Sobre livros e histórias, mentiras e memórias

A conversa de um escritor com sua cabeça

Foto:  / Reprodução

Escrever é um desafio. Do nada surge uma ideia. Nasce pequena e numa velocidade imensa vai crescendo, crescendo, crescendo, até parecer não caber mais na redoma frágil que a prende. Ali, ela vai se anarquizando, se revirando, se chocando contra os fragmentos de outras palavras e pensamentos que surgem espontaneamente. Você tenta ignorar, mas é impossível. A ideia já está lá. E logo, já não suporta mais ficar apenas lá. É preciso estourar a redoma e se espalhar mundo afora. Mesmo que você não queira, ela quer. Você não manda em nada. Acha que é dono do pensamento, mas você não passa de um recipiente e está à mercê do que a ideia quiser. Da ideia pode surgir uma história, se ela assim quiser. Pode brotar um poema, um romance, uma música, uma novela. É ela quem dá as cartas. Você só tem que desembaralhar tudo aquilo que saiu depois que a redoma explodiu. Daí você alinha as cartas. Coloca uma ao lado da outra milimetricamente, tentando seguir uma lógica. Suspira, quase aliviado, porque acha que encontrou o caminho, que acertou na ordem das coisas. Mas aí percebe que nada tem que estar em ordem. Então você espalha com fúria as cartas postas à sua frente. Não é nada disso que aí está. Não é nada disso que a ideia quer. Tente novamente, encontre a nova ordem. Ou a nova desordem das coisas.

            – Caramba, acho que não vou conseguir!

            – Claro que vai.

            – Quem está aí?

            – Sou eu.

            – Eu? Eu não. Eu estou aqui. Bem aqui diante da folha branca.

            – Não. Diante da folha branca, que na verdade é uma tela de computador, estou eu, sua cabeça de…

            – Folha branca é só uma forma de dizer, imbecil.

            – Calma. Por que tanta raiva?

            – Porque eu estou falando com não sei quem ou não sei o quê.

            – Eu sei de tudo que está acontecendo. Eu sou a sua cabeça.

            – Puta que pariu! Pirei de vez.

            – Ainda não.

            – Vou ignorar você.

            – Impossível. Estamos intimamente ligados. Você não conseguiria viver sem a minha presença.

            – Posso tentar.

            – Pode. Mas eu sei que não conseguirá. Então é melhor se conformar.

         – Se você me conhece assim tão bem, já sabe que o conformismo não é comigo. Posso até não agir, mas me conformar, não. Se não gosto, não quero, não concordo, dificilmente aceito. E se aceito, ainda assim não me conformo.

            – Muito bem. Você está se posicionando. Sinto-me orgulhosa.

            – Não me interessa o que você sente ou acha. Não estou aqui para te satisfazer. Na verdade, nem gosto muito da sua presença. Você está sempre me dizendo o que fazer, o que é certo, o que é errado. Que devo ir por ali, não por aqui. Que devo balancear as coisas, que tal pensamento não condiz com a minha formação. Que os outros vão pensar que sou estranho. Formação é o caralho! Fui formado por uma sequência de horas, dias e noites que se apossaram de mim. Tive que aprender a me posicionar para não ser pisoteado pelos pés da multidão. Sim, os dias e as horas foram se aglomerando como uma multidão que vai chegando para ver um grande concerto de rock.

            – Por que um concerto de rock? Não poderia ser a multidão de um grande show sertanejo? Você é muito elitizado. Quer ser cult, quer ser cool.

            – Ora, cabeça. Vai você tomar no cool! A multidão do sertanejo não tem nada a ver comigo. O rock é inconformado, assim como eu. Entra no jogo, mas não aceita o jogo. O jogo tem regras e regras são opressoras. E os oprimidos são fodidos.

            – O rock já era. Está com os dias contados.

          – Ouço essa tolice já faz um tempo. Concordo que as bandinhas de hoje perderam a essência do bom e velho rock’n’roll, mas dizer que o rock já era é uma grande besteira. O mundo mudou, as pessoas mudaram, os valores mudaram e as bandas também mudaram. É inevitável, mas eu gosto mais do rock que se fazia nos anos sessenta e setenta.

            – Você é muito conservador e está fugindo do assunto. Não perca a linha do pensamento.

