The Austerity is coming: Flamengo, mídia e Henrique Meirelles.

Como a contrarrevolução neoliberal implementada no Flamengo a partir de 2012, amplamente apoiada pela imprensa, serviu de base para as reformas maldosas que Henrique Meirelles está tentando nos enfiar goela abaixo.

Austeridade fiscal é a resposta que o neoliberalismo oferece como solução para todas as crises econômicas do capital. Quando a coisa aperta, seus profetas aparecem na televisão com o discurso de que tudo que está dando errado é porque o governo gasta demais, que basta dar uma economizada para que o trem volte aos trilhos e as empresas garantam a prosperidade do país e dos cidadãos. Invariavelmente, em prol de um ente quase fantástico a que chamam Mercado, propõem cortes em áreas que afetam diretamente as pessoas que vivem do trabalho (previdência, seguridade social, salários, aposentadorias).

Ideologia é a cortina de fumaça que nos impede de ver as coisas como elas realmente são.  Ideólogos são aqueles que produzem, e vendem, ideologia. Por exemplo, a redução da maioridade penal como possível solução ao projeto de violência no Brasil é uma ideologia, porque deturpa a realidade de que não são as crianças e adolescentes, estatisticamente, os maiores homicidas do país. Os ideólogos deste exemplo são, principalmente, os almas-sebosas dos programas vespertinos pró-polícia.

Nesta investigação, vamos ver como uma ideologia aplicada ao esporte fez renascer um fantasma brasileiro. Atentando para o papel da mídia como hipnotizador do povo.

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O Brasil não é o país do futebol, muito menos o país do futuro, mas é inegável que nestas terras sofridas o nobre esporte bretão tem muito mais admiradores que a soma dos outros esportes. O ludopédio tem um triplo caráter: é, ao mesmo tempo, um esporte de alto rendimento, um negócio normalmente escuso e um jogo bastante imprevisível.

Como esporte de alto rendimento, o futebol exige um trabalho extremo com o corpo dos atletas para que eles consigam suportar a intensidade desgraçada das partidas. Para isso, é necessário um grupo de profissionais da saúde – preparadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos esportivos.

Como negócio, o futebol envolve compra e venda de jogadores (e os números absurdos nos permitem, sempre, duvidar da origem do dinheiro), verbas de publicidade (cuja maior fatia os clubes recebem da televisão que hegemoniza as transmissões), receitas de bilheteria. Dessa parte cuidam os dirigentes dos clubes e das federações, os executivos da televisão e das marcas patrocinadoras, os empresários de jogadores e, com certeza, outros tipos de especuladores dos quais nunca nem ouvimos falar.

Como jogo, são 11 contra 11 tentando levar uma esfera de couro para guardar dentro de uma casinha de metal com barbantes. Ganha quem repetir essa operação mais vezes. Aqui, fazem-se necessários, pelo menos, 22 jogadores, dois técnicos, dois bandeirinhas, um juiz e milhões de torcedores.

Dividido em três partes, o futebol ainda dá de comer aos especialistas que vivem de falar sobre ele. São os jornalistas esportivos, aqueles que, sob o discurso de informar à torcida do que ocorre nos clubes, nos gramados, nas bolsas de valores, criam ou divulgam a ideologia, influenciando a forma de ver, de jogar e de lucrar com o jogo. Assim como um jornalista de economia pode, de acordo com o alcance de seu trabalho, valorizar ou desvalorizar empresas e governos, e, caso queira, lucrar pessoalmente com isso, um jornalista esportivo pode, mesmo que creia estar apenas informando, influenciar no mercado (valorizando ou desvalorizando técnicos e jogadores), no esporte (valorizando ou desvalorizando preparadores físicos, formas de treinamento, estruturas dos clubes) e, isso é o mais perigoso, influenciar a forma de torcer (razão pela qual o jogo existe) de milhões de brasileiros.

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Em dezembro de 2012, depois do desastroso mandato de Patrícia Amorim, a Chapa Azul chegou ao poder no Flamengo. Por ser formada por um grupo de executivos, de “gente do mercado”, a chapa nasceu já com o apoio massivo da maior parte da mídia. Encabeçada por Eduardo Bandeira de Mello, um dos únicos que fizera carreira no setor público, no BNDES, a chapa ainda tinha como homens fortes Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente da SKY (que disse, por essa época, que se a Netflix começasse a incomodar, a Sky a compraria ), Flávio Godinho, atualmente preso, antigo executivo de confiança de Eike Batista, preso também, Cláudio Pracownik, banqueiro e militante, e Wallim Vasconcelos, do mercado financeiro. Foi, sem dúvidas, a maior reunião de executivos que já se viu fora de uma boate de strip-tease ou de uma convenção de tucanos.

Os executivos chegaram com o discurso dos executivos: a defesa da austeridade (“fomos forçados a assumir medidas de austeridade que num primeiro momento certamente impactaram nosso desempenho nas esferas esportiva e social, mas cujos resultados já começam a aparecer“). O principal era cortar os gastos, para pagar as dívidas, investir e montar um time bom. A ideologia de que todos os problemas do mundo podem ser resolvidos com uma “boa gestão”. Gente do mercado financeiro e dos bancos gerindo um clube ultra popular com o objetivo de pagar aos bancos e investir no mercado. A mídia, desde sempre a maior inimiga do Estado brasileiro, adorou a ideia.

