Enterro dos Ossos

Fim de ano é tempo de celebrar. A ceia está servida.

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

Certa feita, andou sobre o planeta uma estranha civilização que marcava seu tempo no mundo em uma categoria chamada “anos”. Ao fim de um ano, costumavam realizar banquetes fartos e desagregar suas unidades familiares. Ao ritual odioso de almoçar no dia seguinte as sobras da ceia festiva, os indivíduos dessa cultura chamavam “enterro dos ossos”.

Autor desconhecido

Júlia sacudia a bebê em seus braços. Jogava para cima e para baixo o pequeno corpo ainda molenga da pequena Luna, em um automatismo ineficaz. A menina arregalava os olhinhos e não ousava se mexer, apreensiva. A mulher andava de lá para cá na cozinha. Mastigava o lábio inferior de quando em quando e bufava. Marcos entrou pisando firme, com um pé da meia ainda nas mãos e a cara fechada.

“Você não sai e me deixa falando sozinho não, cacete.”

“Tô de saco cheio de ouvir sempre a mesma besteira.” respondeu a mulher. “E não aponta esse dedo pra minha cara, não!”

“Eu é que tô de saco cheio de você achar que manda em mim.” disse o homem abaixando a mão e desfazendo o dedo em riste.

“Você não entende nada mesmo. Eu não acho que mando em você. Eu não suporto é ter que mandar você fazer as coisas. Por sua causa, eu sou uma esposa igual à minha avó! Olha o tamanho dessa pia de louça, Marcos. Tá aí desde o fim de semana! Se eu não mando, você não faz nada aqui dentro! Cansa, sabia?”

“Júlia, eu não trabalho aqui. Eu moro. Não tem nenhum contrato dizendo que eu tenho que lavar a louça do almoço na hora. Eu lavo quando eu quiser, é minha casa.”

“Três dias! Tem três dias que essa porra tá acumulando aí. Sua autonomia tem limite, eu não vou viver nesse chiqueiro. E sua casa é o caralho.”

Saíram do apartamento batendo a porta. Prenderam a pequena Luna na cadeirinha do banco traseiro do carro e seguiram por todo o trajeto mastigando as palavras mal-educadas que ainda queriam dizer ao outro. Marcos estacionou o carro, virou a chave e desceu. Contornou o automóvel até a porta traseira que encerrava a bebê, amarrada aao dispositivo de segurança. Quando tomou a pequena Luna no colo, a chupeta escorregou da boquinha e foi ao chão.

“Porra, Luna…” reclamou Marcos com um suspiro.

“Não desconta nela, não, que ela não tem culpa.”

“Não, não tem. É uma coitada, na verdade, que a mãe obriga a vir na festa de fim de ano das velhotas decrépitas.”

“Essas velhotas garantiram o aluguel da sua casa o ano inteiro.”

Marcos estava de saco cheio do discurso. Sabia que a mulher não podia recusar o convite sem ser mal-educada, e que realmente ficou atrás no acerto de contas da casa durante o ano. Ele sabia que ir à festa era o certo. Mas não tinha vontade de encarar aquele mar de clientes caquéticas da esposa. Olhou para a neném e afinou o tom da voz.

“E nenhuma delas vai sobreviver pra pagar os honorários do ano que vem, mamãe. Acho que a gente vai ser despejado.”

Júlia ainda ria da piada quando a porta do elevador abriu direto na sala de estar do apartamento. Não haveria menos de dez convidadas ao redor da mesinha de centro, e dava para ouvir a agitação de mais gente lá dentro. Todas mulheres. Algumas, Júlia já conhecia. Conversavam alegremente, com taças nas mãos enrugadas. Poltronas de vinil estavam dispostas de modo a fazer dois ambientes na sala. Um jogo de sofás de couro em cada. Na mesa de jantar, colocada no lado mais próximo da cozinha, a ceia de Natal estava posta, e sobrevivia bravamente ao sem-número de eventos posteriores. A decoração era mais moderna do que Júlia teria imaginado, e sobressaia, mesmo disfarçada pelos resquícios do Natal. A iluminação do ambiente vazava de sancas nas quinas das paredes com o teto. Uma enorme janela de vidro corria o cômodo de fora a fora, sem cortinas, e os quadros imprimiam nas paredes uma dúzia de obras minimalistas e abstratas, todas em preto e branco.

