O solo fértil da capital

Ainda que jovem enquanto cidade, Brasília abriga uma produção literária forte e consistente, que amplia seus horizontes ao redor do país

Foto: Nanah Vieira/Revista Seca

Entre as linhas curvas e o concreto florido que marcam os limites da cidade, surge o espaço ideal para uma consistente produção literária. Brasília é rodeada por amplos horizontes e marcada pelos silêncios espaçosos, destacando a vocação urbana para contemplar o tempo e dar vazão a novas ideias. É nesse cenário que crescem alguns dos talentosos escritores contemporâneos responsáveis por fazer o nome da importante capital, com ares de cidade pequena, circular entre os maiores prêmios literários do país. Entre poesias, crônicas, contos e romances, os nomes se destacam e atraem um olhar mais atento e apurado para a criação que desponta no pequeno quadrado que marca o centro do país.

É o caso da juventude energética de Beatriz Leal (que venceu o Prêmio Josué Guimarães em 2017 e foi finalista do Jabuti em 2016) ou da inovação corajosa de Maurício da Almeida (que venceu o Prêmio Sesc com seus contos em 2007 e o Prêmio São Paulo como estreante com menos de 40 anos em 2017); da consistência bem trabalhada por José Almeida Júnior (ganhador do Sesc de melhor romance deste ano); das palavras rápidas e eficientes de Paulliny Gualberto Tort (semifinalista do Prêmio Oceanos) e ainda da eficiência do fraseado de Ana Maria Prestes Rabelo (finalista do Prêmio Rubem Braga em 2017). Há quem chegue com a pulsão literária dos jovens e a vontade de trabalhar para fazer a literatura crescer, como Danilo Oliveira e Vitor Camargo de Melo, ambos finalistas do Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis 2017 e editores da revista Seca, que busca unir a comunicação eficaz e o encanto da literatura entre as páginas.

Foto: Nanah Vieira/Revista Seca

É nesse contexto que se insere a produção de Beatriz Leal Craveiro, que nasceu em São Paulo, em 1985, e chegou a Brasília em 2004. Autora do romance Mulheres que mordem, lançou-se timidamente no meio literário e logo viu seu primeiro livro figurar entre os finalistas do maior prêmio do país. Adepta da linguagem ágil, Beatriz conseguiu contar de maneira clara, e a partir de diferentes pontos de vista, o drama de mulheres que perderam seus filhos na ditadura da Argentina. O romance foi porta de entrada para o impulso criativo, que rendeu a participação na coletânea Novena para pecar em paz, que reúne nove contos brasilienses escritos por nove mulheres, destrinchando um pouco do rico emaranhado de experiências e olhares femininos.

Esperançosa com a produção local, Beatriz conta sentir orgulho da cultura que circula continuamente em Brasília e dos moradores que se empenham em conhecer o que se cria na terra natal.

Figura constante em feiras independentes, eventos e clubes literários, a paulista acredita que novas iniciativas, como a Movida Literária, Feira Dente, Outra Margem e Motim, ajudem a impulsionar diretamente o mercado literário na capital, que amplia seus horizontes a cada ano.

Para ela, a possibilidade de diálogo é um ponto essencial para a escrita. “Acho que isso é inerente ao escritor que quer chegar ao leitor: ele quer dizer algo e quer que o outro receba e interprete. Com o Mulheres, o diálogo foi mais no sentido de tentarmos entender as vidas que explicitamente carregam a barbárie da história do mundo, da civilização, da política, do poder. Meu ponto de partida foi esse. Mas, no fim, ele comunicou e dialogou mais do que isso”, destaca. Enquanto isso, Beatriz se consolida como um dos fortes nomes da nova geração de autoras que produzem em Brasília e lembra a necessidade de discutir a inserção das mulheres na pauta literária, não apenas no mercado, mas na cultura de leitura.

Para Maurício de Almeida, autor de Beijando Dentes e A instrução da noite, a cadeia do livro ainda é extensa e custosa para autores contemporâneos brasileiros. Ainda que o mercado do livro esteja desenvolvido no país, a circulação de autores e obras produzidas ainda precisa de impulso. Em relação ao mercado brasiliense, Maurício acredita que uma nova movimentação dos próprios escritores tem ajudado no crescimento da produção em qualidade, quantidade e profissionalismo. “Apesar dos poucos eventos literários e da quase inexistência de editoras, os autores brasilienses e radicados em Brasília estão buscando outros caminhos para a literatura produzida na cidade. Participação em prêmios literários nacionais é uma forma de extrapolar os limites geográficos e encontrar um caminho ao campo literário nacional”, destaca o contista e romancista.

