Um passeio pela Penha: o dia em que conheci Didico

Era um baile com amigos, funk e cerveja barata, ou seja, um evento imperdível. Didico deve ter pensado a mesma coisa

“O Adriano tava aqui agora mesmo, por pouco você não encontra ele”. Foi com essa frase que o DJ Byano me recebeu na minha primeira visita à Chatuba, a segunda favela mais famosa do Complexo da Penha. Se deixo em segundo lugar a sede do baile que chegou a ser considerado o “Maracanã do Funk”, é porque sua vizinha, Vila Cruzeiro, ganhou destaque ainda maior, graças ao filho mais famoso, consagrado Imperador na Itália. Desde que saí de Brasília rumo ao Rio de Janeiro para me embrenhar no mundo do funk, a Penha é um dos lugares que mais frequento. Grandes MCs e DJs nasceram ou ganharam prestígio ali.

Falar de Adriano Imperador é falar da Penha e falar da Penha é falar de festa. Recentemente meus orientadores, Carlos Palombini e Adriana Facina, contaram um pouco dessa história. Para o carioca da Zona Norte – de onde só se vê o Cristo Redentor de costas  –, a igreja Nossa Senhora da Penha é o principal monumento de referência. Ali, desde os idos de 1890, já ocorria um dos maiores festejos da cidade, frequentado anualmente por penitentes, fiéis e farristas de todo tipo. Em 1906, o poeta Olavo Bilac, indignado, chegou a descrever a festa como uma “bacanal católica”, que reunia “todos os baderneiros da cidade”. Esses “baderneiros”, é claro, eram negros em sua maioria, assim como são até hoje os moradores da região. Ao longo do século 20, a festa se tornou um reduto do samba. Há quem diga que o próprio Noel Rosa dedicou mais músicas à Penha que à Vila Isabel, sua terra natal. As críticas e as duras da polícia acompanhavam a festa tanto quanto o pandeiro e a cachaça.

O funk já vinha subindo o morro quando nasceu o menino Didico. Eu tinha 8 anos de idade no seu primeiro jogo pela seção brasileira, ele, 18. Nos anos seguintes, eu era mais um entre os tantos moleques que disputavam, nas peladas do Guará, o direito de ser o Adriano. Uma rápida pesquisa sobre seu nome no Google e as palavras talento, carreira, Imperador e artilheiro aparecem misturadas a baile funk, pagode, festa e Vila Cruzeiro. Os tabloides brasileiros enchem suas páginas de frases acusatórias. Na maioria das vezes, questionam como um jogador tão talentoso foi capaz de trocar uma carreira na Europa pela vida na Vila Cruzeiro. Deus perdoe essas pessoas ruins que não conhecem a Penha…

Há alguns meses, fui mais uma vez à Penha, dessa vez, acompanhado de Sofia, minha namorada. Praga, um compositor amigo meu – aliás, um dos maiores poetas desta cidade –, estava organizando um baile que iria reunir funkeiros da antiga com a geração atual. Amigos, funk e cerveja barata: um evento imperdível. Didico deve ter pensado a mesma coisa, pois, assim que chegamos na Penha, lá estava ele. Andando tranquilamente pela favela, sozinho, sem ser importunado. Nervosos, fomos pedir uma selfie, essa versão moderna e bem mais eficaz do autógrafo.

– “Com licença, desculpa te importunar, mas é que nós somos seus fãs”.

Nunca vou esquecer o sorriso que ele abriu ao cumprimentar a gente. Nos sentimos imediatamente acolhidos.

Não fomos direto para o baile. Antes, demos uma volta pela favela, comemos alguma coisa e tomamos umas cervejas. Ao chegar no evento, que não reuniu mais de 30 pessoas, lá estava ele junto a seis de seus amigos da favela. Tranquilo, tomava uma cerveja e ria bastante com seus companheiros . Facilmente, aquela cena tão corriqueira poderia ser lançada no Youtube, como mais um “flagra” de Adriano. Para a mídia corporativa, a favela é um lugar de contaminação. Muito se especulou sobre o “envolvimento” de Adriano com “o crime”. Argumento parecido foi usado para prender MCs de funk por “envolvimento com o tráfico”. Essas acusações, feitas especialmente por quem não conhece o cotidiano da favela, não fazem sentido. Em primeiro lugar, consideram todos os favelados como bandidos em potencial. Em segundo, esquecem que a categoria “bandido” só existe nos inquéritos policiais: para seus familiares e amigos, eles têm nomes, histórias, endereços, afetos. A imprensa, com os olhos cegos de preconceito, enxerga a favela apenas como lugar de miséria e crime. Por isso não entendem Didico, que a vê como ela realmente é. Em entrevista recente, ao lado de amigos da Vila Cruzeiro, ele explica emocionado: “Eu venho pra cá porque as pessoas que tão aqui sabem quem eu sou, aqui ninguém me trata como Imperador, todo mundo me trata como Adriano. Aqui eu me sinto realmente o Adriano. Aqui ninguém fala de dinheiro, ninguém fala de status”. Sentados em uma mesa esperando os MCs se apresentarem, somos surpreendidos:

– Vai uma pizza aí?” Era o Didico, em pessoa, nos oferecendo uma pizza tamanho família que ele tinha acabado de comprar. “Essa parte é frango com catupiry, essa outra é de presunto”.

“Não negueis o vosso favor, ó cara mãe, a este amoroso, embora indigno filho”, diz um trecho da oração à Nossa Senhora da Penha. Espero que ela atenda aos desejos do Adriano, esse filho tão amoroso e nada indigno.


Dennis Novaes

21 de setembro de 2017