O “Exílio” dos Distintos Filhos

As dores e as delícias de uma banda de rock de Taguatinga

Foto: Tayane Sampaio/Reprodução

Seis anos separam o disco de estreia da banda Distintos Filhos do CD que acaba de ser lançado, “Exílio”. O nome não é por acaso. O tecladista Marcos Amaral me conta que o nome faz referência às viagens de divulgação do primeiro álbum, homônimo à banda.

“Todas as vezes que cruzávamos a fronteira do Distrito Federal, conseguíamos ter uma noção real do que é viver e fazer música por aqui. As dificuldades, a falta de espaço para os músicos e para a arte, de forma geral… o isolamento dos artistas”, explica Marcos, que acaba me apontando vários caminhos para o batismo do CD.

Ao mesmo tempo, o exílio físico ratificava a vinculação afetiva da banda com a cidade e especialmente com Taguatinga, cidade onde o grupo se formou e instalou estúdio.

 “Por isso a letra da faixa-título conjuga, de forma meio paradoxal, essa necessidade de se afastar da cidade, para expandir os domínios da banda, e a vontade de voltar. Um sentimento típico do exilado”.

Marcos Amaral

Os seis anos que separam os álbuns também causaram um “exílio existencial” na banda, que, além de Marcos, é formada por Ivo Portela (baixo) e Paulo Veríssimo (voz e guitarra). Mudanças profissionais, músicos que deixaram a banda, mortes e conflitos. O combo de transformações pessoais e coletivas levaram os integrantes a um momento introspectivo, refletido nas letras sobre angústias, frustrações, resiliência e noites mal dormidas.

Mas engana-se quem pensa que “Exílio” é um disco triste. As participações especiais dos saxofonistas Esdras Nogueira e Paulo Rogério (da banda Móveis Coloniais de Acaju) e do trombonista Jefferson Moura são algumas novidades que levam o som dos Distintos Filhos lá para cima, contrastando com letras sobre a dureza do cotidiano.

Eu conversei com Marcos Amaral e com Ivo Portela sobre o processo de criação do CD e o momento atual da banda. Confira:

Foto: Bento Viana/Reprodução

Revista Seca: A banda levou seis anos entre um disco e outro. Por que um espaço de tempo tão grande?

Ivo Portela: Esse tempo se deu por conta de diversos fatores. Com nosso primeiro disco, conseguimos circular por todas as regiões do país (exceto Norte), porém, por sermos uma banda independente, isso demandou um certo tempo para que pudéssemos viabilizar esse planejamento e de modo geral o processo de divulgação do trabalho. De lá para cá, já com inúmeras composições, estivemos buscando formas de concretizar o segundo disco. Daí tivemos a ideia de fazer um projeto de financiamento coletivo, que obteve bom resultado e tornou possível o registro do nosso segundo álbum.

RS: Como tem sido a experiência da banda em viver sem um baterista?

Marcos Amaral: Tem sido uma experiência meio dúbia. A parte mais “difícil” é fazer as pessoas entenderem como funciona esse negócio de “banda sem baterista” (risos). E a verdade é que, antes de tomarmos a decisão de seguirmos sem um baterista, mensuramos o quão “traumáticas” haviam sido as últimas trocas de bateristas na banda. Não foi uma decisão propriamente “natural” ou “confortável”, porque tem a questão do entrosamento… Mas foi enriquecedora, pois nos possibilita trazer para o nosso som a identidade de vários músicos diferentes, que convidamos para trabalhar com a gente. Fora isto, boa parte dos arranjos de bateria da banda são criados inicialmente pelo Paulo (Veríssimo, guitarrista e vocalista da banda)… fazemos assim desde o primeiro disco.

RS: E como foi esse processo na gravação do disco?

MA: No novo disco (“Exílio”), temos três bateristas diferentes. Paulo (Veríssimo) assumiu as baquetas de “Não Leve a Mal”, que lançamos como single em 2015. Peu Lima, baterista da banda recifense Mamelungos, da qual somos fãs, gravou em sete músicas. Maicon Lima, baterista de Brasília que tem nos acompanhado nos shows da turnê e que colaborou com o processo de pré-produção do álbum, gravou em duas faixas, entre elas a que dá nome ao disco. Foi uma troca muito profícua, pois trouxe várias novas nuances e “cores” para os arranjos das músicas. “Mais uma vez” (faixa 4), por exemplo, não entraria no disco, em princípio. Peu Lima chegou de Recife e trouxe um novo arranjo de bateria, que deu cara nova à música. Aos “47 do segundo tempo”, graças a este novo arranjo, optamos por inseri-la no disco.

