Stranger Things Fortaleza

Medo e delírio na Fortaleza dos anos 1990.

Ilustração: Daniel Carvalho

 

A minha infância foi marcada por dois grandes medos:

(1) Elevador

Como sempre morei em casa, nunca me acostumei com o aplicativo elevador. Pra mim, as possibilidades de morrer dentro daquele sarcófago do mercado imobiliário eram infinitas: verticalmente guilhotinado na porta, sem ar, preso pra sempre, cabo se rompe e o bicho despenca no vazio, descer infinitamente até o inferno, o automático passo mortal para o fundo do fosso quando a porta se abre antes de ele chegar. Acho que o gatilho desse pânico foi uma propaganda da Companhia Energética do Ceará (COELCE), em que um garoto ficava preso num elevador porque a conta de luz não foi paga. Ele era igualzinho a mim! Enfim, não sei. O fato é que demorei muito tempo pra entrar sozinho em um, muito tempo mesmo. Tipo: eu entrei em outra pessoa antes de entrar sozinho num elevador.

(2) Juraci Magalhães

Travei contato com a figura de Juraci Magalhães pela primeira vez em 1996, durante a campanha para prefeito de Fortaleza. Na época eu era um analfabeto político, aliás, eu era analfabeto at all, mas mesmo não iniciado nas letras em que agora escrevo, já era fluente no esperanto da infância: o medo. O pânico diante do ex-prefeito nasceu porque, toda vez que começava a propaganda política de Juraci, meus pais bradavam de dedo em riste “Esse cara é um ladrão! Um bandido! Como é que alguém vota nele?”, e, na minha cabeça de menino, o que aqueles jovens adultos de trinta anos estavam dizendo era que Juraci Magalhães era um assaltante que entrava armado na casa das pessoas usando óculos espelhado, bermuda de tactel da Pena e camisa jeans sem manga desfiada nos ombros (essa camisa era tão tendência entre os marginais cearenses da década de 90 que acabou recebendo a alcunha de “jaqueta de malandro”, conceito que foi adotado pela própria Mesbla, loja onde esse manto do crime era vendido). Pra piorar, seu slogan de campanha era JURACI FAZ. Juraci faz, e ponto. Juraci faz o quê? Eu me perguntava, suando frio diante das infinitas possibilidades abertas por uma transitividade verbal que os marqueteiros não viram. Então era isso, pra mim, a qualquer momento, Juraci Magalhães podia entrar na minha casa e render minha família ou me abordar de bicicleta na rua perguntando “ô féi, que hora é essa aí?”. Juraci ganhou e depois se reelegeu.

Eis que chego ao ponto dramático do meu relato: 2004, oitavo e último ano do período jurássico magalhânico. Adolescente, fui pra casa de um amigo tocar guitarra. Não vou revelar quem é porque hoje ele é guitarrista de uma banda famosa. Na hora de ir embora, me despeço do bróder, ele entra em casa e me vejo naquele momento eternamente difícil: num hall, ensanduichado entre a porta de um apartamento e a de um elevador. Aperto o botão, espero o monstro chegar, ele chega, a porta se abre, e lá dentro está ele: Juraci Magalhães. Puta que pariu. Juraci Magalhães num elevador. A soma de todos os medos. Só depois fiquei sabendo que o irmão do prefeito morava no prédio. Fazer o quê? Entrei. Eram oito longos andares abaixo de nós. Eu e Juju Magal no abismo. Então os acontecimentos se precipitaram: a porta atrás de mim se fechou, olhei para o espelho, mas nele só vi o meu reflexo, tentei sair, mas todos os botões do elevador traziam o número 15. Tudo ficou escuro. Uma música de carrossel começou a tocar e ao fundo ecoava gordo e distorcido o jingle da campanha de 96 (Juraci FAZ! FAZ! FAZ!). Como um Hellraiser do PMDB, Juraci disse: “Vamos terminar isso como começamos. Esse é um jogo de prazer e dor. Prazer para mim, dor para você, e nós temos todo o tempo do mundo.” O cenobita Juraci abriu um sorriso diabólico e vi que sua língua era um pequeno Cambraia, o pau mandado que o antecedeu na prefeitura. Ele aproximou sua mão do meu coração, como se fosse arrancá-lo. Eu gritava e me debatia no canto do elevador, mas ele não parava nunca de descer. Quando a garra de Juraci estava quase encostando no meu peito, tudo ficou claro, o elevador chegou ao térreo, e eu estava sozinho, ensopado no chão de granito. Abri a porta, saí na calçada e vi passar um carro de som tocando o jingle da campanha do candidato do PC do B: “ô Inácio, ô Inácio, homi da luta do povo.” Senti uma ardência no peito. Desabotoei a camisa e no meu torso vi marcado o número 15 e as letras PMDB. Arde toda vez que entro num elevador.


Pedro de Menezes

14 de junho de 2017