Escolha

Um conto de Thayana Freitas de Queiroz

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

O desgaste da viagem era visível, palpável. Mas a saga finalmente terminara, por mais que já a tivesse realizado várias vezes, ninguém se acostuma de fato a cruzar a Belém-Brasília. Desci do carro e lá estava ela, ansiosa como sempre, vigilante como nunca: “Vocês demoraram demais! Credo”. Era minha avó. Cadeado nas mãos, portas abertas para nos receber. Os mesmos óculos de lentes amareladas, o mesmo corte de cabelo com ondas cinzas que caiam com naturalidade, a melhor mistura entre simplicidade e elegância que aquele calor permitia. Imagino que quem olha para Dona Lucinda, essa senhora tranquila e frequentadora assídua da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, não imagina o peso de sua história e a labuta de sua vida. Oitenta e cinco anos, doze partos, dez filhos criados e lágrimas de três velórios se escondem por detrás das lentes grossas que ressaltam seus olhos castanhos. Me sentei no mesmo sofá que sentara no ano anterior e que sentava há vários anos consecutivos. Era o ponto estratégico, milimetricamente calculado para receber a melhor brisa do ventilador. Ali fiquei por 10 ou 15 minutos. Minha avó se ocupava de nos instalar no melhor quarto da casa e eu daquela penosa inserção no bioma amazônico.

Era junho, época de seca, de praia de rio, de cavalgada e da festa do Padroeiro Santo Antônio. Tempo de farra disfarçada por um cunho religioso, coisa que brasileiro faz como ninguém. Para ela, a procissão com a imagem de Santo Antônio era o ponto alto dos festejos. Para mim, assumo, era a cavalgada. Momento pitoresco no qual homens, mulheres, cavalos e carroças se aglutinam nas ruas do centro, embalados pelo ritmo brega do momento e regados a suor, cerveja e cachaça.

Ainda sentada no sofá de minha avó, comecei os preparativos mentais para os dias que estavam por vir: procissão de manhã, cavalgada à tarde, festa à noite, praia no dia seguinte. Era um final de semana intenso. Me dediquei tanto ao planejamento que mal reparei Dona Lucinda mais agitada que o normal. A tranquilidade nunca foi mesmo o forte das mulheres da família. “Sente aqui vó. Não, não tô com fome. Não vó, nem sede. Só venha aqui logo, mulher! Me conte que agito todo é esse?”. Aos poucos foi se acalmando e o motivo do afã, revelado. Ela, Lucinda Carvalho de Freitas Barros, convidada para conduzir a imagem de Santo Antônio na procissão. A posição de destaque certamente não era para qualquer um, apenas para seletíssimas senhoras, reconhecidas pela sociedade como modelos de esposa dedicada, mãe zelosa e beata. Mas, ao invés de alegria, os olhos de Dona Lucinda revelavam uma inquietação interna difícil de compreender.

***

Era dezembro, época de chuva, de rio cheio e de festejos de fim de ano. A jovem Lucinda passava férias na casa de sua tia para ajudar com as encomendas de vestidos. Entre linhas, agulhas e rosários, os dias se contavam pelos bordados terminados. Foi por esses dias que chegou à cidade um caixeiro-viajante, aparentado da tia de Lucinda. Ao regressar à sua casa, Lucinda levava consigo não apenas um vestido novo, mas também uma carta endereçada a seu pai, contendo um pedido de casamento. Sem romances ou rodeios, a resposta veio tal qual o pedido. Simples, direta e quase sem o envolvimento daquela que celebraria o sétimo sacramento católico.

O noivo, no interposto de uma viagem, logo veio conhecer a família de Lucinda. Chegou com um terno bege um pouco amarrotado, mas que lhe caia bem. A roupa foi trazida com cuidado na sacola de viagem, especialmente para a ocasião. Os dois irmãos de Lucinda vieram à casa dos pais para trajar suas caras sérias e impor respeito, enquanto duas de suas irmãs ocupavam o fundo da sala e dividiam com ela a aflição diante do desconhecido. Naquela mesma manhã os próximos passos foram definidos, Lucinda se casaria quando o mascate retornasse da viagem. “Homem bom, trabalhador”, diziam seus irmãos. À noiva coube uma decisão: “na igreja eu não caso”. Movida pelo encabulamento, e não por uma particular convicção, Lucinda encerrou qualquer possibilidade de aparecer vestida de noiva diante de toda a cidade, já que naqueles tempos casamento era evento dos mais comentados.

