Eu quero ver você jogar

Um conto de Sarah Costa

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

“Como pôde fazer isso comigo? Me deixou na dúvida, me fez acreditar que era meu braço direito, leal, meu discípulo, me envolveu… Me envolvi…”

Era uma daquelas manhãs de ver miragem, de tão quente que estava, quando, de repente uma bola bateu no balde de Idalina, e fez com que ela voltasse de seus pensamentos sobre a noite anterior.

Levantou-se, deixando para trás o balde com o abadá que acabara de lavar para dançar no candomblé, puxou a porta feito um furacão, abriu as gavetas procurando uma única foto mal revelada de seu pai, o renomado Mestre Mão de Ferro.

Seu pai era um capoeirista incrível, e esse codinome veio através do famoso espirra sangue, um golpe baixo que dava quando o jogo apertava. Olhando a foto lhe veio na memória aquela música que ele tocava no berimbau para fazê-la dormir “Mas como é linda nossa Capoeira, Oh ginga, ginga menina, eu quero ver você jogar, eu quero ver você jogar”.

“ Eu tentei jogar, meu pai, fiz tudo que o senhor me ensinou, mas fui descoberta…”

Idalina era a única mulher na casa de 8 irmãos, sua mãe havia falecido por tuberculose. Cresceu vendo os homens de sua família jogando capoeira. Assim como eles, a capoeira era semi alforriada, mas para ela esse dia nunca ia chegar.

Respirou fundo, beijou a foto pedindo benção para seu pai, bebeu um gole de água e se encorajou a enfrentar o que lhe agoniava, seu marido Zé Angolinha.

Eles se conheceram de barriga, vizinhos de porta, Zé sempre foi implicante e traquina,  mas com ela a implicância era diferente. Quase todo dia era a mesma provocação, Zé vinha correndo e dava uma vingativa, fazendo com que o balde de água e Idalina fossem ao chão. Olhando de cima ele falava, “Cê quer ser capoeirista, mas nunca presta atenção no jogo, capoeira não é coisa de mulher”.

“Ocês vão acabar se matando” dizia Mão de Ferro.

 “Ou casando”, afirmava Dona Aidê, mãe de Zé e madrinha de Idalina.

“Pai, o senhô me ensina a sair das vingativas do Zé?”

“Minha filha, por onde for, fique sempre atenta, se ocê prestar atenção ao seu redor, ocê vai consegui sair dessa vingativa e de todas as dificuldades da vida.”

Dito e feito. Como de costume, Zé a aguardava no pé da ladeira. Quando se preparou para dar seu golpe, Idalina, atenta, conseguiu sair, fazendo com que ele fosse ao chão.

“Preste atenção, Zé, capoeira é pra homem, menino e mulher”.

Não demorou para essa implicância se tornar em casamento. Em uma linda roda de Maculelê, o amor deles se concretizou. Os saiotes de palha balançavam feito árvores ao vento, faíscas saiam dos facões em cada toque no alto fazendo com que a noite se clareasse, Zé abraçou Idalina e cantou, – “Pra essa morena, dos olhos que brilham tanto, eu ofereço esse canto que é uma declaração. Me leva, morena, me leva, me leva pro seu bangalô, de dia eu sou capoeira e de noite eu sou seu amor”, entre palmas e alegria, a festa durou 3 dias.

“Mas como é linda nossa Capoeira, Oh ginga, ginga menina, eu quero ver você jogar,  Eu quero ver você jogar”. – Saudades de quando meu pai cantava essa música pra mim e é tão lindo ver você cantando pros nossos filhos…

Zé havia se tornado o novo mestre depois da morte de seu sogro, era respeitado e honrado como ele. Ninguém ousava desafiá-lo na roda, quando em um final de tarde, no dia em que as mães lavavam as escadas para a chegada do novo ano, um rapaz franzino e todo desengonçado parecendo um menino querendo fingir ser homem grande indaga Zé:

“Ocê é o mestre Angolinha? Se me permite, gostaria de fazer um jogo com o senhor.”

O berimbau parou e Zé se levantou

“Sou eu memo! E ocê seu frangote, Cê pensa que consegue me desafiar?”

“Não, senhor. Apenas queria a honra de poder fazer um jogo. “

Entre gargalhadas e olhos arregalados, Zé por alguma razão aceitou o desafio e pediu para tocarem um São Bento pequeno. No pé do berimbau, Zé começa a cantiga “Ê, ê, ê, berimbau mandou se benzer. Agachado ao pé do berimbau, ele fez o sinal da cruz. “Capoeira é sua estrela-guia É ela que te conduz Ê, ê, ê, berimbau mandou se benzer”.