           – Não quero linha. Não preciso de linha me segurando ou me guiando. Quero ser como uma pipa que se liberta da linha e sai sem rumo levada pelo vento, girando sem nexo, se enrolando na rabiola, mas feliz com a ilusória liberdade, mesmo sabendo que uma hora vai cair. Melhor cair do que ficar preso feito um boneco nas mãos do titereiro. Mas, concordo com você. Tenho que me concentrar no texto.

            – O que é mesmo que você tem que escrever?

          – Um texto para uma revista. Devo falar um pouco sobre minha literatura infantil. Mas não estou muito afim de falar sobre isso.

         – Ora, fale sobre o processo criativo. As pessoas gostam de saber como nasce uma ideia. Mergulhe nas suas lembranças. Tem um monte de coisas legais para você falar. Se quiser, posso te levar até seu armário de memórias infantis. Você retira algo, coloca umas palavras sensíveis e bonitinhas e faz um texto que as pessoas amem.

        – Não quero que as pessoas amem meus textos. E esse negócio de literatura infantil é só mais um rótulo. Literatura é literatura. Existe aquela que as crianças gostam e aquelas que as crianças não entenderão. Mas meus textos são para quem quiser ler. A criança vai achar divertido e os adultos vão achar lindinho, como se fosse um mergulho nas lembranças da própria infância.

            – Você é quem sabe. Posso sugerir outro tema?

            – Adianta se eu disser que não?

            – Não.

            – Então diga lá.

            – Fale sobre a atual situação política do país. Sobre o caos social que está sendo descortinado a cada dia.

            – Não. Esse assunto já está saturado. Tudo o que eu disser vai gerar uma enxurrada de teorias. Todo mundo se acha um cientista político. Vomitam soluções nas redes sociais e pensam que estão fazendo algo, que estão tomando alguma atitude. Depois voltam para sua realidade burguesa e sorriem com estilo na mesa de um café sofisticado.

            – Fale de futebol.

            – Fora de cogitação. Sou vascaíno. Melhor não dizer nada.

            – Concordo com você. Fale sobre a crise dos imigrantes na Europa.

           – Não tenho o conhecimento necessário para isso. O que sei é o que vejo na mídia tendenciosa. Só quem está no olho do furacão tem conhecimento suficiente para dizer algo com convicção. Minhas palavras podem parecer superficiais e, na verdade, serão.

           – Fale sobre religião. Sobre a intolerância que existe mundo afora.

          – Acho todos muito perdidos. Futebol, religião e política são assuntos que me cansam. Não gosto dessa coisa de tentar mudar o pensamento das pessoas. Se a pessoa encontra paz dialogando com Buda, Jesus, Maomé, Krishna, Ogum, o escroto daquele bispo evangélico ou nenhum deles, que faça suas orações e deixe os outros em paz. Cada um tem sua linha de comunicação com o que está além da compreensão. Não gosto de quem tenta doutrinar os outros se apoderando da fraqueza e do medo de cada um.

       – Me parece que você está fugindo da realidade. A realidade é crua, dura, chata, preconceituosa, violenta, doentia. Você vai ter que aceitar. Não adianta se isolar no seu mundinho.

            – Você já está me cansando.

          – Você também me cansa. Parece um menino mimado que super valoriza a dor de um cortezinho no dedinho mindinho. Fica só no “Ai, mamãe, está sangrando. Me ajuda. Dá um beijinho que sara”. Tolice, menininho. Encara o desafio de frente. Dê a cara a tapa. Não foi você quem quis ser escritor?

          – Eu nunca desejei ser escritor. A coisa foi acontecendo naturalmente. Sei que sempre fui criativo. Ao menos era isso que as pessoas falavam. Acabei acreditando e dei um jeito de transformar minhas lembranças em histórias. Também gostei da liberdade de mentir dentro de um texto e não ter ninguém para julgar ou contestar minhas mentiras. Ser escritor é um acidente de percurso. De certa forma, no princípio, me pareceu uma libertação. Na escrita, acreditei que poderia dizer tudo da maneira que quisesse. Mas, no decorrer do percurso, fui descobrindo que existe um monte de regras. E, mais uma vez, afirmo que não gosto de regras, embora siga muitas delas para viver bem com a sociedade. Essa coisa de definir um estilo literário, de respeitar um formato estabelecido por acadêmicos me parece um tanto castradora. Imagino quantos autores bons deixam de escrever coisas geniais simplesmente pelo fato de não se enquadrarem ao que o sistema avalia, critica, decreta. Eu mesmo deixei de escrever muita coisa durante o tempo em que me achava despreparado academicamente. Coisas boas que se foram e nunca mais voltarão.