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A imprensa esportiva, como já dissemos, é a grande ideóloga do futebol. A mídia, da qual ela é parte, é a grande inimiga do Estado.

Existe uma empresa nacional que monopoliza os direitos de transmissão do futebol brasileiro. Ela é, disparado, o agente mais forte do futebol como negócio. Na cobertura que essa holding faz do futebol brasileiro, os jornalistas atuam como publicitários do jogo, criando e divulgando chavões como “o campeonato brasileiro é o mais disputado do mundo”, no interesse, nem sempre consciente, pois essas decisões são mais parte do habitus que da racionalidade dos jornalistas, de vender pay per view, valorizar os espaços de anúncio e engordar o cofre da empresa.

No outro lado, existem multinacionais que atuam no país e não têm os direitos de transmissão do futebol brasileiro, mas sim de alguns campeonatos europeus. Os jornalistas dessas empresas assumem uma postura mais crítica ao futebol nacional que não transmitem e mais apaixonada pelo que transmitem e são capazes de criar e divulgar frases como “o campeonato espanhol é mais disputado que o brasileiro”. Assim como seus concorrentes, eles também estão trabalhando mais em prol das suas empresas do que da informação.

Além dos já citados motivos comerciais, a primeira empresa apoiou a austeridade da chapa azul por motivos ideológicos: hay austeridad soy a favor. As segundas por uma mentalidade colonial, e também para valorizar o próprio peixe, que os leva a crer que tudo sobre futebol deve ser feito da maneira como se faz na Europa.

Fato é que os profetas de ambos os lados defendiam a revolução conservadora que era feita na Gávea, que tirava a alegria do seu torcedor para transformá-la em lucros para os bancos. Era comum, entre 2012 e 2016, ouvir em canais diversos que o torcedor deveria aceitar os fracos resultados esportivos porque a diretoria estava pagando dívida, estava ficando bem-vista no mercado e isso, invariavelmente, levaria à montagem de um time que daria alegria ao povo. E os cornos dos torcedores aceitamos.

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Não se pode negar que os executivos do Flamengo alcançaram com louvor o seu objetivo de transferir aos bancos o dinheiro gerado pela paixão dos rubro-negros. No quesito “mercado”, estão de parabéns. Tem se falado também que a “estrutura” do centro de treinamento melhorou, que compraram máquinas, treinaram médicos. Ponto para eles no quesito “esporte”.

No quesito jogo, bem, não tem o que comemorar. De 2012 a 2017 – dois mandatos e cinco anos em que os azuis estão no poder –, ganhamos dois campeonatos cariocas (2014 e 2017) e uma Copa do Brasil (2013). Os resultados são melhores que os da péssima gestão de Patrícia Amorim (2010-2012), que ganhou só um campeonato carioca (2011). Na gestão anterior, de Márcio Braga (2007-2009), o Flamengo foi tricampeão carioca (2007, 2008 e 2009) e campeão brasileiro depois de 17 anos (2009). Isso quer dizer que Márcio Braga foi melhor que Patrícia Amorim que, por sua vez, foi melhor que Eduardo Bandeira de Mello? Não. Isso serve para comprovar que não há relação automática entre a forma como o negócio é gerido, a maneira como o esporte é tratado e o jogo de futebol. Qual outro argumento sustentaria o fracasso crônico do rico Arsenal, da Inglaterra?

Os pobres torcedores cedemos aos profissionais de mídia tudo que tínhamos: a forma de vivenciar nossa paixão. Passamos a celebrar boletos pagos, time de League of Legends, contratos de patrocínio, variação de moedas estrangeiras, porque os profetas da imprensa nos disseram que isso era parte fundamental para que tivéssemos um bom time. Isso se comprovou uma tremenda mentira, mas já era tarde demais. A austeridade é um pacote de maldades e, enquanto aprendíamos sobre câmbio flutuante e outras mitologias econômicas para poder bater um papo com outros rubro-negros, nem percebemos que o astronômico preço do ingresso (que para eles, me parece, é apenas um ativo) tornara-se impossível de ser pago pela magnética. E o Flamengo não tem por que existir sem a torcida.

Mas a torcida ficou covardemente calada. E, de repente, não mais que de repente, deu-se que a maior nação dentro de terras brasileiras aceitara a austeridade em troca de nada. Os white walker, que são burros, mas não são bobos, perceberam esse sinal dos tempos e botaram em marcha reformas neoliberais de fazer inveja a Carlos Menen, aproveitando a dica de que 25% da população já estava educada para perder direitos em troca de suposições sobre um futuro um pouco menos pior.

E foi assim que o fim do mais apaixonante clube que jamais haverá novamente serviu como ensaio geral para o desmonte do já nem tão includente Estado brasileiro.


Danilo Oliveira

31 de agosto de 2017