico, viagens, anos 90 e, claro, sobre o novo disco do Satanique Samba Trio

Foto: Célio Maciel/Reprodução

Lançado recentemente, “Xenossamba” é o oitavo disco do Satanique Samba Trio. Precedido por “Misantropicalia”, “Sangrou”, “Bad Trip Simulator” (#1, #2 e #3), “Badtriptych” e “Mó Bad”, os álbuns nascidos ao longo de aproximadamente quinze anos de estrada transmitem já no nome a atmosfera da banda e do idealizador que, constantemente, afirma estar “sempre na pior”. Munha da 7 é líder, baixista e compositor do Satanique, que já foi de tudo, menos trio – e na formação atual conta com Sombrio (clarone), Lupa (bateria), Don Chavez (violão) e Jota Dale (cavaquinho).

De modo instrumental e experimental, o grupo reelabora ritmos brasileiros diversos a partir de uma estética que parece buscar não apenas romper com clichês, mas também incomodar os ouvidos alheios. Porém, o incômodo não é como o chiado de um giz riscando uma lousa. Está mais para o desconforto causado pelo desmantelamento de certezas por meio de uma dissolução criativa e catártica que, como dizem no site oficial, é uma “afronta definitiva aos dogmas da MPB”. Por isso, os músicos que tocam no Satanique costumam ser, nas palavras de Munha, “um ponto fora da curva”. Isso significa que eles sabem não apenas as regras, mas também como quebrá-las.

Foi durante uma típica tarde de instabilidade brasiliense – sol, chuva, sol, chuva – que conversamos com Munha. O bate-papo, que aconteceu em um estúdio de ensaios e gravação localizado no subsolo de uma comercial da Asa Norte, envolveu não apenas o Satanique Samba Trio, como projetos e trabalhos paralelos que o músico desenvolve, bem como reflexões sobre processos criativos e identidades culturais do Distrito Federal. Tudo com muito bom humor e depressão, como são os ventos que batem no clima da cidade. Confiram:

Munha, o que você faz além de ser líder do Satanique Samba Trio?

Faço parte de alguns projetos musicais, como por exemplo, Jota Dale Combo. E o meu projeto solo, Munha da 7…

Jota Odeio Combo?

Jota DALE!

Ah, foi mal.

Jota Odeio Combo é um nome muito bom, vou falar pra ele.

Dale, tipo D-A-L-E?

Exatamente.

E o que é isso? É jazz?

É música experimental.

Experimental instrumental?

Sim…

Mas é louco, satânico?

Não! Inclusive o primeiro disco é exclusivamente dedicado à releitura instrumental dos pontos cantados do Candomblé. É bem bacana. Vai sair esse ano ainda, eu acho. Mas teria que confirmar com ele.

E o que você faz no Jota Dale Combo?

Sou um mero baixista. Um otário, eu sou um otário. No Munha da 7 Top Trio, meu projeto solo, sou líder, compositor, um nome…

E um otário…

Sou um otário também. Fora isso, também sou instrutor de artes marciais e lutador amador, técnico de áudio, produtor artístico, escrevo… Ah, sou médico amador também. Inclusive, se você tiver alguma dúvida agora, posso te diagnosticar, como já fiz antes.

É verdade. Até por nudes você diagnostica, né? [Munha postou no Twitter um relato em que diagnosticou uma doença de pele via recebimento de fotos íntimas]

Sim, ó… Três vezes já! Até já me mandaram nudes com pretexto de diagnóstico.

E como surgiu o Munha da 7 Top Trio? Tenho uma teoria de que é pra onde você escoa as coisas que não quer colocar no Satanique.

É exatamente isso. Na verdade, o segundo disco do Satanique Samba Trio, que se chama “Sangrou”, acabou recebendo uma parte dessa produção de escoamento de coisas que eram pra ter ido pra minha carreira solo, mas por motivos, digamos, contratuais, eu tive que aumentar o tamanho do disco e acabei colocando…

Como assim “motivos contratuais”?

É porque o disco precisava ter uma minutagem específica. Só com as músicas do Satanique não ia dar pra atingir essa meta. Aí dobrei a meta e botei músicas que iriam para o meu trabalho solo. E até hoje me arrependo amargamente disso. Não posso ouvir esse disco que me arrependo automaticamente, fico azedo. São duas ou três músicas, não lembro exatamente, que deveriam ter ido para o disco solo, que são coisas mais voltadas para o jazz careta e experimental. Aliás, você sabia que o Munha da 7 Top Trio  é a única banda de jazz careta e experimental do mundo?

E como que é careta e experimental ao mesmo tempo?

