O conto Diminuto

A escritora Déborah Gouthier conta a trajetória de seu app de minicontos para celular

Foto: Vitor Camargo de Melo / Revista Seca

A geração de novos adultos, que passa hoje pelos trinta e poucos, é quase um dique. Guarda, de um lado, o ritmo pausado dos mais antigos e, do outro, enfrenta as chicotadas do mar revolto da Geração Z. Com isso, temos vergonha da inabilidade de nossos pais em compreender os protocolos das redes sociais, mas ao mesmo tempo não estamos assim tão à vontade com o vocabulário que busca “upar”, “dropar” ou acumular “XP”. Se não nos confundimos ao topamos por acaso com um telefone de disco ou uma vídeo-locadora, muitos ainda se embananam até com o touchscreen.

Nós tivemos blogs, Fotologs, Orkut e Facebook. Sim, você entendeu certo: Facebook não é coisa da nova geração, é coisa de velho. Nós hoje lemos tanto livros de papel quanto em e-book readers, celulares e telas de computador.

Déborah Gouthier é escritora. É também jornalista e mestra em preservação do patrimônio cultural pelo Iphan, onde trabalha hoje, em Brasília, vinda de Goiânia há pouco tempo. No mezanino do Ernesto Café, Déborah trocou uma ideia sobre isso com a gente e deixou logo claro que não é daquelas escritoras puristas que veem a internet acabando com a literatura. Pelo contrário. Para ela, se bem utilizadas, as novas tecnologias são aliadas indispensáveis.

“Por que não ter literatura no Instagram? A gente precisa se adaptar e entender que isso não está atrapalhando a “grande literatura”. É o contrário, é uma ponte. A chance que eu tenho de alcançar uma geração mais jovem que a minha por meio do meu Instagram é muito maior que colocando um livro pra vender na livraria.”

Foto: Acervo Diminuto

Diminuto

A escritora é idealizadora de um projeto de sucesso nesse sentido. O Diminuto é um aplicativo de minicontos em que os usuários podem ler à vontade, mas, principalmente, podem publicar seus próprios trabalhos. Fruto de trabalho duro de Déborah e seus dois sócios, Lucas e Isabella, o aplicativo fornece a possibilidade não apenas de uma leitura rápida e prazerosa, mas também do desenvolvimento da escrita. A curadoria democrática garante que o conteúdo seja aproveitado por qualquer perfil de leitor.

“Tem gente escrevendo em todos os estilos. Tem conto erótico, e conto de terror, e conto de piadinha. Vai ter algum que vai te fisgar ali. Eu não acho que existe alguém que passa completamente ileso à literatura.”

O aplicativo nasceu da angustia de Déborah em buscar a melhor forma de publicar seus textos, desassossego que todo escritor conhece, ainda que em variados graus.

“Eu sempre escrevi, mas sempre tive muitos bloqueios com o olhar do outro para com a minha escrita. Como toda adolescente da minha geração, eu tive um blog. E tive alguns retornos muito bonitos com esse blog, mas também algumas reações tensas. Como a do meu ex-namorado, que ficava um pouco receoso. Acho que ele se sentia um pouco exposto, naquilo que eu dizia ali. E tinha razão [risos]. Enfim, depois de um tempo eu travei, deixei o blog para lá e fiquei muito tempo guardando meus escritos na gaveta. O tempo passou, veio a faculdade de jornalismo. E um dia eu pensei que queria, sim, publicar. Mas em um outro formato, que eu não sabia qual. Aí, numa troca muito bonita com esse mesmo ex-namorado (ele é da TI, é engenheiro de computação, muito bom programador), surgiu a ideia de fazer um aplicativo. Mas pô, fazer um aplicativo de contos meus? Que egocentrismo. Não. Então foi vindo a ideia de convidar amigos escritores.”

E a tecnologia foi uma aliada desde o princípio da ideia.

“A gente começou a perceber essas questões das novas tecnologias, que o consumo da literatura por essa nova geração tem muito a ver com o computador. Tem uma coisa muito minha, também, de sempre andar com um livro debaixo do braço, e essa coisa é facilmente transferida para um Kindle, para um celular. Eu sou daquelas pessoas que estão o tempo inteiro no celular. E eu estou sempre lendo. Eu consumo muita literatura em meios digitais.”

