“Contar tudo”, de Jeremías Gamboa

Apesar de ter sido lançado no Brasil em 2015, ainda vale falarmos sobre esse livro

“Contar tudo”, do peruano Jeremías Gamboa, é um romance sobre o ato de escrever. Ou melhor, é um livro sobre a escrita de um “correria”, como falamos nas periferias tupiniquins. O protagonista Gabriel Lisboa é um jovem pobre, morador de Lima, que fora criado pelos tios, estudante de escolas públicas e que, graças ao seu brilhantismo, ingressa como bolsista em uma renomada universidade. A narrativa me chamou a atenção por construir a perspectiva contemporânea de uma personagem que não nasceu em berço de ouro e que decide dedicar-se à (ainda elitizada) tarefa de escrever. Por isso, apesar de ter sido lançado no Brasil em 2015, considero que ainda vale falarmos sobre ele, já que o dilema motivador do enredo coincide com a iniciativa desta jovem e querida revista: escreva, Seca, escreva!

As mais de 500 páginas do romance são um verdadeiro escrutínio da vida do protagonista. A escolha de “Contar tudo” para o título foi bem certeira nesse sentido. Gabriel Lisboa passa parte de seu curso universitário de Comunicação Social fazendo bicos como carregador e depenador de frangos até conseguir, por meio do bom papo de seu tio garçom de pizzaria, estágio em uma famosa revista. Ali o encontro dele com a escrita começa a ganhar forma, o jovem profissional em formação tem uma carreira ascendente e está sempre galgando novas posições como jornalista.

É preciso dizer que esta parte do romance é realmente longa, mas tem o seu porquê, pois o leitor tem a real dimensão do significado do mundo do trabalho na vida de Lisboa, que está bem longe de engrossar a diferenciada fila da galera que “larga tudo e vai fazer o que gosta”. A incursão do protagonista na escrita da ficção é para ele um desejo tanto antigo quanto subliminar. Leitor assíduo, o tímido Gabriel sempre conviveu com as letras sem ter a dimensão do que elas representavam para si até o momento em que a amizade o mostrou isso. Ao passo que se dedica intensamente ao trabalho de jornalista, ele faz importantes amigos por meio de oficinas de escrita criativa na universidade. E é a partir daí que a narrativa ganha fôlego e beleza. Gabriel passa a integrar uma rede de pessoas que tiveram acesso a bens materiais e culturais, o que serve para revelar cicatrizes ainda mais densas que as que ele carrega na face (advindas de espinhas graves na desgraçada adolescência).

Os amigos do jovem se enveredam pela escrita de poesias, contos e pretensos romances. Em vários momentos, questionam o protagonista sobre quando ele de fato começará a “escrever de verdade”. Timidamente, ele cria suas primeiras histórias e até consegue vencer um pequeno concurso da universidade. Porém, o tal “largar tudo” para dedicar-se à escrita de ficção parece um ato impossível para alguém com suas origens. O dilema existencial de Gabriel vem acompanhado do mergulho em uma Lima cheia de caos, desilusões amorosas, poesia declamada por bocas alcoolizadas e muita música: Lou Reed e Caetano Veloso estão sempre compondo um baita pano de fundo sonoro para a narrativa.

Jeremías Gamboa é um escritor jovem nascido em 1975. Ainda em sua estreia, recebeu grandes elogios de Mario Vargas Llosa. O autor também é jornalista e tem trajetória tão correria quanto a de Gabriel Lisboa, por isso é questionado, em várias entrevistas, sobre o quanto seu há no protagonista de “Contar tudo”. Sempre acho esse tipo de questão desonesta, pois parece esconder uma ressalva sobre o que se cria: “ah, mas ele só fala do que viveu”. É como se tal pergunta sequestrasse o status artístico do que fora criado. Para mim, é um alívio encontrar narrativas contemporâneas de quem fala o que viveu também, e por que não? Mas principalmente de quem cria sob a perspectiva de quem está vendendo o almoço para garantir o jantar. Se pensarmos no cenário da autoria brasileira contemporânea (publicada nas grandes editoras), bate até preguiça de procurarmos olhares que vão além dos nobres berços desse Brasilzão majoritariamente plebeu.

Nós lemos para nos sentirmos num espaço outro que não o nosso, bem verdade, mas também precisamos olhar para uma história e reconhecendo angústias, levezas, motivações e desejos particulares. Isso é uma espécie de ser. É enfadonho encontrarmos pontos de vistas tão parecidos (brancos, classe média, héteros e o resto do rosário inteiro) no espaço ficcional, que pode e deve fabular um mundo mais inteiro. Isso pode não ser levado em conta por todos ao escolherem por onde irá sua imaginação no tempo livre, mas para alguns é uma balança importante. E são por essas brechas que me embrenho como leitora.

Depois de passar por uma intensa descoberta de si, Gabriel Lisboa deixa para trás a atribulada profissão de jornalista e busca na paz universitária o precioso tempo para criar sua ficção. O desfecho da narrativa é o começo da escrita do romance que lemos, o ciclo se fecha e uma nova correria começa.


Andressa Marques

11 de agosto de 2017