Ouve lá que você descobre! Ah, fora isso também faço trilha sonora pra teatro e cinema, sou um compositor de arranjos pra outros artistas. Enfim, faço de tudo um pouco, né? Também tenho uma breve carreira de ator…. Figurante. Olha, você tá rindo, mas no último que fiz, eu tive fala, tá? E meu personagem tinha nome.

Qual foi o último filme que você fez?

Foi o “Ainda temos a imensidão da noite”, do Gustavo Galvão [longa-metragem que está sendo filmado entre Brasil e Alemanha, tem lançamento previsto para 2019 e traz Lee Ranaldo, ex-Sonic Youth, na produção musical]. Na verdade fiz a trilha sonora desse filme e fui convidado pra fazer uma ponta. Aí quando cheguei lá, descobri que a minha ponta tinha fala e o meu personagem tinha nome: “Jovem adulto”.

E, musicalmente falando, quem são outras pessoas de Brasília com quem você trabalhou?

Joe Silhueta, Sexy Fi… Os dois eu produzi e fiz arranjos. Tem também o Da Silva, e a carreira solo do Cláudio Bull. Matamuza, um cara que transita entre Brasília e Recife. Tem um que não é de Brasília, é de Águas Lindas de Goiás. Se chama O Braz, é um cara que eu boto muita fé, um talento absurdo…

Você é formado em artes plásticas, certo? Por que não fez música, já que essa é a sua atuação principal?

Em artes plásticas com especialização em crítica e história da arte. Fiz um pouco de música, mas larguei. Tenho um pouco de ranço da academia de música, pelo conservadorismo. Por outro lado, o departamento de artes plásticas é um movimento completamente contrário a esse, né? Foi justamente uma escolha de posicionamento artístico. Enquanto o departamento de música era muito conservador, o de artes da UnB [Universidade de Brasília] era muito contemporâneo, mais progressista. Aí eu acabei lá. Mas, assim, quando fazia artes plásticas, fiz algumas matérias no departamento de música.

Falando nesse lance de conservadorismo, ainda que você estivesse falando especificamente da UnB, li uma matéria antiga da extinta revista Bizz que fala que o Satanique Samba Trio enoja fãs de jazz, irrita roqueiros e causa asco nos eruditos. Concorda?  

Sim, na verdade isso serve pra todos os nichos do mercado musical. Se você chegar na galera do pagode, também vão achar palha… É uma banda que não tem público. Ao mesmo tempo, tem todo o público do mundo. Ninguém vai curtir. Então a gente pode ir pra onde quiser, que a reação vai ser mais ou menos a mesma.

Duvido, vocês são cheios de fãs!

Isso é você que está dizendo.

É melhor, né? Que os outros que digam e não você.

Exato.

Mas quem é o público do Satanique, se você pudesse definir? Ou não tem como definir?

No Brasil, em geral, é um público de transição entra a música erudita e popular, o que acaba sendo um nicho muito específico de mercado. É uma parcela muito pequena da população. Porque apesar de existir um público da música popular imenso e um público grande também da música erudita, o público de transição entre os dois é muito mais raro. São públicos meio distantes, que não conversam entre si. Isso se eu pudesse definir, porque isso nem chega a ser exatamente o nosso público, mas acho que é o que mais se aproxima.

No exterior é completamente diferente. Até a faixa etária muda: é um público majoritariamente coroa. Enquanto aqui o nosso público transita entre 20 e 40 anos, lá é de 40 pra cima. É um público mais interessado em world music do que em música instrumental.

Mas que já é, de certa forma, “letrado” em música brasileira e consegue entender a desconstrução que está sendo feita pelo Satanique? Ou eles só pensam “que som muito doido”?

Mais ou menos. Eles costumam pensar que “som muito doido e étnico”.

Exotizando?

Acho que não, porque eles estão bem acostumados com música brasileira. Na Grécia tem muito fã de Caetano, por exemplo, gente que canta música do Caetano em português. A música brasileira tem muito mais tentáculos do que eu imaginava. Saindo do Brasil é que descobri. Esse público da world music é um pessoal que gosta de música étnica, ou do que eles consideram música étnica, que é música africana, música sul-americana, música oriental. Coisas que fogem do mercado de música pop americanizado, por assim dizer.

No entanto, o público que entende mesmo a desconstrução é o público brasileiro, não tem nem o que dizer. Aqui no Brasil, o público consegue entender o que é um baião desconstruído. Na Europa eles não vão nem saber o que é um baião. Lógico que existem exceções. Por exemplo, depois de um show em Amsterdã, um músico local falou para o nosso batera, o Lupa, que ele não sabia tocar baião. O Lupa tem, sei lá, uns trinta anos de pesquisa em música brasileira e teve que ouvir isso de um holandês. E esse cara, obviamente, era uma exceção, sabia o que era um baião, sabia a acentuação, ele não entendeu foi a desconstrução. Na concepção dele, era impossível um baião em 3/4, que era o que a gente tava fazendo. Aqui todo mundo reconhece.

