RJ, mermo

Em 1997, eu rumava ao Rio de Janeiro, pra passar as férias do fim do ano com parte da família. Com Rio de Janeiro quero dizer Bangu, na zona oeste. Eu tinha 12 anos.

Arte: Daniel Carvalho

O moleque defelino, mediano, vamos combinar, às vezes carece de experiência de rua. O ano era 1997. Eu tentava me abaixar o máximo que conseguia, quase encostando no chão do corredor do ônibus da Itapemerim, pra poder ver o topo daquelas pedras altas pra cacete na margem da estrada. Já era a descida de Petrópolis, eu rumava ao Rio de Janeiro, pra passar as férias do fim do ano com parte da família. Com Rio de Janeiro quero dizer Bangu, na zona oeste. Eu tinha 12 anos.

Na rodoviária, desci do ônibus imaginando que aquele bafo era do motor.  Era gente e calor pra caralho. De longe, um bigodudo acenava pra minha tia. Pegamos a bagagem, fomos apresentados e partimos pela Avenida Brasil. Vidro abaixado, 100 por hora, e minha cabeça de garotinho de 12 anos, olhando aquele mar de morros cheios de casas, tão diferente do que é o DF. Aliás, esse mesmo tio bigodudo (virou meu tio ali, naquela rodoviária), quando esteve pela primeira vez pelas bandas do DF, proferiu a melhor definição da nossa geografia, quando olhava, da Ceilândia, a Samambaia, do outro lado:

– O cara grita filha da puta de lá, tu manda ele toma no cu daqui. Tudo plano, mané.

Era um sábado quente quando chegamos. Óbvio que era macarronada no almoço. Da melhor qualidade. Depois de devorar dois pratos, me ofendi a barriga. Garoto em fase de crescimento, mas sensível a parmesão, coitado. Fora o calor.

Todo mundo era tio e tia. Os de Brasília chegariam naquele dia no fim da tarde, de carro.  Fui de ônibus porque na Caravan do meu tio (esse era tio mesmo) não ia dar 5 pessoas no banco de trás. Vesti uma camiseta uma única vez, pra ir às Lojas Americanas, em São João de Meriti, gastar os 50 reais que ganhei pra torrar nas férias. 50 em 97.  Boné bordado no monte: Utah Jazz, Dodgers, Yankees. Sobrou um troco, comprei um carrinho pro meu irmão, que um primo de lá de 4 anos surrupiou, mas  surrupiei de volta, antes de voltar pra Brasília.

A casa era a última da rua, de esquina. No fundo da rua, nessa ordem, um campinho de terra onde aprendi a jogar descalço no terrão, uma vala pra onde a bola era despachada muitas vezes e a favela do Catiri. Mais ao fundo, compondo a paisagem, um morro grande e verde que viria a se tornar o lixão de Gericinó, do lado do Complexo Penitenciário. Todo dia era churrasco, piscina de plástico, clima de natal e ano-novo, calor do caralho, tio bêbado… Na madrugada do natal, cometi o pecado de dormir e fui penalizado com pasta de dente, mas me vinguei do tio filha da puta no ano-novo.

Lá aprendi também a soltar pipa, papagaio pra alguns. Quando voava lá pro Catiri, já era. Quando não, era moleque entrando na vala pra resgatar, pulando telhado de vizinho, quase morrendo atropelado.

Meu tio ia na favela do Catiri com um moleque de apelido Boiadero, que era morador de lá, pra comprar cabeção, foguete, aquele outro que tu acende, ele sobe chiando e explode lá no alto. Ano-novo, tem que soltar bomba. Esse tio quase matou minha vó de infarto porque uma “bombinha” caiu dentro do quintal. E se fodeu: um cabeção falhou, ele foi colocar a pólvora num monte, botou uma pedra, jogou uma maior em cima, explodiu pedra na cara dele, esfolou os beiços.  Não brincou mais.

Esse tio que esfolou o beiço me levou pra assistir a final do campeonato brasileiro na casa de uns amigos dele. Palmeiras e Vasco da Gama. Eu, palmeirense (comecei a ver futebol em 93, não tenho nem que me explicar), e ele e o churrasco inteiro, vascaínos. Quintal, cerveja, churrasqueira de banda de tonel, TV de 22 polegadas, pagode em prato e balde, e uma certeza festeira de que o Vasco seria campeão. Meu tio não teve de pagar a parte da cerveja porque ele me levou… Pô: era o único palmeirense da Seropédica até São Cristóvão pra ser sacaneado. Bagunçaram comigo e com outro cara lá flamenguista, mas de um jeito amigo. O pouco que me lembro – porque ser sacaneado, mesmo amigavelmente, perturba o juízo, além de que não houve nenhum gol nesse jogo, que é a apoteose da nossa alma brasileira – foi que não teve jeito: não teve Euler, o filho do vento, que superasse Edmundo, o animal, que foi expulso no primeiro jogo e conseguiu ser absolvido para jogar a final. Os saudosos anos 90 do futebol brasileiro.

Fomos a um sítio, na região de Guaratiba, desses que você paga pra entrar, com piscina natural, tobogã, bem parecido com os nossos costumes brasilienses dos anos 90. Longe de Bangu que nem Copacabana, mas sossegado, sem perigo do mar te levar embora.

Digo isso porque sim, fomos a Copacabana uma vez, que não nos recebeu bem. Foi sentar na areia que o mar, de ressaca, assim como meus tios, levou canga, chinelo, isopor. Um deus nos acuda. No desespero de salvar as coisas, derrubamos a farofa de frango. Rimos muito mais que lastimamos. Bem como deveria ser toda memória de quando moleque. Ensolarada e sorridente, qual pipa no céu.


Paulo Victor Silva Pacheco

25 de julho de 2017