A música diaspórica de Luedji Luna

Inspirada em sonoridades da África, da diáspora africana e do Brasil, a cantora baiana acaba de lançar o primeiro disco da carreira, “Um corpo no mundo”

Foto no alto: Tássia Nascimento/Divulgação

Eu ainda não tinha ouvido falar de Luedji Luna. Um dia, num jantar, uma amiga colocou a única música dela disponível até então no Spotify: “Um corpo no mundo”.

“Olhares brancos me fitam

Há perigo nas esquinas

E eu falo mais de três línguas”

 

Identificação à primeira vista.

Pouco tempo depois a cantora baiana – que mora em São Paulo – desembarcou em Brasília para uma série de shows. Era inverno e quem mora no cerrado sabe que quando o frio chega, não vem para brincadeira. Entre uma correria, um casaco e uma friaca de lascar, perdi Luedji. Mas ali, eu já sabia cantar várias dela, graças ao Youtube.

Enfim, no dia 27 de setembro, tive a chance de ver Luedji ao vivo. Preta, alta, magra, cuja voz arrebata. Não manjo nada de Sol Maior ou Mi Menor, mas sei dizer que eu nunca tinha ouvido uma voz daquela – que encanta ainda mais ao vivo. Não era o mais do mesmo. É coisa boa e rara de se encontrar por aí.

O subsolo do Academia Café estava lotado quando ela começou a cantar “Cabô”:

 

“Cabô, 20 anos de idade, quase 21

Pai de 1, quase 2

E depois das vinte horas, menino volte pra casa

Cabô. Ô Neide, cadê menino?

Cabô, 15 anos de idade incompletos

Eram só seis horas da tarde

Cabô. Cadê menino?

Quem vai pagar a conta? Quem vai contar os corpos?

Quem vai catar os cacos dos corações?

Quem vai apagar as recordações?

Quem vai secar cada gota de suor e sangue?

Cada gota de suor e sangue

Cabô”

Emocionada, ela explicou que pensou várias vezes se deixava ou não a música no repertório. Ela provoca muita emoção na cantora e, em caso de choro, pode criar um muco, o que atrapalha as técnicas de canto.

“Cabô” nasceu após a Chacina do Cabula, em Salvador. Em janeiro de 2015, 12 pessoas foram mortas no bairro soteropolitano. Todos jovens.

“Cabô fala do extermínio da juventude negra. Não é fácil cantá-la, mas é uma música muito necessária. Daí, acabei gravando ela no disco”

Foto: Danilo Oliveira/Revista Seca

Disco que, por sinal, acaba de ser lançado. “Um corpo no mundo” tem influências do samba, do jazz, do reggae, da música do Brasil e do mundo. Ou seja, é inclassificável, como disse a própria Luedji.

“Ele tornou-se um disco com uma sonoridade muito peculiar. É um álbum de difícil definição. E a ideia era essa mesmo: não ficar estanque. A gente está falando do não lugar, do não pertencimento do corpo”

O CD começou a ser gestado há algum tempo, quando Luedji mudou-se para São Paulo e viu na capital uma cidade estranha.

“Quando a gente sai de um lugar para o outro, a gente começa a entender como impacta a solidão de não se ver representado. E São Paulo me trouxe isso. Eu andava pela cidade e não me via. Isso me incomodava. Ali, eu tinha uma outra dimensão da solidão. Eu estava só, sem meu pai, minha mãe e meus amigos. Era a solidão de um corpo invisível.”

Andando por outros espaços, como a Barra Funda, bairro onde morou, Luedji encontrava todos os dias 30, 50 imigrantes africanos e haitianos, sobretudo do Senegal. Naquele momento, ela passou a se identificar com aqueles corpos estrangeiros. A identificação vinha justamente porque aqueles corpos não eram dali. Assim como ela.

“Fiquei refletindo sobre isso, sobre a solidão, e me questionei: a qual África eu pertenço?’. Eu tinha a identificação imediata da cor, mas não podia ir além daquilo. Existem barreiras linguísticas, culturais. Observei a dinâmica e o racismo da cidade. Cheguei em São Paulo em um momento em que a imigração estava bem forte, assim como os casos de xenofobia e a repressão aos ataques. Aí, nasceu ‘Um corpo no mundo’, canção que faz uma reflexão sobre tudo isso e mostra a trajetória de sair de Salvador e ir para São Paulo. Mostra a mobilização do corpo…”

A música acabou tornando-se o ponto de partida para o primeiro show e para o disco homônimo, que traz a ideia da África. Ou melhor, traz as Áfricas. Luedji não queria negar a afro-baianidade que faz parte dela e do seu trabalho, mas desejava ir além. Assim, veio o CD com a presença de uma África multicultural, multiétnica e diaspórica.

A artista convidou o queniano Kato Change para fazer a guitarra e o cubano Aniel Somellian para o baixo elétrico e acústico. Filho de congoleses, paulista e criado na Bahia, François Muleka assumiu o violão. Fechando o time, na percussão, estão o soteropolitano Rudson Daniel e o sueco radicado na Bahia, Sebastian Notini.

A produção e a mixagem ficaram sob a responsabilidade de Sebastian Notini, conhecido por assinar trabalhos de Tiganá Santana e de Virgínia Rodrigues.

“Quando a gente pensa na diáspora e no negro da diáspora, qual é o lugar que ele se encontra no mundo? Estamos num espaço físico e geográfico em que não nos vemos. Não temos como saber, com exatidão, de onde viemos. De qual África viemos. Qual é o lugar em que estamos? Qual lugar ocupamos no mundo?”

Foto: Danilo Oliveira/Revista Seca

Por fim, faço a pergunta que ela mais deve escutar por aí: “É Luedji mesmo?”.

Risonha, ela me explica que seu nome tem origem africana, mais especificamente do povo Lunda que, hoje, compreenderia o território que é Congo e Angola.

“Meu pai é historiador baiano. Sou a primeira filha de um casal de militantes que se inspirou no romance ‘Lueji – O nascimento de um império’, do escritor angolano Pepetela.  A protagonista do livro, Lueji realmente existiu e foi rainha do povo Lunda. Durante muito tempo achei que o nome significava amizade, mas, recentemente, um amigo angolano disse que pode significar lua ou rio”.

Luna, o apelido de adolescência, foi incorporado ao primeiro nome, completando o nome artístico da cantora. Nascida e criada em Salvador, mais especificamente em no bairro do Cabula, Luedji encerra o diaspórico “Um corpo no mundo” com “Iodo + Now Frágil”, poesia da brasiliense Tatiana Nascimento.

A música-poesia, que é uma oração à Iansã, Senhora dos ventos, raios e tempestades, fala das marcas deixadas pela escravidão, de lesbofobia e do genocídio da população negra, mas também evoca força e gana por justiça.

“[…] os complexo de contenção:

hospício é a mesma coisa que presídio é a mesma coisa que

escola é a mesma coisa que prisão que a mesma coisa de hospício

é a mesma coisa que

as políticas

uterinas

de extermínio

dum povo que não é

reconhecido como civilização”.

 

Bate-bola

São Paulo ou Salvador?

Salvador!

Gil ou Melodia?

Melodia…Não sei….Gil (risos). Não sou capaz de opinar.

Angela Davis ou bell hooks?

Angela Davis.

Vitória ou Bahia?

Bora Bahia!

Caruru ou Vatapá?

Vatapá, forever.

 


Maíra de Deus Brito

31 de outubro de 2017