“Ler, beber e conversar”

A Movida Literária movimentou 27 escritores por 7 bares e cafés de Brasília em 7 dias de literatura e boemia

Nos tempos do saudoso Orkut, antes da rede social ser sequestrada pelos gifs de brilhosas fontes coloridas e ninguém pagar o resgate, uma das comunidades mais populares entre os jovens de Brasília afirmava: “Se não tem mar, vamos pro bar!” Eis então que, desse ente cultural – junto com o Shopping – tão presente na vida do Plano Piloto, nasce mais um fruto.

Foto: Danilo Oliveira

Gosto de imaginar que era uma daquelas noites quentes que Brasília sabe oferecer. Que a cerveja suava os copos americanos e escorria nas gargantas sem moderação. A cena de cinco escritores em volta da mesa do bar, papeando papos que escritores papeiam, causa uma euforia nerd, que apenas se sente, nuca se explica. Referenciados nas conhecidas Balada Literária e FestiPoa Literária, e atentos para a inexistência das livrarias de rua em Brasília, os cinco voltam-se para o santuário boêmio e, nesse momento, começam a gestação da Movida Literária.

Única mulher da turma em volta da mesa naquela noite, a jornalista e escritora Paulliny Gualberto Tort é um exemplar desses raros brasilienses nascidos em Brasília. Entre os curadores, é também a única: o mato-grossense Nicolas Behr, o mineiro Zé Rezende Jr, o paulista Maurício de Almeida e o gaúcho Jeferson Assumção completam a turma de brasilienses responsáveis pela gênese do evento.

Acometidos por um senso de urgência, decidiram pular as etapas tradicionais da produção cultural por essas bandas, como escrever projeto e disputar edital. Meteram a cara e a coragem nas reuniões, mataram no peito a produção, buscaram parcerias e lançaram uma campanha de financiamento coletivo que arrecadou sete dos dez mil reais que previam ser necessários.

Para esquentar os motores do evento, produziram uma festa no Canteiro Central e uma oficina literária como recompensas para os apoiadores. Deu certo. Muito mais que um evento singular, a Movida se pretendia ser um pontapé inicial, como destacou Jéferson em vários momentos, um esforço para fortalecer e visibilizar o fazer literário no DF. Preocupados com a formação de redes entre autores, como também repetiu Maurício algumas vezes, a curadoria montou uma programação que privilegiou os autores locais. Somente dois convidados de fora. Não só para tirar o autor do pedestal e trazer para perto do público, como para permitir às pessoas descobrirem o que acontece na cena literária da cidade, o que está sendo feito e quem está fazendo. Nas palavras de Nicolas, a Movida Literária é o escritor e o leitor correrem pro abraço.

Na noite de 21 de maio, domingo, os escritores foram mais produtores culturais do que nunca. Montavam estrutura, arrastavam mesas no bar, ligaram microfones e caixas de som. A ansiedade podia se fazer sentir no ar.

Travessia do Eixão

Nossa Senhora do Cerrado

Protetora dos pedestres

Que atravessam o Eixão

Às seis horas da tarde

Fazei com que eu chegue são e salvo

Na casa da Noélia

O poema é de Nicolas Behr, foi musicado por Nonato Veras e tocado pelo Liga Tripa inúmeras vezes. Na última faixa do último disco de estúdio da Legião Urbana, a música ecoa na voz de Renato Russo. Noélia, a Noélia da música, foi quem abriu a primeira mesa da Movida Literária, mediada pelo poeta e jornalista Luís Turiba. Em mesas de plástico do histórico bar Beirute, na 109 sul, ela falou sobre sua juventude no Plano Piloto, a agitação cultural de outras épocas, falou da geração mimeógrafo, de sua trajetória como poetisa e suas influências. Quando provocada sobre a música, diz que adora ouvir. Lembra que o poema foi escrito quando namorava o Nicolas. Sente-se honrada com as homenagens. E alerta: antes de ser musa, é, e já era, poeta.

Um Jeito De Ser Feliz

Tenho o vício de viver assim sem

Adereço

Esperando o balde para chutar

Inaugurar outro

Recomeço

E voltar ao ofício de ser

Feliz enquanto tudo é o

Avesso

(Noélia Ribeiro, 2015)

Autora de três livros solo de poesia – o primeiro, Expectativa, é de 1982 –, além de participação em incontáveis coletâneas, jornais, revistas e saraus, a recifense radicada em Brasília falou ainda das obras mais recentes: Atarantada (2009) e Escalafobética (2015). Noélia Ribeiro avisa que completa a trilogia dos títulos inusitados em breve. Mas não antecipa o nome do novo livro, diz que não sabe e não contaria se soubesse. Seu sorriso é a bela imagem que dá início ao evento.

