Zed

Um conto para a coluna Jogando em Casa

Foto: PublicDomainPictures/Reprodução com alterações

Zed Gonzales subiu se arrastando pelas escadas. Elevador de merda que está sempre em manutenção. Seis andares tortuosos e uma parada para vômito depois, chegou à sua porta, encostou na parede e procurou as chaves nos bolsos. Demorou um tempo para enfiar a peça certa na fechadura correta, tão estreita tarde da noite. Jogou seu paletó amarrotado e sujo em um canto, tirou os sapatos e andou com o ombro colado na parede até a cozinha, abriu a porta do armário e retirou uma garrafa de uísque, serviu uma dose generosa em um copo de requeijão e bebeu de uma vez só. O mundo parou por um instante e ele se sentiu bem, Deus está em um copo, filho da puta. Após a sensação passar, botou outra dose e caminhou lentamente, meio flutuando, até a sala, na esperança que o sujeito do sofá tivesse ido embora. Droga, ele está aí ainda. Desabou na outra ponta, entre as almofadas carcomidas, e se encararam.

– Zed, amigão. Como foi seu dia?

Que voz esquisita tem esse cara, parece um zumbido de pernilongo. Que vontade de tacar um soco nesse nariz fino de merda.

– Vamos lá meu chapa, você pode conversar comigo, não tem ninguém olhando.

– Você não existe, porra. – sussurrou entre os dentes.

Levantou com dificuldade, batendo a poeira do móvel, acumulada por meses e bebeu o resto do uísque, deixando o copo cair no sofá. Foi ao banheiro, girou a torneira um tanto enferrujada e lavou o rosto, sentindo o gosto de cobre da água turva. Se encarou no espelho e observou com cautela a imagem embaçada de um homem barbudo, sem cabelos e com rugas demais. Arreganhou os dentes, como num instinto primordial, tentando afugentá-lo, mas só viu uma careta engraçada, amarela. Seu maldito filho da puta. Desviou os olhos para o canto do espelho, onde via o reflexo da sala, o pernilongo o mirava com aquele sorriso de Monalisa, nem fede nem cheira.

– Você prometeu que ia embora! – gritou com voz rouca, respingando saliva no espelho.

– E você prometeu que me traria o dinheiro, Zed amigão. – levantou do sofá, caminhou até o corredor e encostou na parede de braços cruzados.

Como tem pernas finas esse cara, um chute bem dado e quebro elas no meio.

– Já cansei de lhe dizer que o dinheiro não existe, caralho. – Zed se virou, e agora o encarava de frente, percebeu sua própria respiração acelerada e os batimentos do coração na garganta. Será desespero ou loucura? – Nem você existe. – Passou por ele no corredor, espremendo-se para não tocá-lo, sentindo o cheiro de bolor da parede lisa.

– Existe sim, Zed. – começou a segui-lo pela casa. Suas feições e tom de voz não mudaram. Seria ele um robô ou boneco? Ou pior, o próprio demônio que viera cobrar os pecados?  – Quando éramos pequenos, vivíamos falando dele e nós…

– Nós, nós? Não existe nós. – Zed andava pra lá e pra cá, como uma fera enjaulada. A bebedeira já era um passado distante em sua cabeça. Foi até a cozinha e abriu novamente o armário, esticou o braço e puxou a garrafa. Andou até o paletó e pescou dos bolsos um frasco, abriu, chacoalhou três compridos até sua mão e os jogou na garganta. Retirou a tampa do uísque e deu uma grande golada direto do bico. Por um segundo, sentiu paz. O diabo está na garrafa, porra.

– Zed.

– O que?

– O dinheiro.

Os olhos de Zed rolavam nas orbitas, a pulsação batia no topo da cabeça e sua nuca estava fria, como uma cachoeira, o suor brotava de todos os poros. Os vermes em sua barriga faziam uma festa tenebrosa. Deus, me ajuda. Tomou mais uma talagada da bebida. Fitou o sujeito da melhor maneira que conseguiu. Olha só esse pescoço branquelo, preciso de uma faca.

– Quem é você? Sério mesmo.

– Sou seu amigo, Zed meu chapa.

