O Jantar

Divórcio e recomeço no Brasil de 2016

Arte: Sarah Sado

“Você desce na estação central, sai do metrô, vira à direita na banca de revista e anda três quadras, uns cinco, seis minutos no máximo. É o prédio entre o café e a loja de estofados. Bem em frente ao prédio da Federação. Vou te esperar na portaria”.

Pertinho do metrô, ela pensou satisfeita.

Algumas horas depois daquela ligação, já no apartamento, quando o corretor disse o preço do aluguel, ela pensou que, finalmente, a sorte havia começado a mudar. Lembrou-se das noites que passara assistindo aos torneios de Texas Hold’em na televisão, enquanto amamentava o neném e velava, desgostosa, o sono pesado do marido, fez a melhor pokerface que pôde e, na esperança de conseguir negociar o preço, disse que precisaria pensar, que não sabia se estava disposta a arcar com aquele custo por um apartamentinho deste tamaninho.

O corretor sorriu, percebendo o blefe, e respondeu que se ela olhasse na internet não encontraria nenhum outro imóvel, naquela região e com aquela metragem, que não fosse pelo menos um terço mais caro. Com sua grosseria discreta, típica dos homens de negócio, ele retirou o smartphone do bolso e, alguns cliques depois, mostrou uma quitinete bem menor, no próximo quarteirão, quatrocentos reais mais cara. Ela não desistiu da jogada inicial e contra-atacou perguntando:

– Por que, então, esse aqui é tão mais barato? O que ele tem de ruim?

– Nada, nenhum problema estrutural. Veja bem, é um belo conjugado de 42 metros quadrados, dividido, do lado do metrô e no coração do centro da cidade, perto de tudo, das melhores empresas, dos melhores comércios, das boas escolas e dos hospitais de ponta. O imóvel está ótimo, como você viu, o edifício trocou há três anos toda a parte elétrica e hidráulica, e esse apartamento aqui é um achado, por mais que tenha alguns detalhes pra fazer, como desemperrar o basculante do banheiro, mas isso é coisa simples, só passar um WD. Veja bem, o apartamento foi reformado há menos de dez anos.

– O proprietário quer fazer uma caridade, então?

– Não, até parece. Não tem almoço grátis.

– É por isso que eu preciso saber o que tem nesse apartamento que faz com que ele seja mais barato que os outros da mesma região.

– Veja bem, alguns colegas de profissão não te diriam isso, mas eu, acima de tudo, prezo pela honestidade com os meus clientes. Eu quero fechar negócios que sejam bons pra mim sim, é claro, mas não há dinheiro no mundo que me dê mais satisfação do que ver um cliente feliz e realizado. Isso aqui é mais do que a minha profissão, é a minha vida, eu levanto cedo da cama, dia após dia, para ser o realizador de negócios que sejam bons para todas as partes envolvidas. Veja bem, a verdade é que todos os apartamentos desse quarteirão caíram um pouco de preço nesses últimos tempos. A senhora tem visto os jornais?

– Não.

– Nunca?

– Nunca.

– Sério?

– Arram.

– Ok. Mas a senhora sabe das manifestações?

– Sei.

– Mesmo sem ver os jornais?

– Todo mundo só fala nisso, no trabalho, no transporte, nos grupos de WhatsApp.

– E a senhora não sente vontade de se informar melhor?

– Não muita.

-Enfim, eu acho que a senhora… Deixa pra lá. Então, desde que a Federação dos Industriários, Banqueiros, Produtores Rurais e Empresários das Telecomunicações, que é aqui na frente, passou a servir de base para as manifestações – o que eu, como cidadão, acho justo, pois temos mesmo que tirar esse governo corrupto, custe o que custar – esse quarteirão tem que conviver com alguns manifestantes, de vez em quando, até uns carros de som. Pelo menos eles são pacíficos, não arrumam confusão com a polícia, não têm aquele negócio de quebrar vidraça nem nada, é uma galera mais esclarecida, né, mas, enfim, a senhora sabe que, em uma cidade como a nossa, o silêncio valoriza os imóveis e o barulho desvaloriza, né?