E por que desenvolver um aplicativo de minicontos, e não de outros gêneros?, eu pergunto.

“A gente queria que fosse uma leitura rápida. A gente queria que o conto coubesse na tela do celular, por isso os 750 caracteres de limite. A ideia era que você usasse o aplicativo enquanto estivesse na fila do banco, ou esperando pra ser atendido no médico e, em vez de jogar Candy Crush, você pode ler. Você tá carregando seu celular de qualquer forma mesmo. Não precisa do livrão debaixo do braço.”

Assim, partindo da ideia, o próximo passo era buscar parceria com gente que pudesse também colocar a mão na massa.

“Eu e o Lucas apresentamos a ideia que a gente estava desenvolvendo para a minha irmã, Isabella, que é designer gráfica. Aí ela desconstruiu tudo! [Risos] Papo de designer. ‘Nada a ver isso aí, não funciona’, deu uma esculachada na gente. Aí resolvemos, os três, fazer o negócio direito. Isso foi 2013, 2014. Foi quando a gente começou a produzir de fato. A gente desenhou todo o projeto do aplicativo, o que a gente queria que ele tivesse, o que a gente não queria, de jeito nenhum que ele tivesse. Por exemplo, a gente não queria anúncio. Naquele tempo, a gente trabalhava em um coworking, então era uma galera muito da startup, vamos monetizar tudo. E a gente não queria que a pessoa estivesse lendo e aparecesse um anúncio da Saraiva na cara dela.”

Todo mundo que já se meteu a inventar alguma coisa se deparou, muito provavelmente, com um nó comum a desatar. A falta de capital inicial. Não se tira do zero um projeto sem movimentar uma quantia de dinheiro que, às vezes, pode ser intimidadora. Às vezes o Estado é um parceiro importante para empreendimentos que estão começando. Pasmem, neoliberais de plantão.

“Rolou o edital do Fundo de Arte e Cultura de Goiás, que estava na sua primeira edição. A gente achou que não custava nada tentar e mandamos o projeto. Na época, eu tive o feedback de um amigo meu, que estava na comissão julgadora, e ele falou ‘Déborah, o projeto de vocês é lindo, mas eu não sei se vai rolar, porque é um projeto de tecnologia. Eu não sei se os pareceristas vão conseguir fazer essa ponte com clareza.’ Tanto é que a gente acabou entrando em uma categoria bem genérica, que era ‘Goiânia e Região Metropolitana’. A gente passou, foi uma surpresa. Quando a grana entrou, a gente arrasou. Saímos, loucos, fazendo tudo o que a gente queria fazer. Contratamos gente para fazer ilustração, gente para ajudar na divulgação na época, um produtor, que fez toda a parte chata e burocrática. Então, nesse primeiro momento, a gente de fato conseguiu desenvolver com muita propriedade, porque teve esse recurso entrando. O Diminuto foi pro ar em setembro de 2014.”

Os momentos antes da estreia são sempre de agitação, trabalho intenso à base da inspiração do último minuto e, claro, insegurança. Não estamos falando da seleção na Copa do Mundo.

“Eu tinha certeza que não ia dar certo. Eu ficava ‘Gente, vai ter só eu aí nessa parada’ [risos]. E nessa reta final de produção, era muito a Isabella e o Lucas, porque era programação. Eles ficavam lá horas, desenvolvendo. Eu resolvi escrever loucamente, porque, se ninguém escrever, eu coloco meus contos lá, com um monte de pseudônimo, e as pessoas vão achar que o aplicativo tá bombando. Eu virei a louca do miniconto. Escrevi centenas.”

Como eu já havia usado o aplicativo, sabia que não estava tão cheio assim de contos da Déborah. E mesmo que ela tivesse tido tempo de criar tantos pseudônimos, escrever com todos aqueles estilos e marcações diferentes só seria possível se estivéssemos diante de um caso de múltiplas personalidades. Perguntei então de onde vieram tantos autores.

