Literatura LIVRE!

O Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos é uma das programações literárias de destaque no mês do cachorro louco da Capital

Foto: Mariana Costa / Reprodução

Existe uma turma que diz por aí, aos quatro ventos, que arte não deve conversar com a política. Muitos da mesma turma acham que arte não deveria se posicionar nos conflitos sociais, assumir lado. Ou seja, em uma leitura quase inocente de Platão, acham que a arte é o belo essencial, imaculada pela sociedade comezinha e a vida prosaica do seu povo. Na literatura, artista seria aquele sujeito, portanto, capaz de arrancar lágrimas e salvas de palmas de seu leitor, ao escrever um poema, todo trabalhado na linguagem, que versasse sobre um pires. Ou um gato dormindo. Ok, não há fiscais que digam que não possa ser assim.

No entanto, se para toda ação existirá uma reação, também para cada turma quadrada, haverá uma diferentona diametralmente oposta. Disso, Newton já sabia. Decorre daí que uma galera chafurda sem dó no chorume das estruturas sociais, mete a boca na desigualdade, corneta as injustiças, toma partido-alto e oferece o dedo médio a quem diz que sua arte tem menos beleza por causa disso. Aqui, se faz arte com paixão e raiva. Não ódio. Se faz arte com força e por indignação. A arte livre liberta.

“O fazer literário, em seus diferentes gêneros, não tem obrigação a cumprir com a sociedade; não cabe ao escritor a correção do mundo. Mas é importante lembrar que, no exercício de sua autonomia, quem escreve tem o poder de apontar para questões que de outro modo seguiriam obliteradas. Se tudo podemos neste ofício, por que não tratar das complexidades e fragilidades sociais, das lutas e esperanças das gentes? Em se tratando de uma possibilidade, esta me parece das mais frutíferas.”

Paulliny Gualberto Tort – Idealizadora e curadora da Livre!

Em Brasília, a turma diferentona resolveu agitar os quatro domingos de agosto mandando ver logo um festival escancarando o projeto artístico da galera. A Livre! – Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos é encabeçada por nomes consagrados, já há mais ou menos tempo, na cena literária da capital, como Paulliny Gualberto Tort, Beatriz Leal Craveiro, Noélia Ribeiro e Nicholas Behr. O poeta mato-grossense radicado no DF é, inclusive, um dos autores homenageados pelo festival, ao lado da candidata à cadeira número 07 da Academia Brasileira de Letras, Conceição Evaristo.

Foto: Mariana Costa / Reprodução

A nota de pesar fica para a terceira homenageada, a crítica literária Roberta Carmona, que faleceu às vésperas do festival. Roberta concebeu e esteve à frente por quase três anos do canal Literatorios, no YouTube, com o qual incentivava a literatura brasileira e latino-americana. A Livre! está sendo, então, dedicada a ela.

As atividades do festival acontecem ao ar Livre!, distribuídas por parques de quatro regiões administrativas da cidade. Além de três ações sociais, há mesas de autógrafos com autores locais em todos os dias do evento. Outro ponto alto é a oficina de escrita criativa ministrada pela escritora Sheyla Smanioto, vencedora dos prêmios Sesc de Literatura e Machado de Assis da Biblioteca Nacional, com seu romance de estreia, Desesterro (Editora Record, 2015). A oficina “Como tomar seu corpo de volta: escrita, corpo e feminino” acontece no dia 19 de agosto, na Casa Frida, localizada na cidade satélite de São Sebastião. O curso será gratuito.

Outro destaque é para a antologia de contos, com um time pesadíssimo de autores participantes do festival, publicada em parceria com a editora Moinhos. O livro pode ser adquirido mediante doação para a Anistia Internacional.

Foto: Mariana Costa / Reprodução

O carro-chefe do festival são as quatro mesas temáticas, distribuídas uma a cada domingo, em que autores de Brasília recebem autores de grande projeção nacional (e internacional) para debaterem temas relacionados à literatura e aos Direitos Humanos.

No domingo de abertura, dia 05 de agosto, o Centro Cultural do Taguaparque foi o palco para a mesa “(In)Visibilidades: a presença negra na prosa e na poesia brasileiras”. A anfitriã foi Cristiane Sobral, poeta carioca radicada em Brasília, que recebeu a homenageada Conceição Evaristo. Bateram bola, as duas, por mais de uma hora, responderam perguntas e deram autógrafos ao público que encarou a fila. Cristiane provocava, no início da mesa, que os povos negros na literatura não sejam “Nem invisíveis, nem estereotipados.”