Garçons perambulavam por todos os lados, e eram tantos que Júlia chegou a contar um para cada convidado à vista. De uma das poltronas, uma senhora levantou-se com dificuldade. Ainda surpresa com a arquitetura inusitada, Júlia não avançou o corpo a fim de dar a mão à senhora que esticava a coluna sobre pernas vacilantes. Quando se deu conta da indelicadeza, já era tarde e a anfitriã se postava três passos à sua frente, arreganhando os braços para cumprimentá-la.

“Júlia, querida, que bom que você pôde mesmo vir!”

“Como vai a senhora, dona Aurélia?” perguntou, aceitando o abraço e equilibrando a bolsa de neném nos ombros, para que ela não escorregasse em cima da mulher.

“Vou muito mais tranquila, por sua causa.”

Quando se desprendeu do aperto duro daqueles braços finos, nada maleáveis, Júlia pousou os olhos no rosto da anfitriã. Beirava os oitenta anos. Seus cabelos, que Júlia sabia serem platinados, estavam pintados de um louro claro e ainda pareciam grisalhos, presos no topete de laquê. A maquiagem excessiva rebocava suas bochechas e o pé dos olhos, ameaçando craquelar a face da mulher ao menor sinal de torção. As plásticas haviam travado sua expressão em um lugar neutro entre o tédio e a felicidade pequena, de modo que só os enormes brincos pendurados nos flácidos lóbulos das orelhas é que davam algum movimento ao rosto. O batom vermelho-escuro estava borrado nas bordas, o que lhe conferia um ar de desequilíbrio.

Era o mesmo rosto, a mesma expressão de sempre, as manchas na pele estavam dispostas nos mesmos lugares e o sorriso tinha a mesma largura com que Júlia já se acostumara. Mas algo estava errado. Abaixo da superfície familiar, havia uma rigidez que nunca vira antes, uma inquietude ansiosa por emergir, rompendo a casca porcelanada de normalidade que a não podia mais conter. A velha desviou então os olhos por sobre os ombros de Júlia, pousando em Marcos e na bebê, que ainda estavam dentro do elevador.

“Que coisinha mais preciosa!” exclamou, deixando seu indicador se enrolar na palma da mãozinha de Luna. “Com quantos meses ela está mesmo?”

“Cinco meses.”

“Ah, perfeito.” A velha esticou a outra mão e cutucou de leve a bochecha esquerda da neném, aproximando o próprio sorriso mecânico de seu pequeno rosto, a examinando. Quando soltou a mão da criança, Luna fechou os dois punhos sobre o próprio peito, como se o defendesse.

Júlia não compreendeu o que havia de perfeito na idade de sua filha. Com as sobrancelhas franzidas, buscou os olhos de Marcos, mas seu marido não parecia ter atentado para o vocabulário da anfitriã. Pelo contrário, ele parecia ocupado, buscando uma maneira de se desvencilhar da velha a tempo de sair do elevador antes que a porta resolvesse fechar. Júlia se posicionou entre os dois, pegou no colo a pequena Luna e abriu a passagem.

“Vem. Quero te apresentar algumas pessoas!” disse de súbito a anfitriã, tomando Júlia pela mão e a arrastando em direção aos convidados. Jogou para trás um “fique à vontade” displicente na direção de Marcos.

Rodaram pouco e estacionaram junto a duas senhoras ainda mais afetadas, que ostentavam orgulhosas suas jubas brancas e muito mais joias douradas do que recomenda o bom senso. A anfitriã explicou a Júlia que as duas, Carmem e Rute, eram suas primas.

