A Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante

Andressa Marques é professora e doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília. Além disso, como já mostrou anteriormente na Revista Seca, escreve resenhas tão boas de ler que só não superam o próprio livro resenhado se ele for mesmo muito bom. E os livros da Elena Ferrante são!

Foto: Reprodução/Internet

A tetralogia napolitana, uma série de romances escritas sob o pseudônimo da italiana Elena Ferrante, é imperdível e não faz sucesso por acaso. Impossível ficar indiferente à narrativa desta autora de rosto desconhecido, no maior estilo mistério-Banksy de ser, que nos transporta para dentro de uma Nápoles sombria, bélica, barulhenta e repleta de habitantes com mais sangue do que cabe em uma alma.

 “A amiga genial” (2011), publicado no Brasil pela editora Biblioteca Azul, é o primeiro livro da incrível trajetória de vida das amigas Lila, Rafaella Cerullo, e Lenu, Elena Greco. A história é contada sob a perspectiva da última, que ainda criança se encanta com a colega de sala Lila, inteligentíssima, e que passa a inspirar seus passos por muito tempo. O enredo começa na década de 1950, na cidade de Nápoles, que ainda tinha fresca em sua memória os horrores da II Guerra Mundial, e vai até um pouco depois de 2005, ano do derradeiro encontro entre as duas já idosas, no romance “História da menina perdida” (2014), o último da tetralogia. Entre eles há a “História do novo sobrenome” (2012) e “História de quem foge e de quem fica” (2013), que abordam a juventude e a fase adulta das protagonistas, respectivamente, não deixando dúvidas de que estamos diante de uma narrativa de formação.

As grandes transformações protagonizadas pela Itália, durante todos esses anos, dão corpo às vidas dos clãs das protagonistas. Acompanhamos a transferência do poder da comunidade, o chamado bairro, passando do poderoso camorrista Don Achille Carracci, central no primeiro romance, para a família Solara, núcleo que detém o poder econômico nos outros três livros e que passa a comandar o bairro diversificando seus negócios ilegais, injetando dinheiro nas chamadas bodegas, em toda Nápoles. A pouca força do Estado na cidade criou mecanismos de existência particulares nas personagens, que são conhecidas na comunidade pelas profissões desenvolvidas por suas famílias: do contínuo (pai de Lenu), do sapateiro (pai de Lila), do marceneiro (os comunistas), do verdureiro, do confeiteiro e dos professores. A comunidade tem suas formas de lidar com o dissonante, a honra e as injustiças. Somos espectadores de seu “olho por olho, dente por dente” no início da série, mas acompanhamos uma leve mudança nessas relações ao passo que vai surgindo uma presença cada vez maior do Estado, seja na prisão de um líder comunista do bairro, até os ecos de uma eleição ao longo dos demais romances.

“A amiga genial” é primoroso ao nos apresentar as duas ainda meninas. A decisão em contar toda a história partiu de Lenu, que resolve fazê-lo a partir da notícia do desaparecimento de Lila, que, já velha, decide afastar-se de todos. Elena Greco resolve não deixá-la sumir, contrariando a vontade da amiga, e escreve o longo registro de suas vidas. O ato de escrever é central no desenrolar da vida das duas, pois ainda criança Lila teve a ideia de que só escrevendo um livro elas seriam importantes e famosas como a escritora do livro que leram juntas, intitulado Mulherzinhas. A partir desse insight, surgiu o conto “A fada azul”, escrito por Lila, e que marcou fortemente a vida de Lenu por sua singela beleza. Ao ler o conto, nossa narradora confirmou a genialidade da amiga e jurou que jamais sairia de perto dela e sua inventividade sob o risco de desaparecer. Dentro da sua leitura de mundo, ainda infantil, Elena percebe suas fraquezas e passa a persegui-las incansavelmente para ser alguém capaz de reinventar-se como Lila já fazia criança. Por conta dessa decisão, a garota dedica-se exaustivamente aos estudos e consegue galgar, de bolsa em bolsa, os degraus de uma sofrida vida de estudante pobre até o ensino superior. Trajetória não experimentada por Lila, que não passa da escola fundamental, mas que realiza feitos incríveis, como criar um modelo de sapatos, que manterá sua família por um bom tempo, e até desenvolver autodidaticamente, na maturidade, aptidões na lógica de programação, que a salvará de uma vida de explorações como trabalhadora em uma fábrica de embutidos. Além dessa engenhosidade, Rafaella Cerullo alimentava sua curiosidade lendo as obras estudadas por Lenu, pois não estava em seus planos ficar atrás do conhecimento de sua “amiga genial”.

Saindo das vivências e revelações da infância, entramos na adolescência das protagonistas no livro “História do novo sobrenome”, ali acompanhamos as primeiras paixões das duas. Lila, adolescente, se encanta pelo figurão Stefano Carracci, filho do falecido mafioso, e se casam. O que não impede que novas e mais intensas paixões aconteçam, colocando as amigas, mais uma vez, em disputa. No terceiro romance, “História de quem foge e de quem fica”, nos deparamos com as agora jovens adultas em seus mundos do trabalho, dos afetos e da necessidade de ficarem longe uma da outra, mas também perto. Já no último romance, “História da não menina perdida”, a maturidade de ambas oferta a certeza de que sempre estarão juntas, ainda mais quando as desgraças não querem partir.

Para além do pano de fundo da vulcânica Nápoles com seu Vesúvio ameaçadoramente adormecido, o belo da tetralogia está nas relações de amizade entre as personagens, especialmente, as protagonistas. Você já deve ter ouvido muitas pessoas comentarem o quanto ficaram vidradas na composição da narrativa de Ferrante, é mesmo difícil ser indiferente a ela, pois nem todos os romances nos permitem odiar e amar, defender e rechaçar as mesmas personagens com a convicção de uma testemunha ocular. A amizade entre Lenu e Lila é assim, as qualidades que faltam a uma e sobram na outra não são manejadas de uma forma harmoniosa, como romântica e teoricamente aprendemos a esperar das grandes amizades e amores. Ali o que temos é uma vontade calculadamente reprimida, mas nem tanto, de uma querer para si o que é da outra, sempre dentro de uma ética de proteção simbiótica que só a verdadeira vida poderia arquitetar. É sério, parem suas máquinas e corram para  ler!


Andressa Marques

29 de setembro de 2017