Retorno a Mateiros

Tiago de Aragão, grande cineasta, fotógrafo, antropólogo, pivô clássico no basquete, zagueiro inteligente no futebol, bom de copo, de papo e de olho, fez esse ensaio fotográfico na comunidade quilombola de Mumbuca, no Jalapão, em Tocantins.

 

Este conjunto de imagens marca um reencontro com um material bruto que julgava ter perdido descuidadamente, mesmo em tempos que, até em balcões de bar, escuto conselhos de desconhecidos sobre nuvens, armazenamentos digitais e precauções que eu, um pretenso produtor de imagens, minimamente deveria ter.

Passei anos lidando com fragmentos desse material e a certeza de que só me restava o que naquele tempo eu tinha impresso, compartilhado com amigos ou em redes sociais.

Eis que por obra do acaso, numa busca por aquele disco do Erasmo, encontro os 102 arquivos crus, tirados com a minha primeira câmera maneira, em meio às primeiras tentativas de lidar (dominar jamais!) com as variáveis de abertura e velocidade do diafragma, resultantes da possibilidade de fotografar no modo manual.

Como já esperava, a seleção do mês passado, que aqui apresento, não foi a mesma de seis anos atrás, como provavelmente não será a mesma de amanhã. No entanto me surpreendi, sendo o mais marcante deste retorno identificar no material bruto a busca constante pelo retrato, embora naquele momento o desejo de se forjar retratista estava deveras longe de se manifestar.

Mumbuca, onde realizei esses retratos, é uma comunidade quilombola situada ao leste do estado de Tocantins, mais especificamente no Jalapão, próximo ao município de Mateiros. Um território de muito pasto e pouco rastro.

Dona Miúda, Deusdete, Diolino, Dotora e Juracy são anciões dessa comunidade secular, reconhecidos por serem detentores tanto do conhecimento do território e toda a sua diversidade como pelo domínio do manejo produtivo das matas. Daí o termo Mateiros: o que sem bússola se orienta pelas matas.

Em tempos sombrios, ratificado por um governo entronado por meio de golpe parlamentar, Mumbuca e outros povos quilombolas e indígenas tem tido seus direitos constitucionais à terra ameaçados, desta vez, pela esdrúxula tese do Marco Temporal, atualmente discutida no Supremo Tribunal Federal. A resistência, assim como as histórias desses povos, não começa em 1988.

Não ao marco temporal!

 

Tiago de Aragão

31 de agosto de 2017