A voz do morro

Os cinco melhores discos de Luiz Melodia, o homem que nasceu no morro e que não cantava (apenas) samba

Foto: Daryan Dornelles/Reprodução

No último dia 4 de agosto, o Brasil teve mais um desfalque no dream team da música do país. Luiz Melodia morreu após uma rápida e dolorosa luta contra um câncer na medula.

Artista conhecido por ter nascido e se criado no morro, mas que não cantava samba, Melodia não aceitava rótulos. Cantava o que queria e encantava a todos – até mesmo aqueles que insistiam em chamá-lo de maldito. Como um homem capaz de compor “Magrelinha” e “Fadas” seria capaz de ser maldito? “Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais”, avisou o carioca lá em 1976.

O Negro Gato deixou uma curta, mas essencial discografia. Recebi o desafio de escolher os cinco melhores discos do mestre. Eis minha seleção:

Pérola Negra (1973)

Se eu um dia eu tivesse a difícil missão de escolher os dez melhores discos brasileiros do século 20, com certeza, o álbum de estreia de Luiz Melodia estaria nessa seleção.

O debut como cantor não poderia ser melhor. O Brasil já conhecia “Pérola Negra” na voz de Gal Costa – que gravou a música em 1971 no LP “Fatal” –, mas, quando Melodia chegou com aquele repertório diferente de tudo que se tinha ouvido até então, foi paixão à primeira vista. Impossível ouvir “Vale Quanto Pesa” e “Objeto H” e continuar a mesma pessoa.

O LP ainda tem outros méritos, como o super time de músicos (entre eles, Luiz Carlos Batera e Altamiro Carrilho) e a instigante capa de Rubens Maia. Certa vez, em entrevista ao Canal Brasil, Melodia explicou que os feijões na capa representavam a vida e ele deitado na banheira era Melodia “tomando um banho com o mundo”. Na contracapa, talheres e um prato, com fotos de vários amigos do cantor. Uma das fotografias mostra Melodia e Wally Salomão na praia. Grande incentivador de Melodia, foi Wally quem o apresentou a Gal e possibilitou outras joias raras além de “Pérola Negra” (1973).

Mico de Circo (1978)

Melodia incomodou muito os críticos de plantão. Uma das coisas que eles não entendiam era como um homem preto criado no Morro de São Carlos não cantava samba. Ainda mais levando em consideração que o tal morro ficava no Estácio, berço da Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba.

Num toque de ironia e irreverência, Melodia avisou: “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor”. A faixa “A Voz do Morro” abre “Mico de Circo” e é uma daquelas regravações do artista que se tornaram emblemáticas. Melodia era um Rei Midas da música: tudo que tocava virava ouro.

Vale lembrar que é aqui em que ele grava as pouco comentadas (excelentes) “Presente Cotidiano” e “Giros de Sonho”, e o sucesso “Fadas”.

14 Quilates (1997)

Reli algumas entrevistas de Luiz Melodia depois de sua morte e, numa dessas, encontrei um desabafo do artista, lamentando que discos como “Pintando o Sete” e “14 Quilates” tenham ficado de lado por causa do pequeno interesse da mídia. Partiu meu coração.

Eu tinha dez anos quando “14 Quilates” foi lançado e eu lembro de ouvir no repeat “Quase Fui Lhe Procurar”, música linda de Getúlio Cortes, figura pouco conhecida no país dos intérpretes. Getúlio, homem negro de Madureira, foi uma figura importante para a Jovem Guarda. Só Roberto Carlos gravou pelo menos 10 obras dele, incluindo o sucesso “Negro Gato”, também registrado por Melodia.

O álbum também vale ser ouvido pela pegada social de algumas composições como “Pra Que” e “Sub-Anormal”.

Luiz Melodia Convida – Ao Vivo (2003)

A discografia do artista é curta e formada por algumas coletâneas, como é o caso de “Luiz Melodia Convida – Ao Vivo”. Numa lista de cinco melhores discos, não parece fazer muito sentido colocar um CD como esse. Mas talvez faça. Explico:

Para quem conhece pouco o artista, a coletânea é o melhor caminho, afinal, são sucessos que fazem você ouvir aquelas quase-novidades em looping. O trabalho de 2003 de Melodia reúne os clássicos do artista gravados até então, inclusive uma regravação de Nelson Cavaquinho! Não tem como ouvir “Palhaço” sem lembrar do Pérola Negra – o artista.

Outro ponto positivo do CD é a sua versão em DVD, com 26 faixas, e participações especialíssimas de Luciana Mello, Zezé Motta, Elza Soares e Gal Costa.

Zerima (2014)

A estreia de Luiz Melodia foi uma das coisas mais lindas feitas na música brasileira, e a despedida dele, serena. Injustamente, o artista foi chamado de “maldito” por muitos por causa das letras, da ousadia e de uma lenda infundada que ele não vendia discos.

Melodia não vendeu tanto como aqueles que sucumbiram ao mercado fonográfico, mas deixou heranças de valor inestimável como “Zerima”, em que apostou numa mistura de bossa nova, samba, baião e rap – mescla corajosa, assim como ele fez em “Pérola Negra” (1973), por exemplo.

O CD, essencialmente inédito, fala muito de amor. Encontros, desencontros, brigas, perdão. Acho até infundado tentar encontrar a melhor faixa do disco, mas me arrisco a chamar atenção para duas músicas que contam com participações especiais. Em “Dor de Carnaval”, Melodia canta com Céu as dores de ver a escola de samba do coração perder e, em “Maracangalha”, ele faz uma justa regravação de Dorival Caymmi ao lado do filho e rapper Mahal Reis.


Maíra de Deus Brito

31 de agosto de 2017