José Wilker

Um conto para a coluna Jogando em casa

Foto: Internet/Reprodução com alterações

Eu olhei nos olhos de José Wilker. José Wilker me olhou nos olhos. Eu olhei nos olhos de Janick Gers. Janick Gers olhou nos meus olhos.  José Wilker olhou nos olhos de Janick Gers. Janick Gers olhou nos olhos de José Wilker. Ficamos assim, no meio do shopping, cada um em uma ponta de um triangulo equilátero imaginário de uns dois metros e pouco de lado. Nós três tínhamos a mesma expressão de espanto e curiosidade no rosto. Eu era o único que, seguramente, sabia quem eram os três envolvidos nesta peculiar troca de olhares.

Este, provavelmente, foi o momento mais curioso que já vivi relacionado ao Iron Maiden. Foram vários, pelo menos um para cada um dos oito shows dos caras que vi até hoje. Em janeiro de 2001, eu estava no Rio de Janeiro para meu primeiro grande festival, o Rock in Rio. Também era a primeira vez que veria o Iron Maiden ao vivo e a segunda vez que saí de Brasília para um show ou festival (A primeira, o Metallica em São Paulo, quando tinha 15). O Maiden era a atração principal do chamado “dia do metal”. O Paulo “Zazá”, meu amigo, e outro grande fã do Iron Maiden também estava na cidade e me chamou para fazer plantão na frente do hotel em que a banda e quase todos os artistas internacionais do festival estavam hospedados.

Tinha saído bem cedo da casa da minha avó, no Recreio dos Bandeirantes, e fui de ônibus até São Conrado. Encontrei o Zazá a uns cem metros da porta do Hotel Intercontinental. Tinha um cordão de isolamento quase na calçada e, como a gente chegou cedo, ficamos bem de frente para a entrada. Tava quente. Tinha chovido rapidinho, mas tava quente. No nosso grupo: catuaba, cerveja barata, cabelo grande, camisa preta, cerveja, cantoria, palavrões e uma camaradagem entre desajustados que, em toda minha vida, eu só vivenciaria no metal. No grupo ao lado: água de coco, refri, cabelo grande, camisetas coloridas, cantoria, choradeira e uma histeria coletiva bem característica dos fãs de música pop. Quando o ônibus (só o ônibus, nada dos caras) do Iron Maiden apareceu, nós vibramos, cantamos, gritamos e acenamos. Elas vaiaram. Quando a Britney Spears deu as caras na frente do hotel acenando de maneira efusiva, elas foram à loucura. Choraram, gritaram, espernearam, se estapearam pra ver quem ficaria mais próxima… Nós, no nosso lado da escada, acenamos de volta para a popstar, todos sorridentes, muito educados e gritando palavras de incentivo como: “Vai tomar no cu, britinei!”. Ela acenou de volta sorrindo bastante. Meio que me arrependo dessa parte, hoje. Dou muito valor na Britney como acontecimento cultural e sociológico. Também curto uma pá de músicas dela, mas, em 2001, com dezesseis anos na cara, eu estava lá pra ver o Iron Maiden, mesmo.

Nem todo mundo tem a sorte de se tornar, nem que apenas por alguns dias, um fã do Iron Maiden. Acho que todo mundo que já teve uma adolescência deveria passar por isso. É uma experiencia edificante, pode acreditar. Portanto, há uma chance considerável que você não saiba quem é Janick Gers. Pois bem, Janick Gers é o doido mais doido do Iron Maiden. É o camarada que joga a guitarra pra cima, que a roda pela correia presa no pescoço parecendo um moinho tresloucado, que luta com o Eddie (o mascote morto-vivo da banda) e que já caiu algumas vezes do palco, com guitarra e tudo. Aquele dia eu até fiz piada disso pra ele. Ele riu. Tem muito metaleiro “true”, chato pra caralho, que diz que ele é o guitarrista mais fraco da banda. Caguei pra eles! Adrian e Dave são incríveis, mas meu favorito sempre foi o Janick. Também era o favorito do Zazá, que estava começando a aprender guitarra. Como você deve ter percebido, essa história também tem o José Wilker, que não é guitarrista do Iron Maiden, e disso você sabe muito bem. O Zé Wilker eu admirava pelo conhecimento que tinha de cinema e pela narração dos episódios de “A Vida Como Ela É”, aquele quadro do Fantástico com os contos do Nelson Rodrigues. Já minhas tias de São José dos Campos gostavam dele por conta das novelas mesmo, e ficaram meio chateadas quando eu disse que não tinha pegado seu autógrafo.

