Amizade sincera

Amigos há mais de 30 anos, Almir Sater e Renato Teixeira relembram as histórias da carreira durante o 19º Festival de Inverno de Bonito

Fotos: André Patroni/Reprodução

Almir Sater e Renato Teixeira são amigos há mais de 30 anos e a conexão entre eles surpreende. Durante a coletiva de imprensa do 19º Festival de Inverno de Bonito, a dupla responde às perguntas dos jornalistas em perfeita sincronia. Eu quero saber, por exemplo, um pouco do repertório do show que seria apresentado horas depois na Praça da Liberdade. Renato fala sobre o processo de criação do disco “+AR” e Almir explica na sequência alguns detalhes sobre o trabalho anterior (“AR”). 

Numa tacada só, descubro que os CDs foram feitos em sequência. “AR”, lançado em dezembro de 2015, celebra essa parceria de três décadas com músicas da dupla, exceto uma, do também amigo Tião Carreiro. “+AR” chegou só em 2018 por questões burocráticas e foi menos pensado que o álbum anterior. A dupla ia compondo e gravando e, dessa maneira, nasceram “Flor do Vidigal”, “Assim os dias passarão” e “Venha me ver’. 

“Tem música minha, do Almir e com parceiros. Canções que são nossa praia. Esse disco é pra gente mostrar nossa música mesmo. A única maneira de mostrar nosso trabalho é gravando CDs”, aponta Renato. “Se a gente for fazer outro álbum, isso vai motivar novas composições. A gente trabalha quando tem sentido”, completa Almir, frisando a importância de “gostar do que faz”. 

O violeiro sul-mato-grossense explica que a melhor coisa para um compositor é fazer uma canção que o emociona. “Sempre estamos em busca disso. Praticamente todas as músicas nossas foram aproveitadas. É um sonho nosso fazer mais canções. Isso nos motiva. E a gente vive de motivação”. 

Almir: Eu comecei como fã do Renato.

Renato: Não que ele seja muito mais novo do que eu (risos). 

Almir: Eu era criança e já era fã do Renato (risos). Eu dizia que ainda ia gravar com ele. E deu certo. Tem uma música nossa que diz que “tudo vem quando a gente chama”. É isso mesmo. É preciso ter fé. 

Renato: Se quiser uma coisa, chama que vem.

O maior sucesso

Quando perguntam qual é o maior sucesso da carreira, Renato Teixeira responde sem pestanejar: “Tocando em frente!” e lembra a curiosa história da música que foi (e é) cantada por artistas de diversos gêneros, como Michel Teló e Anavitória (ambos presentes na programação do Festival de Bonito deste ano). 

Renato: Todo mundo canta. Nem parece nossa! 

Almir: Era 1991 e eu estava na gravação da novela “Pantanal”. A gente fez essa canção para a trilha da novela. O plano era o Renato cantar, mas a (Maria) Bethânia tomou dele (risos).

Renato: Almir cantou a música no telefone para ela, que me telefonou em seguida. “Oi, Renato, aqui é Bethânia. Sabe aquela música sua e do Almir que você ia gravar?” (risos). Depois, todo mundo gravou essa música.

Imagem e som

Nascido em Campo Grande (MS), Almir Sater é conhecido por suas músicas inspiradas (e inspiradoras), mas também pelo trabalho nas artes cênicas. A estreia foi em 1987, no filme “As Bellas da Billings”, e o ápice da carreira como ator, na dobradinha “Pantanal” (1990) e “A História de Ana Raio e Zé Trovão” (1990/1991), ambas na TV Manchete.

Apesar da experiência na telinha e na telona, Almir é contra músicos gravarem DVD. A declaração surpreende os jornalistas. Mas ele explica:

“Isso desgasta, vulgariza o artista. As pessoas passam a vê-lo, não a ouvi-lo. E música é boa quando a gente ouve primeiro. Quer ver? Olha para uma foto do cara. Quando você vê, todos os seus sentidos estão ali. Quando você ouve, você consegue estudar, trabalhar. O DVD é muito possessivo”.

Renato, que tem DVDs gravado solo e com amigos, “justifica-se”:

“Essa é a visão do músico que lida com sonoridades, o cara é mestre nisso. Tudo isso é para preservar a sonoridade, o espírito da canção. Eu já faço DVD porque eu sou mais exibido. Também não faço novela né? (risos)”.

Aí, a brincadeira e intimidade entre os dois voltam à tona:

Almir: Mas é mais jovem e bonito!

Renato: Mas não tenho fazenda no Pantanal.

Almir: Você chega lá!

Mato Grosso do Sul

Apesar de ter nascido no estado de São Paulo, Renato Teixeira tem uma relação estreita com o Mato Grosso do Sul. Um dos netos nasceu na capital, Campo Grande, e a esposa do artista é natural de Dourados, cidade onde atua como professora. Por isso, Renato frequenta Dourados há mais de 10 anos.

“Gosto muito do Mato Grosso do Sul. Por causa do Almir, acabei me identificando muito. Imagina eu, menino, morando em Ubatuba (SP) nos anos 1950. A cidade tinha seis quarteirões, um caminhão e um automóvel. Quando o pessoal falava em Mato Grosso, o povo arrepiava. Parecia um lugar inatingível, uma aventura. Quando alguns ubatubanos saíram rumo ao Mato Grosso (na época era um só Estado), tiveram até festa de despedida. Antes de conhecer pessoalmente, Almir me descreveu como era o Pantanal. Contado por ele, a região é tão bonita quanto vista pelos próprios olhos”.

A intensa relação amizade-familiar entre os dois começou na década de 1980, por causa da música. Almir revela que quando escutou Renato pela primeira vez, pensou: “Não estou sozinho nesse mundo”.

“A aproximação era inevitável. Éramos muito mais ligados do que eu com qualquer som do Rio de Janeiro ou de qualquer outro artista popular de outra região. Parece que falávamos outra língua. A gente se aproximava um pouco do Sá & Guarabira, mas não tínhamos uma turma”, conta Almir.

Renato alfineta a Zona Sul do Rio, um lugar que parece embarreirar alguns artistas de outros gêneros e regiões:

“No restante do Rio é diferente. Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, Tonico & Tinoco cantando no Maracanãzinho e a multidão não conseguindo entrar. Isso nos anos 1970. Existe um nucleozinho que ninguém consegue entrar. Em São Paulo tinha um lugar chamado Patachou, na rua Augusta. Lá estavam Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Milton Nascimento. Todo mundo junto. Tinha até campeonato de botão. O pessoal interagia muito e isso foi acabando. A gente precisa recuperar isso”, diz o violeiro – que tem um projeto pensado nessa aproximação. Mas ainda em segredo. 

Apesar de fazer um som que caminha para o interior do Brasil, tanto Renato quanto Almir se dizem roqueiro. James Taylor e todo mundo do Pink Floyd são algumas referências que os artistas seguem ouvindo. 

Almir: “Ainda não deu para gastar. Tem muita coisa para ouvir daquela época”. 

Bem-humorados e entrosados, Almir e Renato falam da amizade com Sérgio Reis, comunicação pública e, claro, ainda mais sobre música.

Quase meia hora depois de conversa, Almir arranja um jeito de encerrar a coletiva de imprensa:

“Vamos almoçar?”, ele dispara. 

Ninguém se opõe à sugestão do artista.

*A repórter viajou a Bonito a convite da Secretaria de Cultura e Cidadania do Governo do Mato Grosso do Sul


Maíra de Deus Brito

6 de agosto de 2018