“Caligrafia das nuvens”, de Carla Andrade

Poeta mineira-brasiliense lança livro e a gente sorri com os dentes

Parece que sonhei.

A capa de Caligrafia das nuvens, o título da obra e a primeira frase desta resenha formam um combo de propaganda enganosa.

Sim, parece que sonhei, mas não foi lilás. Sonhos não são sempre leves, como sugere a capa, mas são necessariamente embaçados, como também sugere a capa.

Parece que sonhei e minha memória embaraçou, não sei o que é invenção e o que de fato aconteceu. O que é passado e o que é presente. Ou o que vai acontecer quando eu acordar daqui a pouco.

Um balão, uma roda gigante, a janela do avião da página 49, uma página 80 com paraquedas, o prédio mais alto do mundo, gravidade. Queda. Sonhei e acordei num espasmo. Caligrafia das nuvens não é para quem tem medo de altura.

Passear por ele é subir naquela cestinha de balão achando que vai ser leve, mas acabar caindo pelo buraco da Alice nos questionamentos, comer bolo para crescer e tomar chá para encolher. Com o eu lírico criado pela poeta Carla Andrade, você deve beber um gole de presença (p. 98) se quiser fazer o balão descer. Mas não há suficiente dessa bebida. Nunca tocamos o chão.

No país das maravilhas de Carla Andrade você passa fome quando sente cheiro de queijo em Minas Gerais. Só que roça é difícil, roça é pesado. A violência da roça (p. 21) exige moinhos eróticos que já não carregam vida em seus fluidos quando entram em contato com o ar – é o que Carla explica na página 30.

Em alguns versos, permita-se voltar à infância. Você pode ser uma criança com hálito de nuvens (p. 43), que sopra dentes de leão como se desintegrasse o universo (p. 44); a doçura do pai vira um balão de hélio que não precisa de mala (p. 87). Mas, quando você se acomoda num conforto familiar da página 24, o poema seguinte te sacode, você acorda, e realiza que não está no colo da sua mãe. Enganaram-te com o embalo da cestinha do balão.

Se você resolve descer, você não pisa com os dois pés na terra. Você pula revezando entre as pernas, vai para frente e para trás no jogo de amarelinha da página 42, para oscilar entre céu e inferno, entre passado e presente – nunca o futuro.

                                                                                  

Foto: Beatriz Leal

A espera (bastante) registrada em Caligrafia das nuvens é sempre pelo agora. Um desejo de descer do balão e viver o hoje, ser fruta da época (p. 40). Você não sente ansiedade por um futuro, porque em Caligrafia das nuvens o futuro não existe. Um balão não pode sobrevoar uma cidade que ainda não aconteceu. Você não sente a ansiedade pelo futuro, mas espera. Espera. A mente é ratoeira (p. 31). Espera.

Mesmo o presente está distante – Às vezes me pego em tantas encarnações. Não nesta (p. 94). A fruta da época não nasce, porque a época é outra. A vontade de pertencer continua fluida. É uma sequência de abortos do instante seguinte – um eterno quase (p. 39). Mas não é justamente o momento que precede o orgasmo o mais crucial?

Se por um lado, as nuvens de Caligrafia podem ser interpretadas como um dente de leão que quando soprado espalha versos, também temos aqui um corpo pote de pedra (p. 26) grato pela possibilidade de se libertar. Mas só já já…

Sorrir com dentes é indulto bíblico (p. 54).

Caligrafia das nuvens é o quarto livro da poeta Carla Andrade, lançado neste mês pela editora Patuá. Você pode adquiri-lo em www.editorapatua.com.br.


Beatriz Leal

3 de julho de 2017