            – Essas coisas que você considera perdidas ainda estão aqui comigo. Você só precisa saber como encontrá-las nos arquivos de memória.

            – Não quero procurá-las. O que chegou e não ficou não merece meu tempo e meu esforço para reencontrá-las.

            – Na verdade, acho que você tem é uma grande preguiça de fazer o que deve ser feito.

            – Tenho sim. O que passou, passou. E, no mais, não gosto dessa coisa de ficar remoendo um texto, revirando, lapidando, lustrando. O que eu mais gosto é da primeira escrita. Essa sim é real, é visceral. É o texto verdadeiro, assim como somos nós no momento em que nascemos. O primeiro texto é sujo de sangue, de placenta, de dor, de mau cheiro, de verdade. A gente chora para que ele nasça. É um esforço tremendo, mas quando sai, já está pronto. É real, está no papel. Nasceu, sem nenhum glamour, sem  pudor, sem firulas. O que vem depois é pura vaidade. É como dar um banho no bebê para tirar toda aquela verdade e depois camuflar com talquinho, perfuminho e roupinhas bonitinhas. Isso tudo me soa falso.

            – Ainda acho que você não faz mais pelo seu texto por pura preguiça.

          – Lá vem você de novo com suas teorias. Estou ficando de saco cheio dessa conversa. Preciso sair daqui. Sua companhia me cansa muito. Você parece um mundo de interrogações. Que coisa chata. Preciso de uns goles e uns tragos. Vou para o bar. Já sei sobre o que vou escrever.

            – Oba. Bora lá.

            – Você vem também?

            – Claro. Tamo junto, sempre.  Sobre o que você vai escrever?

            – Sobre livros e histórias, mentiras e memórias.

            – Uau! Isso ficou bom. Só quero ver o que vai sair de mim!

            – Fica quieta que eu consigo. Garçom, uma cerveja e uma pinga, por favor.

            – Uma cerveja, antes do texto, é muito bom pra ficar pensando melhor.

            – Caramba, cabeça. Deixa o Chico Science em paz. E esse trocadilho ficou muito fraquinho.

          – Relaxa, cara. Vamos beber. Vamos ficar só observando o mundo à sua volta. Aqui tem um monte de porta-retratos para você se inspirar. Olha só aquele casal. Dá pra criar um romance olhando para a felicidade deles.

            – Prefiro algo mais trágico. Belas histórias de amor só acontecem nos contos de fadas.

            – E o que você acha daquele cara solitário naquela mesa?

            – Acho um escroto. Não fui com a cara dele. Está claro que é uma postura falsa. Está querendo tirar uma onda de Henry Chinaski.

           – Você poderia falar sobre o cozinheiro que gosta de dar uma sacaneada nos pratos dos clientes só para difamar o restaurante que ele trabalha, mas que tanto odeia.

            – Cala a boca, cabeça. Garçom, mais uma cerveja e outra cachaça, por favor.

            – Você acha que aquelas duas meninas se amam, mas ainda não se deram conta disso?

            – Não acho nada e isso não é da minha conta.

        – Então fala daquele cara atravessando a rua depressa. Ele parece aflito para chegar em casa. Acho que desconfia que a esposa o está traindo com o entregador de gás e quer pegar os dois no flagra.

            – Isso é fofoca, cabeça. Você já está me torrando a paciência. Que horas você vai embora?

            – Nunquinha, meu querido. Eu sou você e você sou eu. Estamos conectados até o fim.

            – Dessa vez, tenho que concordar com você. Estamos condenados a ficar juntos até que a morte nos separe. É por isso que eu bebo.

            – Sim. E você já está ficando bêbado. Acho bom parar. Se der mais um gole, vai acabar perdendo a cabeça. Escuta o que eu digo.

            – Escutei muito bem. Obrigado pela dica. Garçom, traz mais duas, por favor.

            – Pare com isso! Pare com isso agora!

            – Fui. Tchau, cabeça…


Marco Miranda

26 de setembro de 2017