Lugares que você precisa conhecer antes de ̶m̶o̶r̶r̶e̶r̶ comer

A beleza de uma carne de sol sincera na W3 Norte

Em uma segunda-feira qualquer, por volta da hora do lanchinho da tarde, meu telefone toca, me afastando do bacon recém fritado. “Espero que seja importante” é o que eu penso antes de deslizar o dedo oleoso no touchscreen do celular.

Uma tal Revista Seca, onde alguns amigos tinham se metido, me oferecendo trabalho com uma proposta que eu não conseguiria recusar.

“Boa tarde João. Somos da Revista Seca e alguns amigos lhe indicaram para escrever uma coluna sobre Gastronomia. Haveria interesse?”

Nesse momento, o bebezinho baleia que guardo debaixo da papada quase escalou meus sisos pra gritar ao mundo: “onde é mesmo que eu assino?

Depois de botar o telefone no gancho, mesmo sabendo ser um celular, pensei que minha vida estava completa ao ganhar dinheiro para comer? Assino sem ler o contrato.

Algum tempo depois, imaginei o diálogo que levou esses generosos escritores a convidar o rechonchudo aqui a escrever:

“E aí, quem a gente chama pra escrever uma coluna sobre Gastronomia?”

“Chama aquele gordinho lá, ele tá sempre pensando em comida mesmo.”

“Será que ele consegue falar de alta cozinha?”

Resposta a partir da qual assumo. Falar de alta cozinha não, mas da mais baixa gastronomia encontrada na Rua, com certeza!

Aviso aos leitores que esperam que esse espaço se dedique à mais rebuscada cozinha moderna, elaborando críticas sobre como a nova tatuagem do Fogaça traz um novo sabor ao seu crème brulée, que infelizmente não poderei ajudar. Entretanto, se houver o mínimo interesse em descobrir qual é o melhor ovo colorido da W3, embarque comigo nessa leitura, pois, se é em comida sincera que estão interessados, encontraram o bolota certo.

Hoje falaremos de uma opção sincera localizada no seio de Brasília, mais precisamente em seu mamilo esquerdo, bem verdade, derivando as suas auréolas.

Aos desavisados que acreditam que no Plano Piloto as únicas opções para comer são bistrôs chiques e cafés gourmet – munidos de comidas pouco fartas e preços estratosféricos -, apresento-lhes a marmita da “Carne de Sol da 12”.

Localizada na rua das oficinas, virada para a W3 (Endereço formal SCLRN 712 Bloco D Loja 09), essa é uma opção sincera que, atentai bem, necessita de password. Se o rechonchudo Rei Momo que habita sua pança for afoito e decidir sentar para comer no próprio estabelecimento, pode vir a encontrar um cardápio caro e pouco justo em suas proporções. Todavia, se seguir os conselhos deste bem-aventurado pançudo aqui, poderá sair de lá com três refeições pelo franco preço de 18 reais.

O estabelecimento guarda tons refinados, como os restaurantes típicos dessa modalidade, como XIQUE-XIQUE e MANGAI, por exemplo. Entretanto, se o bolota alcançar o balcão fazendo o pedido da marmita completa, virá a desfrutar de uma opção para no mínimo três refeições que irá satisfazê-lo.

A marmita clássica é composta por arroz, paçoca de carne, feijão tropeiro ou fradinho, mandioca frita ou cozida e quatro bonitos bifes de carne de sol. Vale dizer aqui também que, a cada turno, o estabelecimento oferece diferentes opções de acompanhamentos e mistura, o que permite a qualquer família de redondinhos alimentar-se todos os dias sem repetir o menu.

Após ter feito o pedido, a refeição chega em, no máximo, 20 minutos, apresentando-se fumegante ao balcão, explodindo em uma apoteose de odores que lembram a casa de vovó. Nesse momento, dezenas de potes contendo manteiga de garrafa são oferecidos aos clientes que, ao seu gosto, embebedam os alimentos com essa digna chuva dourada.

A paçoca de carne merece um parágrafo só dela. Farinha e carne seca desfiada juntas, dançando em um pilão, por si só já seriam um belo roteiro de longa metragem. E podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que a paçoca oferecida por esse estabelecimento facilmente ganharia o Oscar.

O arroz é normal (confesso ter um pouco de birra com esse alimento). Já o feijão tropeiro é uma das melhores experiências gastronômicas sem carne que podemos encontrar nessa cidade. Composto por feijão, farinha, couve, bastante ovo e bacon, que sem sombra de dúvidas entra na categoria tempero (ao lado de cheiro verde manjericão e orégano), o tropeiro é uma das partes da marmita que mais me apetece.

A carne, sinceramente, tem seu lugar ao sol. Os bifes vêm assados no ponto certo, guardando a suculência necessária para arrancar suspiros do mais autêntico vegano.  A mandioca, coberta de manteiga de garrafa, brilha em sua armadura dourada ao derreter-se na boca.

Até 2 meses atrás, esse justo cardápio custava a bagatela de 16 reais, sem descontos. Em épocas de vacas magras, sustentando uma família de quatro monstrinhos, essa era uma opção justa para o cardápio do almoço e janta, deixando os meninos de barriga cheia, sem reclamar da vida. O preço de hoje, como falamos acima, orbita em torno de 18 reais, não sendo a opção mais barata da W3. Entretanto, posso afirmar com toda certeza que se trata de uma opção sincera aos famintos de plantão.

Vai aqui um conselho brinde a quem nunca se aventurou a comer sob o regime de PF (prato feito) ou marmita:  sempre peça para pôr pouco arroz e muito de outra guarnição de sua preferência. Isso diminui as chances de você cair no típico golpe culinário de fazer um prato cheio de 1 quilo de arroz, molhado apenas por 2 grãozinhos de feijão.

Aproveitem enquanto é tempo, os hipsters estão invadindo a W3.

Jão Tenório,

110 kilos,

Uma bola de gude na vesícula, 

e aquela típica e sincera capa de gordura no fígado.

Rapidinha de IFood:

Um pássaro gordinho me contou que a lanchonete “Capital Burguer” está apresentando opções generosamente oleosas de alguns de seus sanduíches por aplicativo. É importante salientar que o Nhonho aqui detesta o conceito de “Hambúrguer Gourmet”. Entretanto, dois X-capital (xtudão da loja) por 18 reais parece ser uma comida verdadeiramente sincera.  O lanche é composto por pão, maionese, alface, tomate, ovo, bacon verdadeiro e queijo, além de três hambúrgueres de 90 gramas bem saborosos. Dois conselhos aos cintura-de-ovo aí: só peça coisas em promoção e exija bastante maionese.


Lucas Farage

14 de junho de 2017