Foi andando para trás até bater na parede, a garrafa quebrou e um caco cravou na sola do pé. Apoiou suas costas e escorregou até ficar sentado, em cima de alguns estilhaços. A visão estava mais embaçada e sentiu alguma coisa quente escorrer entre os pelos do bigode. Estou chorando? Que cuzão. Olhou para o pé ensanguentado e puxou o pedaço de vidro, que teimou para sair. O sangue vertia com alegria. Isso está feio, vou morrer feito um cão. Retirou a camisa, empapou com o uísque espalhado e enrolou no pé. As lágrimas secaram, os olhos foram fechando e tudo ficou distante.

– Levanta logo moleque! Tá pensando que sou sua empregada? – A mão desceu com força em sua cara e o menino acordou com um susto. O cheiro de cigarro logo pela manhã embrulhou seu estômago. Levantou rapidamente e correu para o banheiro, desviando da mãe, que quase lhe acertou outra bofetada.

– Você tem cinco minutos, senão vai para a escola a pé.

Mijou o que pôde, jogou água no rosto e correu de volta para o quarto se enfiar no uniforme do dia anterior, que estava jogado no braço da cadeira de metal descascado. Foi andando e vestindo a camisa ao mesmo tempo, em direção à porta da casa. Merda, a mochila. Voltou e saiu novamente, ainda em tempo de ver sua mãe arrancar com o carro. Filha da puta.

Jogou a mochila no chão e entrou de volta na casa. Abriu primeiro a geladeira, nada. Depois os armários, nada. Encheu um copo de água da torneira, bebeu devagar e partiu rumo à escola.

À espera para atravessar a rua, alguém jogou meio cigarro ainda aceso pela janela, que rolou até seu pé. O menino esperou o carro sair e as pessoas atravessarem a faixa, abaixou e pegou o fumo, encaixou entre os dedos, imitando sua mãe. Não deu uma única baforada e saiu gingando.

Passando ao lado de um muro pichado e de estado lamentável, que rodeava um terreno com mato alto, topou com um grupo de meninos uniformizados e cabelos espetados, a um quarteirão da escola. Droga, bosta. Tentou atravessar a rua, mas já estava cercado.

– Olha só, é aquele bostinha de nome engraçado.

– Cadê sua mãe, aquela gostosa? Deve tá chupando o pau de alguém agora mesmo.

– E esse cigarro aí? Descola um pra gente.

– Olha a camisa dele, você veio de carona com o caminhão de lixo?

– Sabe o que seria engraçado? Aparecer na escola sem as calças.

Agarraram seus braços, o cigarro caiu no chão. Agitou as pernas violentamente e acertou um chute no queixo de um, que reagiu dando um belo soco em seu estômago. O menino se dobrou e vomitou no pé de outro, rendendo uma bicuda em sua testa. Quando ficou esticado no chão, se aproveitaram e tiraram seus tênis, calça e cueca e jogaram do outro lado do muro. Lágrimas verteram de seus olhos.

– Está chorando? Que cuzão. – gargalharam e correram para a escola.

O menino se arrastou até perto do muro e sentou. Esticou sua camisa cobrindo as pernas e abraçou os joelhos. O cigarro estava perto, sobrevivera a tudo aquilo ainda aceso. Colheu a bituca e soprou um pouco, observando as brasas flamejarem, vermelhas. Vou juntar muito dinheiro e mandar matar esses filhos da puta. Colocou na boca e deu uma longa tragada. Em meio à fumaça, viu um garoto se aproximar.

– E aí Zed, amigão. – a voz era estridente demais.

Abriu os olhos com dificuldade, primeiro sentiu o pé latejar, como uma bomba. Depois a cabeça rodopiar e uma dor nas têmporas como se estivessem sendo esmagadas por uma morsa. Olhou para o sofá e o cara branquelo de pernas longas e finas estava sentado confortavelmente e olhava para as unhas. Deus, preciso beber.

Demorou uma meia hora para levantar, mancou até a cozinha. Abriu o armário, nada. Abriu a geladeira, nada. Abriu a porta do freezer, nada.

– Você acabou com a vodka ontem, Zed. Tá lembrado?

Olhou no cesto de lixo e viu a garrafa vazia e meia dúzia de latinhas verdes. Sentiu uns espasmos no braço esquerdo. Se abaixou e retirou do armário de baixo da pia uma garrafa plástica com tampa vermelha.

– Vai beber álcool, meu chapa?