Os pés cansados e feridos de andar légua tirana

Lágrimas nos olhos de ler o Pessoa

E ver o verde da cana

(Fotografia 3X4 – Belchior)

De dentro da mala que foi de seu pai, estacionada, aberta, em cima da mesa, Adeilton Lima sacava objetos forjadores das trajetórias literárias de seu avô, de seu pai e da sua própria.

Injetou

Lentamente

o poema na veia…

Overdose.

Na gaveta restavam ainda

algumas contas a pagar.

(Adeílton Lima, 2016)

De livretos de cordel a cópias de Franz Kafka, as peças cuidadosamente pescadas do relicário traçavam, na voz do ator de teatro e poeta, histórias de migração, sonhos e poesia. A homenagem a suas figuras de referência sacramentava a inspiração de uma mesa de abertura profundamente marcada pelas gerações de ascendência nordestina, que engrandecem a demografia e a cosmopolita cultura do Distrito Federal.

Foto: Danilo Oliveira

Na segunda mesa da noite, os escritores Marco Miranda e Jéferson Assumção, entre outras coisas, falaram de literatura infantil, experiência que têm em comum nas suas caminhadas. Em tom de festa, Marco declamou os versos de seu “O Paradeiro do Padeiro”, fazendo a plateia suspirar com a gastronômica aventura de Seu Francisco, o Rei do Pão. Mas reclama. “Vivo de livro, mas não vivo de literatura.”

Na impossibilidade prática de viver apenas de escrever, os escritores da cidade acumulam tarefas, nem sempre próximas ao cenário cultural. Jéferson aponta com otimismo que, para além dos três setores tradicionais, que se mostram cada vez mais insuficientes, há um quarto elemento que não é Estado, nem mercado, nem sociedade civil estruturada. É o que o escritor chama de “O Comum”. Nesse sentido, associação, parcerias, formação de redes, as construções coletivas, enfim, são a saída e a esperança para os escritores e artistas de todas as áreas. Jéferson defende ainda a aproximação das narrativas literárias com a narrativa do cinema, dos games, etc. A Movida Literária encerrou assim a primeira noite: alardeando sua principal motivação, advogando por sua principal esperança.

Ao todo, passaram pelas mesas da Movida vinte e sete autoras e autores, em sete dias de evento, que circulou por sete bares e cafés da cidade. O público foi humanamente incontável, o que é um claro sinal de virtude da festa. O debate girou por muitos temas próprios da literatura e do fazer literário e artístico, desde os livros ilustrados ou infantis e sua relação com os adultos, além das crianças, até o engajamento que caminha lado a lado com as produções e discussões que tratam de gênero, raça, sexo, periferia, entre outros assuntos. As escalações das mesas demonstravam uma preocupação em representar essa diversidade da produção literária brasiliense, abrindo com a poesia e passeando pelo conto, pelo livro ilustrado, pela literatura infantil e pela literatura de viagem. Foi do exercício extremo da concisão, nos microcontos, ao romance. Tudo para, ao final, retomar a poesia.

Foto: Vitor Camargo de Melo

Marcelino Freire é autor de sete livros, a grande maioria de contos. Venceu os prêmios Jabuti e Machado de Assis, e a poética oralidade de seus textos pulsa, grita aos ventos. Pernambucano de Sertânia, vive desde os anos 1990 em São Paulo, e vive franciscanamente da literatura: dos eventos para os quais é convidado, dos concursos a que serve de júri, das oficinas de escrita que coordena, dos artigos de jornais. E vez em quando pinga um troco dos direitos autorais de seus incríveis livros. Além disso tudo, é o grande responsável pela Balada Literária, festa que foi de grande inspiração para a Movida.

Toda essa desenvoltura apareceu no bar Raízes, na 408 norte, com a mesa de encerramento da festa. Marcelino declamou, reafirmou sua admiração pelos fodidos, fez piada, gritou “Fora Temer”, deu dicas de escrita, discutiu seu processo criativo e arrancou uma quantidade absurda de aplausos, risadas e suspiros da plateia. Se a Movida começou os trabalhos com o sorriso pernambucano de Noélia Ribeiro, os encerrou com chave de ouro na risada também pernambucana de Marcelino Freire, deixando em êxtase os apreciadores de cultura do Planalto Central, com pedidos de quero mais.

Foto: Danilo Oliveira

A Movida Literária nasceu para sacudir a cena literária do DF. A agitação que provocou nos bares e cafés atesta seu sucesso. Assim como concretizou sua pretensão de aproximar os autores brasilienses, e eles do público. A troca de abraços, apertos de mão, cartões de visita e livros autografados garantiu também o sucesso nessa instância. Enquanto aguardamos a próxima edição da Movida, prometida para o ano que vem, esperamos que as redes ensaiadas nessas noites de maio se consolidem e gerem outros frutos. E se perpetue o clima de boemia, regado às bebidas e às boas resenhas.


Vitor Camargo de Melo

14 de junho de 2017