Plurais, mudanças, objetos essenciais

O escritor Paulo Raviere saiu do sertão baiano para ficar em São Paulo por tempo indeterminado. E mandou para a Revista Seca algumas notas que tomou no seu novo domicílio.

Tucuruvi

Há oito meses me tornei um contrabandista. Em fevereiro saí do sertão baiano para ficar em São Paulo por tempo indeterminado. Talvez algumas semanas; talvez o resto da vida (afirmação vazia, uma vez que não faço ideia do quanto viverei). Vim com uma mala e uma mochila. Não sabia o tamanho do espaço que dividiria com minha amiga, mas sabia que era pequeno e que na casa já tinha tudo. Assim, trouxe apenas o essencial: meu computador, roupas, duas dezenas de livros. Agora, sempre que alguém vem ou vai para a Bahia, arrumo um jeito de contrabandear uma sacola com alguns volumes. Por sorte, os fiscais e os cães farejadores das divisas ainda não descobriram que hoje em dia um Faulkner da Cosac deve estar custando mais que meio quilo de cocaína.

Tigela

Quando saímos de casa num belo fim de tarde, entre as quatro e as seis, largamos a personalidade pela qual os amigos nos reconhecem e nos tornamos parte desse grande exército republicano de caminhantes anônimos cuja companhia é tão agradável após a solidão do próprio quarto. Em casa nos sentamos cercados dos objetos que expressam perpetuamente as esquisitices de nossos próprios temperamentos e reforçam as memórias da própria experiência. Aquela tigela no consolo da lareira, por exemplo, foi comprada em Mântua num dia de muito vento. Já estávamos saindo da loja quando a velha sinistra nos puxou pelas roupas e disse que ia acabar morrendo de fome um dia, mas “Podem levar!”, gritou, enfiando em nossas mãos a tigela azul e branca, como se jamais quisesse ser lembrada de sua generosidade quixotesca. Assim, com certa culpa por um lado, mas por outro desconfiando de ter levado a pior, voltamos com a tigela para o hotelzinho onde, no meio da noite, o porteiro teve uma briga tão feia com a mulher que todos nós nos debruçamos sobre o pátio para olhar e vimos as videiras enlaçando as colunas e estrelas brancas no céu. (Batendo pernas nas ruas: uma aventura em Londres, Virginia Woolf – tradução: Leonardo Fróes.)

Satanás

Não acredito em Deus, mas tenho certeza que o Satanás existe. Tamanha convicção não deriva de nenhum credo: não sou satanista. Reconhecer sua existência em contraste com a certeza da inexistência de um Deus não é, per se, adorá-lo. Se tenho tanta certeza que o Satanás existe, é simplesmente porque sou brasileiro. Creio que vocês também são, quase todos. Ele não; não podemos falar, por analogia ao “deus é brasileiro”, que somos conterrâneos do Satanás. Isso porque ele próprio, o Satanás, é o Brasil. Isso mesmo, vivemos num gigantesco Satanás. Lá no fundo todos nós, brasileiros, sabemos disso. Não quero dizer que dentro de cada um habita um anjo e um demônio, como nos desenhos animados, ou em qualquer baboseira semelhante proferida de modo mais esotérico, como metáfora a aludir que quase sempre podemos escolher entre o bem ou o mal. Calhou de nascermos brasileiros sem escolher. Não é o Satanás que mora em nós. O mal não foi opção. Tampouco sou fatalista a ponto de afirmar que aqui é o pior lugar do mundo, pois o Inferno deve ser pior, e aqui não é o Inferno, é o Satanás. Nem é exatamente o espaço geográfico. O Satanás, bem sabemos, é uma força simbólica que nos persegue onde estivermos. Ou seja, podemos cruzar as fronteiras, mas não sairemos do Satanás. O Satanás não nos deixa quieto em nosso canto fazendo o que gostamos. O Satanás enche nosso saco para opinarmos sobre o que não nos interessa. O Satanás fala mal da gente pelas costas. No Satanás precisamos ir para um lado e para o outro por causa de um carimbo. Sempre que conquistamos algo o Satanás conspira para que o percamos adiante de modo aparentemente casual. No Satanás pairou a promessa de um futuro que nunca chegava. Gerações de Sísifos sonharam que um dia a pedra ficaria parada no cume da montanha, aí o Satanás descobriu que se divertia ainda mais com a promessa longeva da impossibilidade de um futuro. No Satanás a palavra distopia não significa nada. Encaramos o Satanás e desviamos os olhos fingindo não ter visto o que há dentro de suas órbitas oculares. Desejamos abandonar o Satanás e só parar para pensar no assunto uns trinta anos depois. Mas não há o que fazer, habitamos o gigantesco Satanás do mundo. Nisso sou intransigente. Assim como não sou capaz de acreditar em Deus, não há quem me convença que o Satanás não exista.

Nós

Usamos a primeira pessoa do plural para denotar certa impessoalidade. Percebam que acabo de fazer isso na frase anterior, com a palavra “usamos”. Quem “usamos”? Eu, Woolf e Danilo? Não. Nós, as pessoas, usamos. Eu, pessoa, me dirijo a vocês, também pessoas (suponho). Tal procedimento é bastante utilizado nos textos acadêmicos, em que certa imparcialidade é recomendada. Numa primeira impressão parece ser essa a intenção de Woolf ao usar a primeira pessoa do plural para narrar suas perambulações por Londres. Ela aparenta querer falar de todos aqueles que inventam pretextos para sair de casa à tardinha. Creio ser difícil negar que Em casa nos sentamos cercados dos objetos que expressam perpetuamente as esquisitices de nossos próprios temperamentos e reforçam as memórias da própria experiência nos traduz perfeitamente. Todos temos nossos objetos essenciais, mesmo quando seu valor para os outros é nulo. No entanto, apesar da primeira pessoa, Woolf descreve coisas muito, muito específicas. Uma tigela comprada em Mântua, no trecho, e depois uma anã que experimenta sapatos, uma corcunda na sarjeta, um alfarrábio de livros esquecidos. Ela não fala pelas Pessoas. Seu plural me parece mais uma maneira de falar de si mesma com algum distanciamento. Notem, por fim, que quando o “nós” é realmente plural – Woolf e outrem – ele se transforma em “todos nós”, o porteiro teve uma briga tão feia com a mulher que todos nós nos debruçamos sobre o pátio para olhar.

Butantã

Há poucas semanas fui obrigado a fazer duas mudanças: de moradia e da minha noção de essencial. Antes, essencial era apenas o singular, os objetos particulares sem os quais não nos reconhecemos como indivíduos. Cartas enrugadas por lágrimas, um poderoso imã ganhado na infância, os sapatos que estraguei ao subir uma montanha de lama e neve, uma rolha de vinho do porto, uma camisa com listras de cobra coral, minhas publicações impressas, e livros, muitos livros, a poesia completa de Eliot, Sodoma e Gomorra de Proust, os ensaios de Thomas de Quincey ou o Ex Libris, de Anne Fadiman, o livro mais saboroso que existe. Então me mudei para um quarto mobiliado sem nenhum utensílio e vi a importância dos objetos ordinários, aos quais não damos nenhuma atenção. Experimente se barbear sem um espelho, tente passar manteiga numa torrada sem uma faca. Agora quanto mais ordinário mais me parece essencial. Saint-Exupéry estava errado ao afirmar que o essencial era invisível aos olhos; não apenas podemos vê-lo, como também manuseá-lo.


Paulo Raviere

31 de outubro de 2017