“Não sei. Mesmo. O lançamento foi uma surpresa linda, porque eu guardei todas as minhas centenas de contos no bolso, né. A gente foi fazendo um pré: redes sociais, anunciava, dizia que estava chegando. E aí a rede de amigos é fantástica. O próprio Fundo de Cultura começou a falar da gente, porque era um projeto que eles financiaram e deu certo. E, na época, eu consegui uma atenção muito boa de imprensa, porque, né, é a minha praia. Todos os jornais de Goiás deram. A gente conseguiu matéria de capa de um jornal de Fortaleza! Chamamos essa rede de amigos pra fazer as primeiras publicações, para não lançar um aplicativo vazio. Então eram, sei lá, uns dez contos meus, mais alguns de amigos. A verdade é que a coisa foi acontecendo de um jeito que a gente não viu. Foi dando muito certo.”

Foto: Acervo Diminuto

Outro nó que é comum ter que desatar quando se inventa alguma coisa é conciliar o trabalho de administrar e manter essa invenção, enquanto a vida urge, cobra contas e apresenta oportunidades. Para as três cabeças por trás do Diminuto, não foi diferente. Déborah começou o mestrado, Lucas foi contratado por uma empresa estrangeira e Isabela foi morar em São Paulo. Era cada vez mais difícil manter o pique com o aplicativo, mas, vez em quando, o esforço compensava com uma boa história.

“O Diminuto era uma coisa muito maior. Ele nasceu de uma ideia muito besta e foi se tornando um sonho muito grande, que tinha a ver com essa coisa da educação. A gente queria levar o Diminuto para as escolas. A gente queria viver do Diminuto, de fato, pensando por esse lado da educação, e não pelo anuncio, por monetizar, da galera da startup. Mas falando de tecnologia e literatura, fazendo palestras. Mas não conseguimos seguir essa rota. Muito porque a gente se embananou. Mas teve isso de forma espontânea, em alguns momentos muito legais. Teve um caso de um conto que foi reprovado e, alguns dias depois, a gente recebeu uma resposta ao e-mail automático, da autora do conto, questionando o motivo. Eu sempre fiz muita questão desse contato com o usuário. Respondi a menina, explicando o que tinha acontecido, e acabou que a gente trocou vários e-mails e eu fui fazendo um passo a passo com ela, do fazer literário. Ela, depois de trocar algumas ideias, mandou o conto de novo, o conto foi aprovado e a vida seguiu. Um mês depois, chega um outro e-mail, de um cara se apresentando como professor de uma escola do interior da Paraíba, que era professor dessa menina. E ele estava usando o Diminuto em sala de aula, como ferramenta para ensinar literatura na aula de redação. Ele falou que ‘os alunos piraram, começaram a escrever, e teve essa aluna, especificamente, que vocês deram uma aula pra ela, e ela está amando, se a achando a escritora, querendo escrever um monte de coisas, e eu queria agradecer a você’. Eu só choro com essa história.”

Com todas as dificuldades que se impõem, o aplicativo tem seu prazo de validade muito próximo. No mês de julho de 2018, o Diminuto sairá do ar definitivamente.

“É um projeto que tem muito custo. É o custo de deixar isso no ar, é o custo de manutenção. É um monte de coisinha que você não faz ideia. Eu, por exemplo, que não entendo nada de aplicativo, quando a gente foi fazer conta de que ia ter gasto mensal, um monte de renovação anual. E o dinheiro só entrou lá no começo. Hoje em dia a gente chegou em problemas técnicos que a gente não consegue resolver, porque não tem a grana. É um trabalho de todos os dias, tem rede social, curadoria… Nos últimos meses, então, a coisa foi dando uma diminuída, porque a gente foi conduzindo para isso mesmo. Não posso continuar engajando pessoas para um projeto que vai acabar. A ideia então é usar essas ferramentas para fazer uma despedida carinhosa.”

No entanto, o acervo bastante grande de literatura que o aplicativo foi capaz de produzir e fomentar não se perderá pelas nuvens.

“A gente pensou em fazer um blog mesmo, que não tem custo de manutenção, para deixar todos esses contos no ar, para ficar o arquivo. E as pessoas podem acessar isso, continuar lendo. Ainda que de uma forma menos funcional que o app.”

Foto: Mavi Dutra / Reprodução

Tamborete

Na vida, às vezes é preciso que os projetos acabem e os períodos se encerrem, de modo que haja espaço para o surgimento do novo. Outras ideias, outras energias criadoras. Déborah já tem seu novo projeto no ar. O Tamborete é fruto de sua parceria com Kleber Mateus, também escritor, amigo e colega de trabalho no Iphan.

