Por um futebol sem delação premiada

Josué Medeiros é flamenguista e diz que foi um centro-avante eficiente em seus tempos áureos (informação que não conseguimos confirmar antes do fechamento dessa edição). Professor de História e Ciência Política, disserta, aqui, sobre o que o gol de mão de Jô tem a dizer sobre o Brasil atual

Foto: Reprodução/Internet

O grande e imortal Darcy Ribeiro certa vez disse que “o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro”. Tal vaticínio, dramaticamente atualizado nas periferias das nossas grandes cidades todos os dias, entrou em campo na última rodada do campeonato brasileiro de futebol.

Há alguns meses, Rogério Ceni, então treinador do São Paulo, repreendeu seu zagueiro Rodrigo Caio por ter confessado uma infração que poupou o centroavante adversário Jô, do Corinthians, de receber um cartão amarelo. O ex-goleiro e projeto de treinador foi criticado e defendido na imprensa esportiva, tudo dentro da normalidade. Ninguém falou em “Lei de Ceni”. As comparações com o “problema ético” do Brasil até aconteceram, mas nada digno de nota. São palavras que se perdem no tempo excessivo das mesas redondas. Não foi a primeira vez nem será a última que besteiras são ditas nesses programas. Algo bem diferente do escândalo que se instalou essa semana por conta de um singelo gol de mão marcado pelo mesmo camisa 9 que protagonizou o lance acima.

O alarde em torno do gol ilegal do Jô diz sim muito sobre o Brasil. Mas não naquilo que o senso comum sobre corrupção canta aos quatro ventos, de que somos um povo maldito, hipócrita, condenado a queimar no fogo da corrupção pelo resto da existência. A despeito das ilusões da nossa classe média, há corrupção no mundo todo, incluindo nas gélidas terras mais ao norte. Nesse mesmo final de semana um jogador alemão (da quarta divisão) roubou a bola do adversário e fez um gol. Detalhe: o adversário deixou bola de lado porque havia um jogador – colega do infame que fez o tento – se contorcendo de dor.

O fato é que Jô não cometeu nenhuma atitude antiética. O que ele fez está dentro das regras do velho e violento esporte bretão e da ética que governa a ação dos boleiros. Temos uma equipe de arbitragem cujo mandato é validar ou não os lances. Se uma jogada ilegal qualquer é confirmada pelos apitadores não cabe ao jogador se denunciar. No futebol, são centenas, quiçá milhares de lances em que o juiz errou e nenhum jogador faz nada. É da vida, é do jogo. Jô foi atacado em praça pública por fazer algo que todo mundo faz, em uma sanha pró delação premiada que diz muito sobre o Brasil da seletividade e do linchamento coletivo, virtual ou concreto. Jô não é Ceni, tampouco é Neymar, que cansa (igualmente a qualquer atacante que faz gols) de bater e comemorar tentos em impedimento, ou de pênaltis inexistentes. Um dia, quem sabe, fará gol de mão também, e veremos os Galvãos Buenos se esgoelando em êxtase com o feito.

O brasileiro que condena o Jô nessa rodada, em geral, também condena o Maradona pelo gol mais sensacional da história do futebol, na Copa de 1986, contra os ingleses, logo após a Guerra das Malvinas. Não aquele em que ele dibra geral, chamado de Gol do Século, mas sim o gol “La Mano de Dios”. Mas não condena o Túlio Maravilha quando este, maravilhosamente, fez gol de mão sobre os argentinos na Copa América de 95. Tampouco critica o Nilton Santos pelo lance contra a Espanha na Copa de 1962, em que ele faz o pênalti, mas se adianta e sai da área, induzindo o apitador a marcar uma falta comum.

A seletividade no futebol não é exclusividade nossa. Os ingleses odeiam Maradona, mas se calam sobre a Copa de 1966, vencida com gol que não existiu pela Inglaterra. O que parece propriedade tipicamente nossa é passagem de um evento cotidiano – um erro de arbitragem – para uma sociologia que desvaloriza o Brasil e o povo brasileiro e para uma ação coletiva que criminaliza um jogador o que 100% dos demais jogadores fariam.

Jô é um bom atacante, de carreira confusa, com bons e maus momentos. Foi joia vendida ao rico futebol inglês, jogou Copa do Mundo, frequentou o banco de reservas em várias equipes e figurou nas resenhas criminalizado por fazer coisas (se divertir, beber) que quem o critica faz em paz, sem ouvir nenhuma lição de moral. Fala bastante, e com desenvoltura, e como sói ocorrer nesses casos, fala coisas que não devia, o que ajuda ainda mais a quem quer pegá-lo para Cristo. Nunca foi um produto de marketing e/ou queridinho da imprensa como o Neymar, o Ronaldo Nazário, o Robinho, o Ceni. Do contrário, esse lance teria passado batido, bem como algumas das idas e vindas da sua carreira.

Que as discussões futebolísticas sigam nos mobilizando enquanto povo. São parte da nossa construção enquanto coletividade, e o futebol está muito mais para solução dos nossos problemas do que causa ou sintoma do nosso fracasso. Ninguém imagina, por exemplo, que o Temer seja capaz de chutar uma bola ou que o Dória tenha feito uma embaixadinha na vida. Então paremos de culpar-nos, a nós mesmos, ao futebol “ópio do povo”, e, finalmente, deixemos o Jô em paz. Afinal, um camisa 9 existe pra fazer gol, e ele fez o que tinha que fazer. O juizão que vacilou. E em vez de pegarmos esse acontecimento para questionar a absurda gestão do futebol praticada pela CBF, perdemos tempo condenando o boleiro e nos condenando enquanto povo.


Josué Medeiros

25 de outubro de 2017