Com caju e com afeto

Sara Campos é jornalista, ativista do movimento Slow Food e apaixonada por ingredientes da biodiversidade brasileira. Neste texto feito para a Revista Seca, ela relembra a sua infância, a presença do avô e o gosto da cajuína

Foto: Arquivo pessoal Sara Campos / Reprodução

Férias na casa de meus avós maternos em Teresina. Eu e minha irmã contávamos os dias para retirar as bicicletas daquele depósito com cheiro de mofo. Contávamos as horas para pedalar por um enorme terraço coletivo, que fazia divisa com uma grande chácara. A maior alegria era sair da rotina da capital do país – onde as brincadeiras infantis eram censuradas pela violência urbana – para entrar em um estado momentâneo de liberdade proporcionado pelo vento após o esforço de cada pedalada.

Apesar de estarmos em um apartamento na área urbana da capital piauiense, há poucos metros tínhamos alcance a alguns elementos que permeiam o cotidiano rural: o galo que insistia em cantar de madrugada, os bem-te-vis marcando presença no fim da tarde e as diversas árvores frutíferas que emolduravam aquele espaço, a maioria de ingredientes típicos da região. O pé de manga – aquele em que insistíamos em subir apesar do medo de altura — o pé da cajá, acerola, amora e o mais imponente de todos: o suntuoso e rústico cajueiro, com folhas bem demarcadas que nos deixava claro que estávamos longe de uma quadra desenhada por Lúcio Costa.

Ariano agitado, meu avô Zé Almeida sempre descia do apartamento para nos acompanhar numa verdadeira expedição frutífera. Alto, com quase 1,85m que pareciam 2m em minha lembrança infantil, ele nos colocava em seus ombros e retirava os cajus conosco. Como uma caçula desengonçada, eu colhia o fruto de forma brusca me sentindo uma gigante: atitude que estressava os insetos que cercavam a flor de caju atraídos por aquele aroma inconfundível.

Quentes com o calor de Teresina, os cajus tinham um cheiro característico que nos passava a sensação de acolhimento e proteção. Ao tocá-los, sentíamos a textura lisa da casca que posteriormente poderia estar presente nos resquícios que sobreviviam à peneira da minha avó na hora de preparar o suco. Em nosso quarto, repleto de fotos com várias fases de nossa infância, o frigobar era recheado com bebidas comuns ao paladar infantil, mas a “cajuína da Sareco” não poderia faltar. Quando meu avô chegava das ruas do centro com exemplares da bebida, o barulho das garrafas de vidro se chocando invadia a casa para a alegria da neta “boa de garfo”.

Como não gostava de beber água, a cajuína era a bebida que me refrescava após muitas tardes de pedaladas com minha irmã, que fazia jus ao seu papel de primogênita para comandar as brincadeiras com as crianças do prédio. Ou ao lado de nossa pequena gangue de primos, onde o caçula era sempre “café com leite”.

Depois das quedas inevitáveis com as bicicletas, vovó Graça nos chamava de sua varanda para a hora do lanche. A cajuína estava lá: com tom dourado em sua garrafa de vidro, emoldurada pelo mosaico de gotículas de água, resultado da refrigeração. No primeiro gole, a sensação era de uma doçura equilibrada e após o calor e a exaustão provocados pelas brincadeiras de criança. E tudo isso acompanhado de beiju.

Infelizmente não me lembro da primeira vez que provei cajuína: é possível que tenha sido na mamadeira. A bebida sempre existiu em meu cotidiano e para sempre estará vinculada à presença dos meus avós na ponte aérea Brasília – Teresina, onde a saudade e as lágrimas das netas apegadas a eles nunca deixaram de existir. Zé Almeida chegava com a amassada camisa de linho branco e a imensa carteira debaixo do braço, contando suas histórias, às quais temos o privilégio de ouvir até os dias de hoje.


Sara Campos

31 de outubro de 2017