Eu já tinha desistido de ver os caras acenando da janela, desistido de tentar gritar um “ow, Steve!” e ser recompensado com um sinal de positivo, tinha desistido, principalmente, de um autógrafo e um aperto de mão de Janick Gers. Já estava me conformando em vê-los apenas em cima do palco. O plano do Zazá era, simplesmente, esperar até que o Bruce, ou o Steve, ou o Adrian, o Dave, o Nicko ou o Janick dessem as caras. Quando deu 3 e pouco da tarde meu estomago roncava e eu não aguentava mais a algazarra estridente das fãs da Britney, que estavam a uns 10 metros da gente. Decidi ir embora, contrariado, mas era o melhor a fazer. Na manhã seguinte eu estaria pontualmente às 7 da manhã na frente dos portões da cidade do Rock. Precisava conservar as energias. No caminho entre o Hotel Continental e a parada de ônibus, tinha um shopping e, logo na entrada (também ocupando uma varanda), um Mc Donald’s.

Subi as escadas da entrada do shopping tentando me decidir se pediria um Big Mac ou um Quarteirão. Abri a carteira, separei o dinheiro certinho pra voltar pra casa da minha avó, me restando o suficiente pra uma promoção média. Nesse dia eu estava usando uma camiseta do Sepultura, que também tocaria no festival. Não estava de camisa do Iron Maiden pois só tinha uma, e esta estava reservada para o dia seguinte. Tinha escolhido o quarteirão. Haviam três pessoas na minha frente na fila quando fui tomado por uma sensação meio de calafrio, meio sentido-aranha, meio quando você percebe que estão te observando. Olhei para a esquerda e, numa das mesas da varanda, dois caras sentados de frente um pro outro. Claramente gringos. Dava pra ver na cor dos cabelos, muitos cabelos. Voltei minha cabeça naquela direção. O mais cabeludo levantou seus olhos. Primeiro encarou o xavante que ilustrava minha camiseta (do fenomenal Roots). Subiu um pouco mais o rosto, olhou nos meus olhos por poucos segundos, arregalou as vistas e, ligeiro, voltou a olhar para seu sanduiche.

– Caralhinhos voadores! É o Janick Gers, porra! – Pensei, de olhos ainda mais arregalados.

Minha fome desapareceu. Saí da fila. Queria falar com o homem, mas me detive. Ele estava comendo e julguei que seria extremamente rude da minha parte interromper sua refeição para pedir um autógrafo. Me afastei da fila e me posicionei a alguns metros da varanda onde ele e Rod Smallwood (o manager da banda, que eu só viria a reconhecer depois porque o Zazá falou quem era) almoçavam. Um segurança bem jovem e meio franzino usando um paletó no qual mal cabia, veio falar comigo. Pensei que me pediria pra sair do local.

– É ele. Olha só! – E tirou um encarte do Brave New World do bolso interno do paletó. Estava autografado bem na página com a foto do Janick.

Um autógrafo é só um nome rabiscado num papel e mais nada. Hoje eu vejo assim, mas quando eu era moleque metaleiro com meus dezesseis anos de idade, eu pensava diferente. Pensava ainda mais diferente quando um hipotético autógrafo era de um membro de uma banda do quilate de um Iron Maiden ou um Metallica. Na linha do tempo dos meus heróis de infância, o Iron Maiden fechava uma sequência que tinha He-Man, Thundercats, Tartarugas Ninja, X-Men e, finalmente, o Iron Maiden. Aos dezesseis, conhecer um dos caras da banda seria como se, aos dez, eu conhecesse Rafael, Michelangelo, Donatello ou o Leonardo. Perguntei para o segurança se ele tinha um papel e uma caneta.

