Francisco

Um conto de Cinara F. Cordeiro

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

Sentada num bar, começo a reparar nas pessoas. Uma em especial me chama a atenção. Ele é alto, cabelo preto e uma pele morena. Seus dentes fazem uma junção perfeita aos seus lábios carnudos. Meu Jesus, que sorriso! Com seu jeito despretensioso, acende um cigarro e olha para mim. Tudo some no bar, só consigo sentir de longe seu cheiro amadeirado se misturando com a fumaça de cigarro. Pensei comigo – TE AMO DISGRAÇA! O garçom chega com mais uma cerveja, me distraio com ele colocando-a no meu copo. Quando me viro, já não o vejo mais. Volto a beber minha cerveja.

Uma semana se passou e eu ainda lembro daquele sorriso. Deitada no tapete, tomo uma taça de vinho. Me sinto ridícula por pensar numa pessoa que eu só vi uma vez. Repasso aquela cena do bar na minha cabeça atrás de alguma pista para descobrir quem é aquele cara que mexeu tanto comigo. Ainda bem que consigo lembrar do garçom chamando seu nome – Francisco. Pego meu celular atrás de alguma informação do tal Francisco na internet. Já sucumbida, desisto – Mas que caralho de nome comum.

Aceitando o fracasso dessa missão desesperada de reencontrar minha alma-gêmea, vou a uma festa e me vejo entediada por não conseguir achar ninguém mais minimamente interessante. Enquanto estou no balcão esperando minha cerveja, olho para o lado e vejo Francisco. No mesmo instante sinto meu corpo congelar, uma energia cósmica percorre minhas veias e, no impulso, tento uma aproximação. Foi receptivo. Conversando com ele, presto atenção aos detalhes do seu rosto, me parece um pouco diferente do que eu lembrava. Seu sorriso já não era mais tão bonito – O Francisco da minha cabeça fazia muito mais sentido.

Mesmo que lá no fundo eu soubesse que estava fazendo uma escolha imbecil, troco telefone com o dito-cujo e resolvo encontrá-lo num momento mais calmo para conversar. No dia seguinte, Francisco me convida para tomar um café, aceito sem pensar.

O esperado encontro com o até então ‘pai dos meus filhos’ vai aos poucos  perdendo o brilho quando começo a conversar com ele. Uma mistura de socialista piegas com intelectual ativista, fingindo ser um hippie amante da natureza, mas bancado pelo pai. Me interrompe a todo momento para, de alguma forma, se enaltecer e demonstrar nas entrelinhas o quão afortunada eu sou por estar ali sentada com um cara tão misteriosamente interessante. Conformada , me vejo num estado de inércia, enquanto o escuto falar sobre ser músico e cineasta, fumando o seu terceiro cigarro.

Naquele momento, sobre qualquer assunto, decido desesperadamente tomar um vinho – Só temos a garrafa, me responde o garçom. OK! Francisco permanece com a ideia estúpida de tomar café. Tudo ali era inconsistente, um verdadeiro saco. Então eu me perguntava: por que saí com esse cara? Já sentindo os efeitos etílicos no meu corpo, consigo persistir naquele encontro só porque aprendi a utilizar um método para abstrair todas as titicas que saíam daquela boca.

“Nossa, e que boca!”

Suspiro enquanto reparo naquele sorriso que reaparece como um lampejo para mim. Preciso parar de beber, pensei.


Cinara F. Cordeiro

26 de Fevereiro de 2018