Nesse momento ela teve que olhar para o teto para segurar a vontade de rir. Esse povo não conhecia barulho de verdade: nunca ouviram o trem de carga que passava quatro vezes por dia, duas de madrugada, há duzentos metros da casa onde ela nasceu e morou até se casar – um barulho tão alto, tão estridente, que até mesmo os velhos que moravam ali há mais de trinta anos não conseguiam se acostumar e ainda se assustavam e se vingavam praguejando contra o maquinista, contra o trem, contra a porra daquela vila. Esse povo que não conhece barulho, nunca escutou as máquinas velhas que ela operava, em regime de plantão, 12 por 48, fazendo ressonância e tirando raio-x dos pacientes em um hospital público que estava sempre cheio e, ele sim, ruidoso, cheio de gritos de dor de raiva de ameaça, máquinas operando, macas quebrando, vassouras varrendo, doentes tossindo e novas viúvas chorando em meio ao cheiro de sangue, plástico e essência de eucalipto.

Como alguém poderia se incomodar com um grupo de pessoas gritando umas coisas, uma ou duas vezes por mês, debaixo do seu prédio, por não mais que algumas horas? Ela não sabia responder, mas agradeceu em silêncio a esse incômodo que propiciou o milagre de alugar um apartamento no centro da cidade por um preço não exorbitante. Otimista, pensou que na primeira oportunidade iria a uma dessas manifestações para ouvir o “barulho” de perto.

Se o barulho ela tirava de letra, com o silêncio não tinha arrego, principalmente o silêncio da casa da mãe, imposto pela velha a sussurros roucos de cala-a-boca, para onde teve que se mudar com os filhos depois da separação. A velha não suportava os netos, não suportava a filha, não suportava a artrite, a gastrite, a diabete, só aceitava ainda estar viva graças ao seu povo ungido, aos sermões eternos, aos profetas da televisão, ao Deus do Velho Testamento, enfim, àqueles que lhe forneciam argumentos para que ela continuasse a se achar superior a todos os demais e, por isso, missionária de uma autoridade santa. Daí que, nos últimos meses, todo santo dia, tinha que dizer às crianças que não pode fazer barulho, não pode abrir a geladeira, não pode fazer nada, nunca, psiu, a vovó tá brava, a vovó tá sempre brava, mas já já a gente vai ter um lugar só pra gente.

O casamento era menos pior do que a casa da mãe, mas tão insuportável quanto. Foram quinze anos mornos, sem nenhum tipo de paixão, nem sexo, nem carinho, nem raiva, nem ódio. Anos que se arrastaram lentamente sob um arco-íris de tons pastéis. O marido era preguiçoso e desinteressante, não dividia as tarefas domésticas e não conseguia crescer no trabalho, não se interessava por nada e tampouco reclamava de algo. Apesar de enfadonho, era um cara correto, relativamente bom com as crianças (não batia nelas, não gritava, levava pra escola e de vez em quando pra jogar um futebol no campinho).

Nunca foram apaixonados. Ela engravidou no terceiro encontro e decidiu que teria o filho – ele, então, propôs que morassem juntos. E assim passaram os quinze anos, com alguns bons momentos (a viagem de carro para Governador Valadares, o banho de chuva no ano-novo, uma trepada no cinema) e nenhuma tragédia. Seguiram assim até o dia em que ela, antes de dormir, virou para ele e disse que achava que deveriam se separar e ele, de pronto, consentiu calado, com um aceno de cabeça.

No outro dia começaram a tratar da burocracia: arrumar um advogado para dar a entrada nos papéis, devolver a casa para a imobiliária, arrumar um frete barato pra levar os móveis pra casa da mãe. Graças a Deus as crianças estudavam no centro, e tanto a casa em que moravam quanto a casa da mãe, mesmo em extremos opostos da cidade, ficavam à mesma distancia da escola. Como trabalhava em regime de plantão, combinou com o agora ex-marido que dividiriam a guarda das crianças – todos os dias em que ela estivesse no trabalho as crianças estariam com o pai, e também dois finais de semana por mês.