Suei frio. Queria muito me sentar à mesa com eles, falar sobre meu relativamente recente amor pelo metal, perguntar se eles gostavam de futebol e se conheciam o Flamengo. Mas não. O homem estava almoçando! Seria indelicado. Foi quando uma moça sem nenhum traço de amor ao metal em sua aparência (na verdade, estava mais para uma patricinha da Zona Sul do Rio) o interrompeu e pediu algo. Ele acenou positivamente com a cabeça para ela, assinou um papel e se levantaram, ele e o Rod, deixando os sanduíches pela metade. Na hora eu fiquei meio bravo com a menina. Como assim alguém que nem era fã ia lá e incomodava o cara? E se ele ficasse bravo e se recusasse a falar comigo? Assim que deixaram a varanda, fui na direção deles.

– Hello, Janick! Could you please…

– Sure! What’s your name? – Disse sorrindo. Pegou de minha mão o pedaço de papel e a caneta que, a poucos instantes, o segurança franzino havia me emprestado.

– My name is Bruno. Please, don’t fall from the stage again! – respondi num inglês de pronúncia deplorável.

– HAHA! Hope not! – respondeu, muito simpático. Foi quando o Zé Wilker entrou nessa história.

No sentido oposto ao que eu, Janick e Rod seguíamos, veio José Wilker. Para falar bem a verdade, não me lembro se estava acompanhado, mas caminhava mantendo uma postura altiva e passos determinados. Neste momento o Janick andava olhando para o pequeno pedaço de papel, escrevia meu nome e assinava. Eu acompanhava os movimentos das mãos de Janick e Rod olhava para trás, pois algo chamava sua atenção. Por segundos, o rockeiro não atropelou o ator. Freamos os três, enquanto Rod, que já havia parado a alguns segundos, esticava o pescoço mirando a escada por onde entrei no shopping.

De cara, reconheci o Global e cometi a indelicadeza de o encarar. Ele me encarou de volta e, logo em seguida, encarou Janick, que me olhou sem entender muita coisa. Deve ter achado que o José Wilker era meu pai, tio ou pelo menos um conhecido. Já o Zé Wilker deve ter demorado um pouco pra entender que se tratava de um dos artistas gringos do Rock in Rio. Ficamos nesse enquadramento de faroeste, trocando olhares, por alguns segundos até que o Rod tocou no ombro de Janick e disse:

– MOVE!

Olhei por cima de seu ombro e vi o Zazá correndo em nossa direção. Atrás dele mais uns dez camiseta preta. Na minha lembrança corriam em câmera lenta, bem “carruagens de fogo”, mas a trilha sonora era “Run to the hills” tocada no piano de cauda. Janick se assustou. Zé Wilker se assustou. Eu me assustei. Janick me entregou o pedaço de papel devidamente assinado, apertou minha mão, sorriu pra mim e disse:

– See you tomorrow!

Em seguida, balançou positivamente a cabeça para Zé Wilker, que retribuiu. Sorriu para mim, que estava meio estático e partiram em disparada, o Janick e o Rod, em direção a outra saída do shopping. Poucos segundos depois, os camisetas pretas passaram por nós a toda velocidade e tirando finos de nossos ombros. Olhei para Zé Wilker, que parecia estar apenas começando a entender o que havia ocorrido, encolhi os ombros, abri os braços com as palmas das mãos voltadas para cima, recolhi o queixo, apertei os lábios, arqueei as sobrancelhas e arregalei os olhos como um boneco de ventríloquo. Disse “Tchau, Zé Wilker” e segui meu caminho.

Pouco tempo depois o Zazá veio caminhando do outro lado do shopping. Elétrico, me mostrou o autografo que conseguira, no encarte de sua cópia do Fear of the Dark. Sem dedicatória ou seu nome escrito. Sorri ao perceber isso. Estava esbaforido e, assim que recuperou sua respiração, falei:

– Cara, tu viu o José Wilker?


Bruno Azambuja

28 de janeiro de 2021