Desrosqueou a tampa e levou o gargalo à boca, solvendo um pouco do líquido. Dá para beber. Deu três grandes goladas, até quase golfar. Um tornado passou por seu cérebro, que o fez perder o chão e cair, batendo a cabeça com força na quina da mesa. Sentiu o piso frio em contato com a bochecha, contrastando com o sangue quente que escorria e lhe fazia cócegas na orelha. Agora, sim, vou morrer. Mas não aconteceu nada, ficou acordado todo o tempo até a tempestade se acalmar.

– Zed meu chapa, tudo bem aí?

A faca, preciso da faca.

Levantou com dificuldade, um bate estaca do tamanho da lua ritmava a Quinta Sinfonia entre seus olhos. Jogou seu corpo para a frente e se segurou na pia, abriu a segunda gaveta e vasculhou os utensílios até que seus dedos tocaram em um cabo de madeira um tanto gasto. Puxou para fora uma faca e a posicionou na mão direita com a lâmina para baixo, apertando com força. Sorriu.

Mirou a sala, e primeiro em passos curtos, começou a andar. Quando toda a visão do sofá abriu em seu horizonte, acelerou. Mas o corpo não acompanhou o pensamento e a perna que mancava foi à frente e se abriu quase num espacate, seus braços se desesperaram e fincou a faca em sua própria coxa, até metade da lâmina. Inacreditável. Todo torto no chão, puxou com força o cabo e como um chafariz do inferno, o sangue saltitava. Ainda incrédulo, pousou as palmas das mãos em cima do buraco e apertou com força. Olhou para frente e o sujeito estava agachado bem perto, com cara de pena. Finalmente uma expressão.

– Zed amigão, a coisa toda não vai bem para o seu lado, desde muito tempo, se me permite dizer. – Coçou o queixo com as costas das mãos. – E ainda tem o dinheiro.

– O dinheiro, eu vou arrumar o dinheiro.

Zed levantou por um milagre. O torpor era tanto que não sentia dor. Se arrastou até a cozinha, jogou álcool nos ferimentos, bebeu um gole e foi até onde estavam seus sapatos e paletó. Só conseguiu calçar um pé e vestiu o casaco sem camisa mesmo. Tudo bem. Achou as chaves, abriu a porta e saiu para o corredor do prédio. Sem luz, foi até a porta do elevador e apertou o botão, a porta abriu de imediato. Que sorte. Deu um passo para a frente e caiu no vazio.

O barulho começou a incomodar. O que é isso? Parece água pingando numa caverna. Agora acelerou. As pálpebras pareciam coladas, fez muito esforço para abri-las e a luz artificial incomodou, tentou levantar os braços para tapar as vistas, mas não conseguiu. Demorou para se acostumar e os olhos lacrimejavam muito. Não viu seu corpo, estava coberto com um lençol, sentiu um desespero, pois também não o sentia. A cabeça mandava o pé mexer, mas ele não obedeceu. Virei um anjo?

Desistiu do corpo e passeou os olhos pelo lugar, tudo era branco e limpo. Nunca em sua vida estivera num lugar assim. Viu aparelhos estranhos, canos coloridos correndo pelas paredes, nenhuma janela. Ao lado tinha outras camas, e em cima delas, pessoas calmas e tranquilas, com tubos enfiados em suas goelas e agulhas espetando seus braços. Sentiu uma fome enorme, e sede. Devoraria um cavalo e beberia uma bacia de água. Quanto tempo estou aqui?

Na parede oposta, viu uma poltrona, ocupada por uma pessoa que tamborilava os dedos no acento, de pernas cruzadas e bem vestida com um paletó preto. Olhava para Zed com ternura, que o fez se sentir bem e em segurança. Como um irmão que não via há muito tempo, queria apertar sua mão e perguntar como estão as coisas. Será que ele me conhece? O sujeito esticou as longas pernas, levantou e pousou ao lado da cama, encostou a mão na testa de Zed, quase um carinho. Puxou de um bolso interno do paletó uma bituca de cigarro, ainda acesa. O pouco tabaco ardia e soltava uma fumaça sem cheiro. Depois puxou o lençol até a altura da cintura e colocou o fumo entre os dedos do acamado, apertou de leve seu pulso, caminhou para trás e desapareceu em meio à fumaça.


Mateus H. Zanelatti

26 de novembro de 2020