E esse álbum de agora, o “Xenossamba”, é o sétimo?

Espera aí, rapidinho. Deixa eu contar… Na verdade é o oitavo se você contar uma coletânea virtual que a gente lançou pelo Far Out Recordings, um selo britânico. Uma coletânea com as nossas próprias músicas.

Vocês lançam por quem, geralmente?

A gente já lançou em vários selos por aí. Já lançamos pela Amplitude, um selo de São Paulo [extinto em 2009]. Nossos dois primeiros discos foram por lá. A gente já lançou pela Far Out… E já lançamos de modo independente também. Os nossos dois últimos discos são independentes.

Por que?

Dá mais dinheiro.

Ou perde menos.

Não, perde mais.

Gostei do conceito que li sobre o álbum novo ser, como vocês já disseram, “50% MPB torta e desconstruidona e 50% bossa-nova de elevador descendo pro inferno”.  Como é isso? Conta um pouco sobre o que está por trás do “Xenossamba”.

Então, essa é a ideia.  Esse disco, o “Xenossamba”, é um vinil duplo de 7 polegadas. Nos dois lados A são hits atemporais do Satanique Samba Trio, coisas antigas, mas inéditas, que a gente nunca gravou. E nos lados B, as quatro faixas são versões bossa-nova de elevador, ou sambinha de sala de espera, ou muzak [um tipo de música que toca em ambientações de lojas, elevadores e afins] – o que você preferir – dos nossos hits.

Existe toda uma ciência para fazer versões muzak de sucessos e hits populares. E, dentro desse conhecimento, existe um compartimento de mercado que é dedicado a versões de músicas brasileiras pra serem exportadas por aí. Então, por exemplo, me lembro de estar em um supermercado na Bélgica e ouvir uma versão bossa-nova lounge de “Trem das Onze” cantado num português todo errado e com um tecladinho vagabundíssimo de churrascaria e, naquela hora, tive essa epifania. Pensei: “cara, ia ser muito fera se alguém um dia fizesse versões desse tipo de músicas do Satanique”. Mas já que ninguém ia fazer, eu fiz.

E por isso o nome do disco é “Xenossamba”. “Xeno” vem de estranho, ou estrangeiro, certo? Ou seja, é um samba estranho. Ou estrangeiro. Então serve tanto pro lado A dos discos, onde estão os sambas estranhos, ou pro lado B, onde estão os sambas estrangeiros que, por sua vez, são chamado de “Xenomorfos”. Aí tem “Xenomorfos” #1, #2, #3 e #4.

E por que “Satanique Samba Trio”? Você é satanista?

Não. Sou mais ateu que um saco de cimento. Mas tem uma carga semântica nesse nome. A palavra “satã” tem uma origem hebraica e uma árabe que significa “o adversário” ou “o acusador”. Esse símbolo é muito adequado pro tipo de música que fazemos, que é uma música de acusação dos clichês e de contraposição às regras do fluxo de consciência da MPB.

Na verdade poderia ser Satanic, mas Satanique Samba Trio tem um ritmo muito melhor do que se fosse Samba Satânico ou Samba de Satã. Satanique Samba Trio é quase um beat box, quase uma levada de samba de gafieira. O trio no nome é meramente por motivos de prosódia, porque nunca foi trio, né? Já foi sexteto, é quinteto no momento, já foi hepteto, mas trio jamais. Em compensação, o Munha da 7 Top Trio é um trio mesmo, veja você.

Foto: Rachel Bertazzi/Reprodução

Quando decidiu que o que você gostava de fazer era essa vibe desconstruída, tipo ”vou fazer música, mas vou fazer desse jeito aqui”?

Interessante, geralmente as pessoas perguntam porque eu comecei a mexer com música, que é um papo muito superficial, se você for parar pra pensar.

É, alguém sempre vai fazer alguma coisa.

É. Agora como a gente começa a fazer é uma questão. Uma questão muito mais pessoal, na verdade. Tende a ser muito mais particular. Essa é uma boa pergunta. Tão boa que eu não sei responder.