Conceição, então, deu aula. De literatura, de representação, de direitos humanos, deu aula de mundo. Disse que é tia de quem lhe pede que seja, de quem lhe oferece afeto de sobrinha. Só não é mãe preta, porque seus filhos ela escolhe. Ao povo preto, o estabelecimento social racista permite uma cidadania lúdica, segundo ela. A sambista, ou a passista que porta a bandeira da escola, em oposição à invisibilidade da atividade intelectual de uma mulher negra que não dança, mas escreve. Ou a que dança, mas também escreve. Mesmo assim, Conceição enxerga limites nas concessões. “Cadê as bailarinas negras do corpo de baile do Theatro Municipal? Ou por que a rainha do axé é branca, e não é a Margarete Menezes?”

Foto: Mariana Costa / Reprodução

Em um país tão mergulhado no pensamento cristão, a autora destaca que, se o corpo da mulher é a origem da perdição humana (Eva), é também esse corpo feminino a sua salvação, por meio da maternidade (Nossa Senhora). Na literatura clássica brasileira, de modo geral, Conceição identifica que a mulher negra tem seu corpo representado como perdição ou como subalterno. Desde a escrava Bertoleza e a mulata boa de cama Rita Baiana em O Cortiço, até Gabriela Cravo e Canela, a cozinheira boa de cama que reúne os dois atributos. Mas a mulher negra dessa literatura não fecunda, não produz continuidade. Ela não é representada como mãe. Se o leite do peito das amas sempre foi um ícone forte da mulher negra na sociedade brasileira, esse leite sempre serviu ao filho branco do senhor. A mulher negra, nessa representação, não tem prole, ou tem uma prole que é desimportante e invisível.

E Conceição conclui com outra provocação:

“As pessoas me dizem que eu sou uma figura midiática. Eu sei que eu sou. Uma mulher negra de 71 anos, escritora, é novidade. E a mídia precisa de novidade. Mas não foi a mídia que me fez, não. Quem me fez, quem primeiro acolheu, entendeu e repercutiu meu texto foi o movimento social negro.”

Conceição Evaristo – Escritora

No segundo domingo do mês, 12, dia dos pais, foi a vez de Beatriz Leal Craveiro fazer as vezes de anfitriã para Julián Fuks. No Parque Ecológico dos Jequitibás, em Sobradinho, protagonizaram a mesa “Democracia em tempos sombrios: o romance como resistência”.

Os dois autores compartilham semelhanças e aproximações, para além da origem na gema paulistana. Os dois foram finalistas do Prêmio Jabuti de 2016 (curiosamente, junto com Sheyla Smanioto) com livros que mergulham em assuntos muito próximos. Mulheres que mordem, romance de estreia de Beatriz, articula personagens em torno da história de uma mulher que não conhece seu passado. Foi criada por pais que julga biológicos, mas que, em verdade, a adotaram depois que os progenitores foram mortos nos porões da ditadura argentina. Já o romance A resistência, de Julián, vencedor do Jabuti em questão, parte da realidade do próprio escritor, filho de combatentes argentinos exilados no Brasil, e do seu irmão mais velho, adotado pelo casal ainda antes de aqui virem para cá.

Foto: Mariana Costa / Reprodução

Antes da mesa, Meimei Bastos apresentou sua esquete poética POEMARIO.

A Livre! continua firme e forte nos dois próximos domingos de agosto. No dia 19, o palco é o Parque Ecológico do Bosque, em São Sebastião, e a mesa principal tem a poeta Lisa Alves recebendo Natália Borges Polesso para a mesa “Amor entre iguais: a diversidade afetiva nas narrativas contemporâneas”.

Fechando o festival, Paulliny Gualberto Tort recebe o português José Luis Peixoto, no Parque Olhos D’Água, na Asa Norte, para a mesa “Da fruição à criação: a literatura como direito humano”.

É rolê que não se perde por nada!

Vida longa à Livre!, e parabéns aos envolvidos!


Vitor Camargo de Melo

16 de agosto de 2018