Passados alguns dias, com um vestido florido em tons claros e o terno já usado para conhecer os pais da noiva, o casal se apresentou ao padre. E na própria sacristia foi selada a mais nova união.

O nível das águas do Tocantins ainda baixava quando Lucinda recebeu a notícia:  uma queda de cavalo encerraria o destino daquele que realizava a primeira viagem como seu marido. A jovem ainda se instalava na nova residência quando se viu novamente fazendo as malas. Ao menos partiria de volta para a casa de seus pais sozinha, e não de barriga. Três meses e quase nenhuma intimidade depois, Lucinda mudaria não apenas o estado civil, mas também a cor das roupas. Costume irritante esse de marcar as viúvas com o tom negro. O luto não assentava Lucinda nem nos trajes nem em seu sentimento.

Duas cheias do rio depois e a vida voltara para o mesmo ritmo de antes, exceto pela inquietação familiar em ter uma jovem viúva em seu meio. Lucinda recusava os convites de sua tia para ajudar nas costuras, sabia bem o que se pretendia. Mas dinheiro não é coisa que se nega com persistência e lá foi Lucinda novamente ajudar na temporada de festas. Dito e feito, três dias de trabalho e algumas visitas de desconhecidos depois, Lucinda se viu diante de Antônio de Freitas Barros. Comerciante e viúvo, perdera esposa e filho no parto, era o que cabia saber. Fez visitas à jovem quase todos os dias naquela semana, levou biscoitos e outros pequenos agrados, mas em todas as ocasiões conversava mais com a tia e seu esposo. Lucinda se limitava a observar tudo do sofá.

Mas o que a tia decidiu o pai acatou, e Lucinda se casaria novamente. Dessa vez, seus pais que viriam ao encontro do noivo. Mais uma vez, e agora movida por convicção, Lucinda determinou: “se não caso com quem escolho, na igreja não caso”. E assim foi feito. As boas relações de Antônio como comerciante trouxeram o padre até a casa de sua tia. Os preparativos consistiram em trocar a posição de uma mesa, comprar algumas flores e confeccionar um vestido, esse sim descrito cuidadosamente por ela. “Era lindo minha filha, precisava ver! Me lembro até hoje! Uma pena mesmo que não tenha nenhuma foto. Não era fácil tirar uma como é hoje em dia”. Branco, na altura do joelho, marcado na cintura. Bem à moda da época, confeccionado com primor por ela e sua tia. Eu podia imaginar o caimento, cada recorte, até os bordados. Conseguia vislumbrar os trejeitos da minha avó ao usar aquele vestido. Vi ali, com clareza, toda sua elegância, simplicidade e força. O vestido é lindo mesmo!

Olhei para a minha avó, mas não só para os olhos de hoje. Eu queria, de alguma forma, absorver mais daquele passado. A inquietação de minha avó havia se abrandado a cada passo da narrativa. Talvez eu mesma a tivesse absorvendo. Cada parte dessa história era descrita com a mesma naturalidade de quem revela uma receita de bolo. Apesar da feição tranquila, o sorriso só apareceu para pontuar um acanhamento ou outro. Assim, Dona Lucinda me apresentou ao seu passado. Meu passado, de minha mãe e de meu avô. E assim, também, me apresentou a sua aflição: conduziria a imagem de Santo Antônio até o Altar da Igreja, aquele a quem é concedido o título de Santo Casamenteiro, o padroeiro a quem se recorre para conceber filhos, evitar naufrágios e conseguir casamento. Mas o faria sem nunca ter se casado na Igreja, como sonhavam muitas das moças que acompanhariam a procissão. Mais uma vez, cabia à Lucinda escolher se entraria na Igreja.


Thayana Freitas de Queiroz

26 de Fevereiro de 2018