RS: A ilustração de Caius César, que está na capa do disco, é linda. Como o artista chegou até vocês?

IP: A gente estava com a ideia de fazer o projeto gráfico do disco com ilustrações. Já tínhamos visto alguns trabalhos do Caius – excelentes por sinal –, e fizemos o convite a ele. Mas tudo ficou melhor quando vimos que se tratava de um cara que além de grande artista, também curte nosso trabalho.  Com isso ele conseguiu captar o que queríamos e teve toda liberdade para criar a parte visual de nosso Exílio.

RS: De quem foi a ideia de colocar o bandolim no rock?

MA: Nós sempre fomos abertos a novas sonoridades… e muitos dos artistas que admiramos já vêm fazendo essas inserções “inusitadas”, há anos. George Harrison inseriu sitar (instrumento musical indiano da família do alaúde) nas músicas dos Beatles. Dado Villa-Lobos colocou bandolim em algumas músicas da Legião Urbana. O Arcade Fire, banda do Canadá que curtimos muito, usa acordeom e violinos sem pestanejar. Nós gostamos do resultado dessas misturas.

RS: E ainda há experimentações com outros instrumentos…

MA: E essas experimentações se tornaram uma necessidade, com a saída do naipe de metais que fazia parte da banda (a trombonista Losha Buah e o saxofonista Marcos Valadares deixaram a banda em 2013 e 2014, respectivamente). Isso porque, com a saída desses instrumentos, ganhamos mais espaço nos arranjos das músicas, mas perdemos essa textura sonora que é muito característica no nosso primeiro disco. Durante as gravações de “Exílio’, algumas músicas deixaram espaço para experimentações. É o caso de “Teu Lar” [faixa 9] e “Mais uma vez” (faixa 4), que ganharam bandolim. Ficaram alguns “buracos” no arranjo e o Paulo (Veríssimo) sugeriu: “Vamos tentar um bandolim aqui?”. Coisa semelhante aconteceu com o acordeom que gravamos em “Contradições” (faixa 3). Acho que foi uma das últimas coisas que gravamos. A música estava pronta, eu estava com o acordeom no estúdio e falei algo como: “A gente podia fazer este ‘fraseado’ no acordeom”. Testamos, tanto o bandolim quanto o acordeom, e funcionou.

RS: João Suplicy volta a participar de um trabalho de vocês. A banda sempre esteve em contato com o artista ao longo desses anos?

MA: Na verdade, é a primeira vez que o João efetivamente grava um material com a gente. Anteriormente, havíamos feito alguns shows juntos no DF, em Goiânia e Anápolis. A parceria começou em 2013. Estávamos procurando uma banda para tocar no show de lançamento do clipe de “Deixa Acabar”. Já admirávamos o trabalho do João com o Brothers of Brazil e, então, fizemos contato. Fizemos este show juntos, em Taguatinga, e, desde então, mantivemos a parceria. Ele foi nos ver em um show que fizemos em São Paulo, em 2015. E, no segundo semestre do ano passado, fizemos alguns shows com ele. Aproveitamos a vinda dele e fizemos o convite para que ele participasse do disco. Ele já havia demonstrado apoio à campanha de financiamento coletivo que fizemos para viabilizar a gravação e sempre se mostrou muito aberto a esses intercâmbios musicais. O convite foi prontamente aceito. Ele gravou voz em “Velho eu” (faixa 8), porque achamos que o arranjo mais cadenciado da música e as notas longas do final de cada verso combinariam perfeitamente com a voz dele. No final de “Teu lar” (faixa 9), ele gravou um solo de violão que ganhou distorção, assemelhando-se a uma guitarra.

RS: Qual é a diferença da Distintos Filhos de 2011 para a banda atualmente?

IP: Acredito que a maturidade e a experiência, tanto musical, poética e de vida. Durante esse período, passamos por diversos momentos em que pudemos aprender e entender o nosso proposito como músicos e como seres humanos. Acredito que o “Exílio” traz esse pensamento com mais precisão.

Foto: Tayane Sampaio/Reprodução

Ouça “Exílio” na íntegra:

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Maíra de Deus Brito

11 de agosto de 2017