Geralmente os meninos começam tocando, são mais incentivados. Você teve a sua fase “normal” provavelmente…

De música? Sim, tive. Tive, mas cansei rápido. A minha suspeita, até porque eu não tinha uma autoconsciência nessa época, que era minha pré-adolescência, é que o estranho me parecia um caminho de expressão mais genuíno. Porque eu conseguia expor minhas peculiaridades sem ter que verbalizá-las ou me comprometer. E, até ali, a resposta que tive da sociedade como um todo quando apresentava minhas peculiaridades era de total desaprovação. Então nas artes, na música, eu conseguia fazer isso de uma maneira mais velada. É isso. É a minha suspeita, na verdade. Não tenho tanta certeza.

Acha que tem algum tipo, também…. Não queria dizer protesto, mas uma forma de não se incorporar a uma lógica de mercado, de não começar a produzir pensando tanto em ser vendável ou no que as pessoas vão gostar? Talvez uma forma de se desatrelar disso?

Eu até gostaria de estar mais atrelado a isso, provavelmente estaria pagando minhas contas com mais facilidade hoje em dia. Mas não consigo não fazer. Já é um processo terapêutico, um processo de expurgo de certas anomalias da minha psique.

Será que quem gosta, gosta por isso? Porque está reconhecendo as anomalias da própria psique?

Ou elas se identificam com as minhas. Pode ser. Sinceramente não sei o que se passa na cabeça de alguém que gosta de Satanique Samba Trio. Tenho quase certeza que eu não gostaria.  Se você colocar agora, vou pedir pra você tirar. Vou pedir pra você botar, sei lá, uma versão musical de algum meme.

E sobre tocar em outros lugares, você acha que no Brasil – e em Brasília –quando alguém vai pra fora apresentar o próprio trabalho, seja outro país ou outra cidade, o público local começa a valorizar mais?

No Brasil até consigo ver. Depois que a gente foi pra Europa, nas duas vezes que a gente foi, a gente chamou uma atenção do público brasileiro em geral. Mas, de Brasília para o resto do país, não. O público de Brasília é um pouco mais cínico, no melhor sentido possível. Não se deslumbra muito não. É um público mais distante e científico. É um público bem pé no chão e que, na minha experiência, nunca se mostrou minimamente deslumbrado com esses nossos arroubos de grandeza. E eu respeito isso. Bastante.

Esse cinismo pode ser visto no seu antigo projeto, o DF Medieval. Era bem engraçado… Quem escrevia? É verdade que vai virar quadrinho? Explica aí pra quem não conhece.

Era um blog sobre a idade média no Distrito Federal. Criei o conceito, mas meus amigos contribuíam. Um deles pedia pra eu mandar relatórios da night e eu mandava por ICQ, pra você ver quanto tempo tem. Eu mandava relatórios como se fossem as cartas do Pero Vaz de Caminha, e ele me devolvia. Aí tive a ideia de começar o blog com esses trechos da história do DF Medieval. Só que a narrativa do blog se passava ali entre o final dos anos 80 e começo dos anos 90, entre o período “Pré-Gogânico” e o “Pós-Renatentismo”. Uma vibe meio “chinela” Kenner e calça de bali – aquela meio baggy mas de um tecido mais fino. Música baiana e faroeste caboclo. Gangue e tchose.

Aí agora vai sair a história em quadrinho e por isso tirei o blog do ar. Eu tinha começado a negociar a publicação de um livro, e os responsáveis pela editora pediram pra tirar o blog do ar. Tirei, o livro não foi pra frente. Nesse meio tempo surgiu a ideia de fazer a história em quadrinho e firmei uma parceria com o Gabriel Mesquita [desenhista, quadrinista e artista plástico de Brasília] e a gente tá fazendo aí. Deve sair ano que vem. A maioria das histórias que vão pra revista saíram do blog, mas tem algumas inéditas, como “A descoberta das chapadas da Chapada”.

Trecho de DF Medieval, parceria entre Munha da 7 e Gabriel Mesquita

E qual a sua relação com Brasília e tudo mais? Costumo te ver enaltecendo – e referenciado bastante – o Distrito Federal e proximidades.

O Distrito Federal é uma coisa sui generis. Primeiro porque é o único lugar no Brasil em que existe uma raiz cultural de cruzamento entre tantas regiões diferentes. Tipo assim, lógico que São Paulo ou Rio, por exemplo, possuem presença culturais de origens diferentes em suas formações, mas Brasília já começou assim. Veio do ovo, abriu a casca e já era nordestina e carioca ao mesmo tempo. A nossa expressão mater é “oxi, véi”. Ao mesmo tempo em que é um local conhecido pelo rock, tem também uma tradição de festa junina e manifestações culturais nordestinas fortíssimas. O DF é um expoente de choro e hip hop. É um ninho cultural único. O comportamento candango é muito específico também, o senso de humor cínico, o niilismo social, os movimentos políticos. É tudo muito peculiar.