Entre pernadas e rabos de arraias, o frangote saiu da vingativa de uma forma majestosa, Zé parou a roda na hora e perguntou “Onde cê aprendeu a sair desse jeito da vingativa?” O frangote desnorteado agradeceu e saiu correndo da roda.

Chegando em casa Zé conta a Idalinda que fez um jogo com um desconhecido e que ele saiu da vingativa exatamente igual a ela. Totalmente sem jeito, Idalinda muda de prosa “Zé, comecei a fazer sua comida favorita, Xinxim de Galinha”. Zé que estava encucado esqueceu a história do jogo e encheu a boca de água “ahh Idalinda, mulher melhor que tu não existe”.

Final de tarde seguinte a roda da lagoa do Abaeté acontecia de novo, e quando menos se espera o frangote apareceu novamente.

“Mestre, o senhor vai me desculpando ter saído daquele jeito, mas eu aprendi capoeira sozinho, então não tinha resposta e sai correndo”

“E qual é seu nome? “

“Meu nome?”

“Isso?”

O frangote titubeou a falar, pois não tinha pensado em que nome falaria.

“Praze, sou Tião do Agogô”

E Zé concedeu mais um jogo a Tião.

Por alguma razão Zé tinha a nítida sensação de conhecer Tião de algum lugar, mas não conseguia pensar de onde e acreditou que seria coisa de outras vidas.

Tião foi ganhando a confiança de Zé, foi se tornando seu braço direito, seu confidente e amigo, o que deixou Zé bem confuso, pois em alguns momentos Zé se pegava olhando Tião de forma diferente.

“Eita home, agora todo dia ocê sai pra jogar capoeira de manhã e volta só de noite? Agora é Tião pra cá e Tião pra lá? Tô começando a ter ciúmes.”

“Êêê Idalina, pare de besteira, que prosa sem rumo é essa? Tô só ensinando o rapaz, vejo um bom futuro nele!”

Como de costume os dois se encontraram na beira do Cais, ficaram a tarde toda rindo e conversando ao invés de jogar capoeira. Zé ao mesmo tempo que se sentia confuso com seus sentimentos, gostava daquela aventura que estava vivendo. Só que aquilo estava perturbando Zé, as vezes ele se confundia e chamava Idalina de Tião e Tião de Idalina.

Zé se encorajou a falar de seus sentimentos confusos com Tião, marcou um encontro na beira da Ribeira as 15:00, aproveitou que Idalina tava na lagoa e se arrumou de passar até perfume e saiu de casa no puro nervosismo.

Quase chegando na Ribeira, Zé notou que tinha esquecido seu patuá, e voltou correndo, ele não podia ficar sem sua proteção.

Chegando em casa Zé abre a porta e da de cara com Idalina se arrumando com as roupas de Tião.

”Idalina, o que é isso? Que roupas são essas? “

“Zé, calma, eu vou te explicar! É que eu queria jogar capoeira, queria mostrar pra ocê que sabia jogar mesmo sendo mulher. As coisas saíram do controle, mas você estava gostando também.”

“Como pôde fazer isso comigo? Me deixou na dúvida, me fez acreditar que era meu braço direito, leal, meu discípulo, me envolveu… Me envolvi…”

Duas noites se passaram quando Idalina chegou no alojamento dos pescadores

“Zé, vim aqui e vamos conversar ocê querendo ou não.”

“Não tenho nada para falar com ocê.”

“Tem sim, e se quiser podemos conversar aqui na frente de todos os pescadores.”

Zé se levantou e pegou Idalina pelo braço puxando-a para fora.

“Idalina, como que ocê acha que vou olhar pra você do mesmo jeito? Eu tive pensamentos conturbados com outro homem.”

“Zé, o outro homem era eu.”

“Ele me lembrava muito ocê, mas de uma forma diferente, eu gostei de Tião sendo Tião.”

“Mas Zé, Tião era eu, então ocê gostava de mim.”

“Idalina o que faremos agora? Estou com vergonha do que senti, mas ao mesmo tempo tenho saudades de Tião.”

“Zé, ocê quer que Tião apareça às vezes?”

“Oxi Idalina, o que cê pensa de mim?”

“Zé, eu sei que Tião tem saudades de ocê, das prosas e dos jogos.”

“Ocê faria isso por mim? “

“Vamos pra casa, meu amor.”

Zé e Idalina voltaram a ter sua vida normal, quando em uma noite estrelada Zé chega do trabalho e fala

“Idalina, cheguei cheio de fome.”

“Idalina tá aqui não, meu mestre, quem veio lhe fazer companhia sou eu,

“Tiãão!”

Zé jogou o chapéu para trás e saiu correndo para abraçar Tião.  E os vizinhos escutaram, por toda a noite, uma música que dizia assim:

“Chama o bombeiro que a roda vai pegar fogo!”


Sarah Costa

26 de Fevereiro de 2018