Precisava tanto sair da casa da mãe e, assim, reinaugurar a si mesma, que pegou as chaves do apartamento no dia seguinte em que fechou o negócio, optando por deixar um cheque calção no valor de um mês de aluguel para substituir a exigência de fiador e, assim, acelerar o processo. Por ser feriado, seu filho mais velho foi dormir na casa do melhor amigo, um garoto que ela adorava mesmo desconfiando que estava aplicando seu filho na maconha, pois todo mundo sabe que ninguém passa o dia todo andando de skate debaixo de um sol de lascar sem ter fumado um negocinho, mas tudo bem, quer dizer, ela não ia internar o menino por uns baseados, ela também já tivera seus momentos e a tatuagem que tinha no cóccix de uma fada verde sentada sobre um cogumelo era um indício incontestável desse passado. O único temor era que meninos como seu filho e o amigo podiam sumir a qualquer momento, sumiam milhares deles por dia, ela sabia muito bem disso, mas lutava para evitar esse pensamento e não cair na paranoia. A filha mais nova fora com pai para Minas, visitar a vó que estava meio adoecida.

Com as chaves do apartamento, foi fazer uma primeira faxina e sentir a boa energia da nova casa. Levou os produtos de limpeza, uma caixa de ferramentas, uma pen drive com músicas, uma caixinha de som e seis latinhas de cerveja. Ao som de Prince, começou a missão de reconhecimento. A cada parafuso meio solto, respondeu com a chave de fenda. Fez todos aqueles pequenos reparos que os homens em geral acham que são os únicos capazes de fazer e, feito, passou a limpar, a dar uma faxina daquelas na nova futura moradia – um serviço do qual os mesmos homens em geral fogem. A casa ficou um brinco.

Aproveitou para se mudar enquanto a velha estava no culto. Mentiu para as crianças que depois voltariam pra agradecer à vovó, enquanto pensava que, se dali em diante tudo desse certo, não iria ver a velha nunca mais, nem no velório. A caçula adorou a ideia de morar em um edifício, achou tudo muito bonito e se divertiu subindo e descendo as escadas. O primogênito ficou meio assim, não gostava de estar longe dos amigos, em um lugar sem crianças brincando na rua, e, além disso, o apartamento era muito pequeno, não teria um quarto, nem mesmo um canto, e, constatado isso, não conseguia parar de pensar em como faria para tocar suas punhetas. Ela, como se pudesse ler os pensamentos do filho, prometeu que, assim que sobrasse uma grana, compraria um biombo para que todos tivessem mais privacidade, só precisariam ter um pouquinho de paciência até as coisas se arrumarem.

Já fazia um ano que estava separada e quatro meses que morava no centro quando ela aceitou a sugestão de uma colega do trabalho e baixou um aplicativo de paquera para o celular.  Nos primeiros dias nem sequer se registrou, não entendia direito o funcionamento da coisa e achava meio esquisito esse negócio de se colocar na internet como quem se coloca em uma prateleira. Com o tempo a carne falou mais alto que o espírito e ela voltou à ativa com uma bela foto de corpo inteiro e uma descrição verdadeira e sucinta: divorciada, mãe de dois filhos, área da saúde, black music dos 70´s e 80´s. Decidiu que aceitaria se comunicar com homens entre 30 e 50 anos. Deu match com uns 3, só gostou mesmo do papo de um – que também gostava de soul music. Combinaram de jantar na sexta.

Ela deixou as crianças com o pai e aproveitou para se depilar num salão de beleza que ficava por lá, já que os preços eram muito melhores que no centro.  Já em casa, provou várias roupas, algumas que nem se lembrava que tinha, incluindo umas lingeries com mais de três anos e ainda sem uso, graças ao pouco interesse que tinha por seu marido. Decidiu-se por um belo vestido vermelho combinando com o batom, o cabelo crespo solto e uma sandália preta.

Desceu as escadas ouvindo Marvin Gaye no fone, disco que, se tudo desse certo, ouviria novamente mais tarde, na cama, acompanhada. Gostava de som alto, mesmo contra as recomendações dos otorrinos, e foi por isso que não pôde ouvir os gritos de “macaca, puta, vagabunda, comunista” que antecederam o soco que um manifestante desferiu em sua nuca. Cambaleou alguns metros, debaixo de socos, chutes e cusparadas de patriotas enfurecidos, homens, mulheres, velhos e adolescentes, com a camisa do Brasil e bandeiras brasileiras enroladas no pescoço. Não se sabe como, mas ela conseguiu escapar para a estação.

O povo do metrô nem reparou quão desfigurada ela estava ao entrar no vagão e muito menos percebeu o exato momento em que ela perdeu a consciência. 


Danilo Oliveira

14 de junho de 2017