Tem seus defeitos? Lógico que tem. Mas todos os lugares tem. A questão é abraçar as qualidades e desconstruir os defeitos. Ao mesmo tempo, o DF é geograficamente segregado. Em partes, porque existem movimentos urbanos de confluência, como Taguatinga e Ceilândia. Mas o Plano Piloto é muito afastado de outras localidades.

É, o grande problema acaba sendo a concentração de poder, que tem em todo lugar.

Sim, tem em todo lugar, a verdade é essa. Talvez em Brasília seja mais, geograficamente setorizado. Mais palpável. Você consegue enxergar dando um rolê. Mas acredito que todas as cidades, em proporções diferentes, sofram do mesmo problema. E, pô, é vira-latismo entender o Distrito Federal como um antro de defeitos. A gente exporta o GOG, Hamilton de Holanda, Melhores do Mundo e Vicente Luque, lutador de UFC.

Que mix de referências… Falando em UFC, o que pratica além de luta-livre?

Luta-livre, Jiu-Jitsu, boxe e MMA [Mixed Martial Arts – ou Artes Marciais Mistas]. Também já treinei Boxe Chinês e Muay Thai.  Comecei em 93, treinando Kung Fu Shaolin porque eu… Como vou explicar isso? Ah, foda-se. Porque a minha turma de amigos brigava com uma outra galera e alguns membros dessa outra jurisdição começaram a treinar Karatê. Aí a gente começou a levar prejuízo nas brigas.

Foi então uma “porradaria” de rua que se sofisticou?

Sim. E aí comecei a treinar Kung Fu porque tinha uma academia perto da minha casa. Alguns anos depois, por causa do treinamento, parei com esse negócio de brigar na rua. Depois disso, foi um caminho natural pelas artes marciais. Nunca larguei porque sempre me fez bem demais e porque é divertido pra caramba. Artes marciais e artes formais são duas práticas das quais não posso abdicar de maneira nenhuma. Preciso fazer constantemente os dois, senão eu morro. Com o tempo, fui entendendo que essas duas atividades tem muito mais em comum do que se imagina. A filosofia de aprendizado e aplicação de ambas funcionam interseccionalmente. Não são práticas completamente estranhas entre si.

E quais as suas maiores influências musicais?

Depende. Pra qual projeto? Pro Satanique, por exemplo, minha influência é a minha pesquisa. Os pagodes mais rasteiros, os sambas mais copiados, o forró mais pasteurizado que existe. Essas manifestações musicais que sedimentam os clichês. Nessa fonte que vou beber pro Satanique Samba Trio. Mas minha influência como músico no geral talvez seja o jazz de vanguarda do meio do século XX, como Nat King Cole, Sonny Rollings, Sun Ra e, ao mesmo tempo, os movimentos de música contemporânea e erudita, Jocy de Oliveira…

Jocy de Oliveira! Tem matérias excelentes saindo sobre ela esse ano. Você a conhece pessoalmente?

Não, quem dera. Nossa, ela mudou minha vida. Acho que eu não tinha coragem não. Ela e o Spider [o lutador Anderson Silva], acho que eu não teria coragem. Meus dois maiores ídolos hoje em dia.

Pra finalizar, revela aí: como é que consegue tempo pra fazer tanta coisa?

Não tenho mais vida. Não tenho mais vida pessoal. Não saio mais, não me divirto mais. Quase não como, não durmo. Só faço as coisas que são estritamente necessárias. Uma delas é a minha produção artística, que não deixa de ser o meu trabalho – e algo que bota dinheiro no meu bolso. E isso tudo se dá por causa de um momento específico na minha vida. Em 2008, tive um episódio de crise do pânico que me fez encarar minha própria finitude. Encolhido no chão, no escuro, tive a certeza absoluta que ia morrer. A sensação é de que eu ia morrer no segundo seguinte. Foi a eminência de morte mais tangível que já senti.

Já tive arma apontada para a minha cabeça, já sofri acidente de carro, já tive doenças graves, mas nunca tive tanta certeza que ia morrer como naquele momento. O que mais me incomodou naquela hora foi ter deixado várias pontas soltas na minha vida, vários sonhos ao léu. Quando a crise passou, eu estava vivo, eu não morri, e resolvi priorizar essas coisas. E aí, por causa disso, minha produção pessoal se tornou minha prioridade número um. E por isso faço as coisas mesmo me arrastando, mesmo doente, com a saúde horrível… Mesmo completamente na pior.


Maíra Valério

29 de dezembro de 2017