As várias faces de Loucas

Loucas Figueiras doce, forte e firme pelas lentes de Mari Vass

Mari Vass é uma fotógrafa incrível com uma mente inquieta. Foi ela quem melhor fotografou a naitchy de Brasília e também são delas alguns dos melhores retratos de artistas que já vimos por aqui. Há poucos meses decidiu se mandar da cidade em busca de outras aventuras e paisagens que, temos certeza, veremos em breve em grandes fotografias. Ainda bem que, antes de ir, fez esse ensaio lindo com a maravilhosa Loucas Figueiras para a Revista Seca:

Loucas Figueiras sempre foi uma pessoa que observei de longe. Mesmo que não tivéssemos tanto contato, havia algo em seu ser que brilhava e fazia meus olhos acompanharem seus movimentos. Esse brilho ainda está lá e acho que nunca irá partir.

Éramos colegas na graduação de Ciências Sociais. Ela sempre foi uma pessoa doce e de sorriso largo, mas havia um mistério em seus olhos, algo que não é tão fácil de acessar. Nunca fomos próximas, mas tínhamos amigos em comum, o que acabou facilitando que nossos mundos se permeassem de alguma forma. Ao longo dos anos, pude observar sua magnífica metamorfose, que aconteceu repentinamente aos meus olhos, mas sei que ela teve que percorrer muitos caminhos até chegar onde está.

No dia em que fui fazer as fotos na sua casa, falei ao porteiro que iria no apartamento de Loucas, e prontamente ele me corrigiu, perguntando se eu ia na casa do “fulano” (seu nome de batismo que vou omitir). Chegando lá, ela me recebeu com um café forte e conversamos um pouco sobre a nova fase de morar fora da casa dos pais e sobre os planos do futuro. Loucas é uma travesti – é assim que ela se apresenta –, ela me contou que já recebeu reclamação do síndico dizendo que a tinham visto andando de roupa íntima nos corredores do prédio – uma mentira e um reflexo do estereótipo desaguado no preconceito das pessoas que não fazem questão de conhecer o ser que habita aquela pele.

Loucas graduou-se em Ciências Sociais e agora está tentando um mestrado para continuar os estudos. Ela também canta – hipnoticamente bem, eu diria – e já tem até um disco recém-lançado, chamado Santa CDzinha do Pau Oco e que está disponível aqui. Futuramente, ela pensa em ser professora e trabalhar com arte de alguma maneira.

O que mais me chama a atenção em Loucas não é necessariamente o fato dela ser uma travesti, mas a coragem que ela tem de ser quem é. O mundo é cão, principalmente quando ele é habitado por pessoas que não têm tempo para entender o que é diferente do que elas aprendem na televisão aberta ou nos jornais de massa. Todo dia para ela é dia de dar a cara a tapa, ainda mais num país como o Brasil.

Geralmente, peço para fotografar pessoas nas quais enxergo algum brilho escondido, algo que, se lapidado, produzirá uma jóia bem bonita e brilhante. Loucas é uma dessas pessoas, pois sinto que de alguma forma ela veio ao mundo para nos ensinar muitas coisas.

A ideia desse ensaio é mostrar Loucas e suas várias facetas. Ao meu ver, é nítido que ela é um ser doce, forte, firme e petulante, que provoca com carinho, mas é firme quando precisa te dizer para qual caminho ela quer seguir. Uma sereia, uma cigana, uma bruxa de feitiços precisos. Há várias mitologias que a habitam.

Será que não temos todas um pouco de Loucas?

Mari Vass

29 de setembro de 2017