Narrativas de transformação

Questionado sobre a possibilidade de transformação criada pela literatura, Maurício acredita que um possível hábito literário da população poderia evitar que qualquer “narrativa” social seja emplacada para justificar desmandos. A literatura aparece como espaço de formação para cidadãos mais esclarecidos e capazes de leituras sociais complexas, menos afeitos a discursos ou soluções imediatistas. Sem ressalvas, o autor pondera:

“A literatura pode ser, sim, um grande instrumento de luta, que implicará transformações. E acredito nisso por acreditar no tipo de literatura que transforma o leitor por trazer à tona questões importantes, cruciais à própria razão de ser da humanidade. Ernesto Sábato, em O escritor e seus fantasmas é pontual ao citar editor e crítico francês Maurice Nadeau: ‘Maurice Nadeau afirma que um romance que deixe tal como era o escritor e o leitor é um romance inútil. É verdade. Quando terminamos de ler O Processo, não somos a mesma pessoa de antes’”.

Foto: Sylvana Lobo/Reprodução

Sua porta de entrada no mercado literário veio justamente pela vitória no Prêmio Sesc, que possibilitou que sua primeira obra fosse publicada por uma grande editora (Record) e que seu nome circulasse em diferentes eventos literários ao redor do país. Seus livros partem de questões que lhe interessam pessoalmente, como a dificuldade de comunicação entre as pessoas e as consequências de uma total impossibilidade de um sujeito. Seu diálogo centra-se nos grandes desdobramentos daquilo que é cotidiano. Para ele, a literatura é um espaço de liberdade e seu único compromisso é para com o texto no qual trabalha. “Permaneço inegociavelmente comprometido com as demandas do texto, os desafios que ele me coloca, as soluções que proporciona”.

Outro ponto de destaque para a criação de suas páginas com narrativas eficientes e inovadoras é o respeito ao tempo da própria palavra. Para Maurício, um livro (ou conto, ou poema) só deve ser publicado se estiver pronto. Isto é, o autor deve respeitar exclusivamente as demandas do tempo, ignorando o máximo possível quaisquer outras demandas. A qualidade do trabalho resulta do comprometimento com essa premissa.

Motivado pela mesma vontade de abordar temas importantes, Vitor Camargo de Melo lembra que o trabalho de disciplina de cada autor representa grande parte da obra, dando consistência aos impulsos criativos. Para ser um bom escritor, Vitor destaca a importância da fórmula antiga: contar boas histórias de maneira inteligente, inteligível e sensível. Na criação de um bom texto, permanece a preocupação pela qualidade na estrutura, além da capacidade de contemplar as angústias que surgem em cada momento específico. O diálogo com o público surge justamente a partir da conexão que o possível leitor estabelece com angústias análogas ou parecidas, ou completamente diferentes, mas com interesse e sensibilidade para pensar a partir de outros olhares.

Foto: Nanah Vieira/Reprodução

Vitor se prepara para a publicação de suas próximas obras enquanto edita esta revista, um promissor espaço para o diálogo literário na cidade. Para ele, a produção brasiliense cresceu em suas empreitadas e projetos e, atualmente, a cena local se faz notar com mais contundência. “Há muito espaço de construção acessível e boas oportunidades para trabalhar junto. Não há muitas maneiras diferentes de se qualificar para a escrita, é importante continuar a fazer o essencial: estudo, treino, experimento”.

Enquanto isso, José Almeida Júnior trabalhou firme para ver seu livro publicado por uma grande editora e levou o Prêmio Sesc de 2017. O autor lembra que o espaço para obras nacionais ainda é tímido e cada passo adiante é tido como conquista. Projetos como a Movida Literária e a Jornada Literária aparecem como importantes contribuições para a profissionalização do mercado de livros na cidade. O diálogo com o leitor ganha destaque durante os instantes de inspiração. “Quando escrevo, preciso pensar em quem vai reservar algumas horas para ler meu livro. Isso passa por escrever numa linguagem acessível, construir personagens complexos e um enredo instigante”.

Motivo de curiosidade para muitos leitores, José fala de seu processo criativo e da necessidade de ser metódico para a construção de seu gênero, o romance histórico. Nesse caso, a pesquisa e a checagem de datas são fundamentais, além da busca por fatos históricos relevantes e pitorescos. “Passo alguns meses pesquisando, separando material, fazendo roteiro e tentando encaixar ficção e realidade. Só depois inicio propriamente a escrita”, destaca. Mas os personagens parecem ganhar vida própria e, por vezes, tomam rumo diverso daquele inicialmente planejado.

Foto: Kenia Ribeiro/Reprodução

Em comum, ganha ênfase o fato de que o caminho é árduo para aqueles que pretendem transformar uma boa ideia em um livro de qualidade, com espaço entre prateleiras e livrarias. O mercado literário caminha a passos tímidos no país e as publicações internacionais ainda aparecem com mais destaque. Ainda assim, a paixão pela escrita, a necessidade de dialogar pelas páginas e a crença em toda possibilidade que se desprende a partir de uma nova leitura fazem permanecer vivo o mercado literário e o empenho de seus autores. A literatura aparece aqui não enquanto objeto ou fim, mas como um prazeroso caminho de expansão a ser percorrido calmamente e sem tréguas.


Isabella de Andrade

29 de dezembro de 2017