Discos dos Pais

A Revista Seca pediu que 6 pais escolhessem um disco que esteja ligado à sua experiência de paternidade

Foto: Leah Lockhart / Reprodução

 

Rap Brasil – Coletânea (1995)

Educador e dedicado à formação moral das minhas filhas, digo sempre que, mesmo que por um acaso elas não tenham o talento da Marta, vão ter que ter, pelo menos, a integridade e a força da Formiga. Sabendo que um bom exemplo vale mais que mil palavras, meus discos relacionados à paternidade são as coletâneas de Rap Brasil, Volumes 1, 2 e 3. Não posso deixar minhas filhas conhecerem o MC Godzilla antes de conhecerem Cidinho e Doca. A paternidade, assim como os funks das antigas, é amor e proceder.

Conrado Henrique, professor, pai da Maria Cecília e da Ana Morena.

 

A Turma do Balão Mágico – Balão Mágico (1982)

É um disco que eu adorava quando era criança, que eu ouvia em fita cassete. Também foi a trilha sonora da primeira infância das minhas filhas. São músicas muito bonitas, bem tocadas, com harmonias incríveis, com inocência e ternura nas letras. Tudo a ver com essa fase (a primeira infância) em que a contemplação da vida é o mais importante.

Michel Silva, pai da Camila e da Estela.

 

Journey to Dawn – Milton Nascimento (1979)

Só consigo pensar em um álbum para falar sobre o processo da paternidade que tenho vivido este ano. Trata-se de um disco chamado “Journey to Dawn”, do Milton Nascimento, em que ele traz versões em inglês de algumas músicas já conhecidas e explora alguns arranjos diferentes. Além da beleza das músicas, o que mais me toca no disco é a faixa de abertura, que leva o nome do meu filhote: Pablo. Quando (finalmente) decidimos que esse seria o nome do menino que crescia na barriga da Ana, ganhamos esse disco de presente de um querido amigo (curiosamente, também chamado Pablo). Essa música, em especial, se transformou numa fonte de inspiração e um convite a imaginar como seria esse menino tão desejado: seu jeitinho, suas brincadeiras e comidas preferidas. Lembro de sentar para escutar esse som e me deixar levar pelo pensamento, buscando desenhar na minha cabeça como seria a sua carinha, seu olhar, sua risada. Milton me impulsionou a ir construindo meu amor pelo Pablito, bem antes dele nascer. Meu menino fez dois meses recentemente. Realmente é um presente da vida, a maior aventura de todas, e agora posso segurar meu filho nos meus braços e olhar nos seus olhos enquanto dançamos juntos essa melodia que está registrada em um lugar especial, bem além do corpo.

Diego Barrios, professor, pai do Pablo.

 

Lô Borges – Lô Borges (1972)

A experiência da Alice com a música é desde quando ela estava na barriga da mãe. Quando ela era mais nova, com seis meses, um ano, ela era vidrada em músicas de criança mesmo, desde Peppa Pig a coisas mais lúdicas, como Os Saltimbancos. Recentemente, tivemos uma experiência bacana. Agora, com 2 anos, Alice já faz associações com os artistas que a gente escuta. Eu sou Flamengo e a mãe dela, a Leila, é Vasco. Então, rola uma briga para ver quem vai conquistar o coraçãozinho da Alice com o time (risos). No fim de semana passado, eu estava ouvindo o jogo do Flamengo no rádio, como sempre costumo fazer. Alice ouvia comigo quando, num momento, ela falou: “Papai, por favor, Flamengo não. Bota Lô Borges”.

Engraçado que há mais ou menos um mês eu tinha colocado o LP de estreia do Lô Borges, que leva o nome dele e tem um tênis na capa, para a Alice escutar. Ela já sabe como colocar o disco na vitrola. Perdi o jogo do Flamengo, mas fiquei feliz em ver que o Lô é um dos primeiros artistas que ela lembra. Ele é um dos meus favoritos.

Perdi a batalha, mas saí vencedor.

João Jatobá, historiador, pai da Alice.

 

Hiatus Kaiyote – Choose Your Weapon (2015)

Quando eu ouvi esse som pela primeira vez, eu fiquei tão empolgado com a estética, que parecia que sintetizava muitas linguagens da música universal, mas tinha uma base forte no R&B, que é um estilo que eu curto muito. A banda é australiana, são todos jovens músicos que têm muita influência de soul, R&B. A menina que canta é órfã, foi cuidada pela tia, que era dançarina de música indiana, então ela foi muito influenciada por isso também. E eu dividi esse momento com a Lila, obviamente. Coloquei ela para ouvir. E ela se sentiu muito magnetizada pela música. Ela ficou hipnotizada. E eu via que não tinha só a ver com o fato dela ver o vídeo, mas causou nela uma impressão, um impacto sensorial, que conectou a gente. Porque é um som super atual, que fala com a nossa geração, mas fala também com a geração dela, porque está sendo feito na geração em que ela nasceu, embora os músicos que produziram tenham lá seus trinta anos.

Foi um momento especial, porque era um som que, para mim era fresco, era novo, e para ela também. Então a gente se conectou nessa descoberta juntos. Em vez de eu estar lá ouvindo aquelas clássicas musiquinhas para crianças com ela e vendo ela aprender a cantar, não, estávamos os dois lá com os sentidos sendo surpreendidos. E eu percebi que ela entendia a essência desse som e o que ele estava transmitindo.

Muari Vieira, músico, pai da Lila.

 

Construção – Chico Buarque (1971)

Se “Construção” é um dos discos do Chico de mais forte teor político, com faixas como “Deus Lhe Pague”, “Cordão”, “Samba de Orly” e a própria “Construção”, isso garante ao álbum um tom soturno na denúncia das diversas opressões que estavam em voga naquele ano de linha dura do governo militar. Mas o disco é também um dos mais sensíveis, o que, em se falando de Chico, é dizer bastante coisa. “Cotidiano”, por exemplo, é um hit absoluto, já tocou mais vezes do que a humanidade é capaz de contar, mas ainda impressiona pela capacidade de depositar no amor a salvação para uma vida por demais prosaica, ainda que esse amor seja também mundano.

Já o fôlego final do álbum deveria constar na definição da palavra delicadeza no Aurélio. “Valsinha” e “Gesùbambino” derretem qualquer marxista endurecido pela crueza da luta de classes, enxergando o que há de belo no tosco, enfiando uma faca de esperança até mesmo nos corações mais resistentes. Mas são os versos da última faixa, “Acalanto”, que me fazem respirar mais fundo. A imagem é de um pai que enfrenta a madrugada em busca da aurora mais serena, que seja digna do despertar de sua filha. É o mesmo pai que beija seus filhos como se fossem únicos antes de enfrentar a madrugada da construção, é o mesmo pai que não se entrega e que alguém vai ter que ouvir enquanto ele puder cantar. Se a abertura do disco pinta um cenário desesperador, a poesia do Chico vai injetando momentos de beleza, esperança e luta ao longo das faixas.

Meu pai repetiu muitas vezes os versos de “Acalanto” para os seus filhos durante as noites de vigília. E o dia que me perguntarem que tipo de pai eu sonho em ser, direi que o mesmo pai do disco “Construção”, que, mesmo em tempos de madrugada, sai por aí afora para, com as armas que tiver disponíveis, garantir que a aurora seja digna do despertar da sua pequena.

Fora Temer e, principalmente, a corja que o financia.

Vitor Camargo de Melo, escritor, espera ansioso pela chegada da Isabel no mês que vem.


Vitor Camargo de Melo

11 de agosto de 2017