“Rolou a reunião para encerrar o Diminuto. A gente, hoje, mora cada um em uma cidade, ficou tentando por vários dias marcar a reunião por Skype. Quando conseguiu, foi em uma quarta-feira à noite. Na quinta-feira de manhã, eu e o Kleber lançamos o Tamborete. Foi muito simbólico isso para mim, principalmente porque eu fiquei com essa sensação de que eu não tenho que ficar triste porque acabou. Eu tenho que pensar que é um ciclo lindo que está terminando para começar outro.”

Então explica qual é a pegada do novo projeto, pedi. O Tamborete foi pro ar no dia 12 de abril.

“É uma história de mesa de bar. Eu tenho essa piração com palavra. Meu TCC da graduação é uma biografia de um senhorzinho dicionarista lá de Goiás Velho, que já morreu há anos. Fez o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa. Então a gente estava no bar, eu e o Kleber, e eu falando que eu adoro palavra, que eu adoro ‘tamborete’, olha essa palavra. Aí a gente brincou. ‘Duvido que você chegue em casa e escreva um conto sobre um tamborete, hahaha’. Enfim, a gente foi embora. E eu sou muito nerd [risos]. Pensei, ‘vou escrever sozinha, porque nunca que o Kleber, bêbado, vai escrever esse negócio a essa altura da noite’. Aí eu fui e escrevi. No celular mesmo, um continho. Passou meia hora e o Kleber me manda o dele. E eu fiquei alucinada, porque eles falavam da mesma coisa. Tá lá publicado. E não é um significado óbvio para um tamborete, a gente não tinha falado nada sobre isso e a escrita teve essa condução para o mesmo caminho. Coisa de um mês depois, a gente resolveu fazer outro, para ver o que acontecia. Então, a gente botou como regra, toda quinta-feira, a gente tinha que se mandar um texto novo com a palavra nova. E foi uma troca muito legal. Estabelecemos uma disciplina que nenhum dos dois tem para escrever, e a gente se sentia cobrado, do jeito bom. Era aquela coisa ‘não quero nem encontrar o Kleber hoje, porque não entreguei o texto de ontem’. E a gente trabalha no mesmo lugar, né [risos]. E era sempre um resultado bom para a gente. Era divertido. Curioso ver como as histórias às vezes conversavam, e como às vezes elas não tinham nada a ver uma com a outra. O próprio exercício da escrita. Eu tenho uma zona de conforto no que eu escrevo ali que é muito claro. O Kleber, não. Ele foi sendo mais corajoso, tentando escrever em estilos diferentes, chegou a tentar copiar o meu estilo em alguns textos. Quando a gente entendeu que tinha um ano, já, que a gente estava fazendo isso, resolvemos publicar, acho que já era hora de deixar de ter vergonha.”

Os dois escritores partiram, então, em busca de parcerias para desenvolver o projeto.

“Só palavra não dá. As pessoas são muito visuais. Não dá pra ser só texto, texto, texto. Então a gente resolveu fazer essa coisa da colaboração das ilustrações, como se fosse a terceira perna do tamborete, né, que não para em pé com uma perna só.”

Assim, o tamborete está no ar, publicando quinta sim, quinta não, os textos que resultaram da brincadeira nerd dos dois escritores, ilustrados sempre por algum amigo convidado.

“Os colaboradores não leem nossos textos antes, o que dá margem para uma terceira história que é contada ali, visualmente.”

Por fim, esperamos que tenha vida longa o novo projeto e sucesso como teve o anterior. Que a literatura do DF e do Brasil continue trilando o caminho em direção ao público, com maiores ou menores doses de tecnologia. Para encerrar, conta uma curiosidade sobre o Tamborete, Déborah, para cutucar a curiosidade do leitor da Seca.

“Eu quero muito publicar na ordem em que a gente foi escrevendo. Porque é muito legal ver como foi evoluindo, como a gente foi brincando. Vou dar um spoiler. Tem um texto que eu continuei o texto anterior do Kleber, que eu adoro. Ele fez um texto muito bom, e eu sabia que na palavra seguinte ele não ia continuar, ele ia contar uma outra história, e eu queria muito que aquela história continuasse, aí fiz eu mesma [risos].”


Vitor Camargo de Melo

14 de junho de 2018