O Cão e o Rio

Um conto para a coluna Jogando em Casa

Foto: skeeze/Reprodução com alterações

Pau-a-pique por detrás das montanhas dessas Gerais. Se a intenção do Homem era se distanciar de tudo, poderia ter se poupado metade da caminhada — e ainda assim. Nada ali, além do Rio Corrente e das árvores ao redor.

O Cão viera sem ser chamado. Poderia ter ficado lá, para trás, mas veio sem ter de considerar uma segunda vez. Ainda antes do Sol apontar lá no horizonte de curvas que se amontoam, o Homem já se preparava — com o mínimo para a jornada de proporções desplanejadas. Despedia-se em absoluto silêncio da casa e da vida quando tomou nota do Cão, ao seu lado, despedindo-se também. Fazia frio. Roupa, só a do corpo: uma jaqueta grossa, de couro, sobre a camisa de botões; calças cinzentas de surradas, abraçadas por um cinto preto; alpargatas de solados finos, finos; um chapéu. Além das vestimentas, trazia também uma coberta quente, de retalhos; uma cumbuca; vara pra pesca; corda; um facão bem amolado, um canivete melhor de manejar e igual fio, e a espingarda para até doze emergências, se a pontaria for precisa. A companhia do Cão foi muito que bem-vinda, foi. Partiram.

Foram caminhando sem pressa por semanas. Sempre que cruzavam com alguém, a viagem se prolongava por mais um número de dias. Iam indo, apenas — até onde, ignoravam. O Cão compartilhava da determinação do Homem, dia e noite. Não se falavam — concordavam que era desnecessário. Comiam o que encontravam pelo caminho, e não carregavam provisões. Quando se assentaram naquela beira do recém-nascido Rio Estreito, o Homem já tinha fabricado um furo a mais no couro de seu cinto.

Construíram a pequena cabana com madeira, barro e paciência. Dormiram sob manto negro do céu até que terminaram a obra; e depois, mais tantas outras vezes por gosto. Corda no chão para evitar o arrasto próximo das cobras, e as estrelas tantas lá no alto — a brilhar. Nunca, nem uma palavra. Acordavam com o Sol. O Homem preparava a pesca, e o Cão se desprendia do amigo para ir buscar no mato a sua parte na colaboração. No reencontro, faziam fogo e compartilhavam do que haviam conseguido. Depois, se banhavam nas águas frias; iam pela margem até lá no alto; olhavam as águas correrem. Iam vivendo.

Nenhum dos dois saberia precisar por quanto tempo tinham estado ali — questão de meses ou anos? Isso nem tampouco importava, não havia prazo. Os dias iam se repetindo para os dois, que viviam sem fazer menção de outros dias quaisquer.

Numa dada manhã, o Cão foi mato adentro enquanto o Homem pescava e voltou com uma bola, não mais do que meia hora depois. Bola de meia — firme; comum nas queimadas das infâncias. O Homem dividiu com o companheiro o pequeno peixe que conseguira naquela manhã, e depois jogou longe a bola para ele ir buscar, feliz. A brincadeira rendeu por alguns dias, até que numa chuva, o Rio Veloz agarrou a oportunidade de levar a bola consigo. Pro mar?

No dia seguinte, o Rio Alto. O Cão trouxe do mato um livro de substituto. Com exceção do molhado da saliva, estava novo, o Homem observou. Não tinha figuras, no entanto. Mesmo assim, guardou-o dentro da cabana para protegê-lo da chuva e da boca do companheiro. Passou a levá-lo debaixo do braço nas caminhadas lá para o alto. Sentado numa pedra, observava as águas correndo e via as palavras flutuando. Imaginou mil histórias para preencher aquelas páginas todas.

O cão se cansou de abanar o rabo esperando que o amigo lhe lançasse o livro — foi para o mato. Voltou quando já era noite, e encontrou o Homem dormindo com os pés na água, abraçado com o livro; deitou-se ao seu lado para dormir também. Quando o Sol se levantou, os pés do Homem já estavam secos, em terra, mas o livro tinha navegado a correnteza. Acordando, deu falta e pôde apenas imaginar as histórias que explicariam o sumiço. O Rio Suspeito. Se desfez das teorias e percebeu o cão mais a garrafa ali, ao seu lado — ambos dourados; dormiam ainda. Esticou o braço. Destampou. Cheirou.

Não conseguiu pescar naquele dia. Teve de ir se deitar na cabana, se escondendo do Sol — dois goles, só.

No dia seguinte, pescou antes de ter com a garrafa. Dia bom, a pesca muito rendeu. Comemorou. Dançou em volta da fogueira; agarrou o companheiro, e beijou seu focinho; buscou a espingarda e deu três tiros para o alto. Dormiu antes do Sol baixar. Não se lembrou de coisa alguma no dia seguinte, mas quando percebeu a arma lá fora, mais a munição reduzida, decidiu que era necessário bastar. Lançou a garrafa meio dourada no Rio Transparente. Tamanha foi a força, que quase acertou a outra margem. Assistiu às águas afastarem-na de si. Pôs-se a pescar. Foi.

Sentiu falta do companheiro. Buscou-o com os olhos atrás de si; não assobiou. Se divertiu tentando adivinhar o que ele traria de dentro da mata dessa vez. Se censurou a alguns pensamentos, riu-se de outros, e renunciou à brincadeira quando doeu. Logo mais, o Cão surgiu sem fazer barulho. Veio vindo manso, sem querer atenção, como se temesse sem poder evitar. Mordia com suavidade — trazia com cautela. Depositou aos pés do Homem, que recolheu do chão apressado pela curiosidade. E reconheceu.

Atirou no Rio Negro. O Cão foi atrás. Correnteza fraca — ganhou a mesma margem alguns poucos metros abaixo. Tornou a trazer — tinha-que. O Homem recusou. Chutou; sem efeito. Alcançou um pedaço de pau e deu com ele no Cão, que caiu, mas não largou. Bateu com força mais outra vez e, então, conseguiu arrancar da boca amolecida do bicho para jogar outra vez no Rio Vazio.

Ferido e em silêncio, o Cão se arrastou até a água.

Foi buscar.


Frederico Pena Santiago

1 de outubro de 2020