“A Júlia é aquela advogada que eu comentei com vocês, que está cuidando da minha papelada do testamento. Minha e de metade da festa, né, querida?”

“Aurélia fala muito de você.” disse Rute com um sorriso. “Acho que estamos mesmo precisando dos seus serviços.” Seu hálito era forte, como das mulheres que não comem o suficiente em nome de uma magreza com que nunca estão satisfeitas.

“Passem lá no escritório para tomar um café qualquer dia. Seu eu puder ajudar, estou à disposição.” respondeu Júlia, torcendo o pescoço para procurar uma maneira de acessar a sua bolsa. Desistiu. “Pena que estou sem cartão para deixar com vocês.”

“Não tem problema, eu passo seu contato pra elas!”

“É, pegamos com a Aurélia.”

“E essa nenenzinha mais fofa!?” esganiçou Carmem, levando a mão aos pés de Luna, pendurados entre os braços da mãe. Os dedos finos e recurvos da velha foram subindo pela criança, passeando pelo seu braço gordinho e foram apertar sua bochecha mais uma vez. A bebê arregalou os olhos para a mãe. “Dá vontade até de roubar pra gente, né?!” completou com um sorriso de dentes cerrados e olhos vidrados.

Júlia sabia que deveria sorrir de volta, para completar o jogo social da brincadeira. Mas não conseguiu. Não havia inocência no riso duro da velha, nem cumplicidade nos seus olhos. Sentiu o ventre gelar por alguns instantes e o ar escapar dos pulmões. Perguntou onde poderia trocar a fralda de Luna e saiu em direção ao quarto que lhe foi apontado, pedindo licença.

Antes, porém, estancou na entrada da cozinha, à busca de Marcos. Uma pequena aglomeração empatava seu caminho. As velhinhas, convidadas da festa, se amontoavam em torno de alguma coisa atrás da bancada. Júlia esticou o pescoço e apurou os ouvidos. A voz era de seu marido. Esgueirou-se mais um pouco entre os cotovelos de pele grossa e cheia de dobras, até que conseguiu divisar o rosto dele, no centro de uma enorme roda de grupies. Ele contava aquela estória insuportável de quando sua banda abriu o show do Roberto Carlos, e as velhas se derretiam a cada virada nos acontecimentos. Júlia ouvia os suspiros, o zumbido de prazer da plateia.

Marcos espalmou a mão direita no ar, pedindo que ela esperasse um minutinho. Já terminaria a estória e veria do que ela precisava. Júlia olhou à volta e não pôde conter a impressão crescente de que não conseguiria chegar até o centro, nem seu marido sairia dali. As velhas pareciam se entreolhar, conspiratórias e, enquanto ele se empolgava achando que era o centro das atenções, alheio ao seu entorno, ela lidava com uma hostilidade cada vez menos velada dos olhares e dos empurrões que a levavam de volta à porta. Aquelas velhas eram espertas. Dividir para conquistar. Separados, os dois eram incapazes de escapulir dos comentários impertinentes, dos assuntos de doença, remédios e da fofoca típicos dos velhos daquela classe. Desistiu.

Sobre a cama, esticou uma coberta plástica para proteger os lençóis acetinados de seja lá o que a bebê tivesse reservado. Deitou Luna e, com a mão apoiada sobre seu pequeno peito, de modo que ela não se virasse ou movesse para longe, Júlia ficou observando o quarto. No canto próximo à janela, uma cômoda espelheira Luis XV. Cortinas pesadas, com voil e forro desciam até o carpete do chão. A cama de madeira era baixa, como o par de criados-mudos que a ladeavam sobre seus pés retorcidos. Com uma careta, desaprovou a decoração ultrapassada. Era como se a velha pintasse uma imagem de modernosa nos ambientes externos, mas seu quarto denunciasse sua verdadeira condição brega e antiquada.

Devagar, tirou a fralda de Luna e conferiu seu conteúdo. Nada fora do normal. Limpou a menina, vestiu uma fralda nova e fechou novamente a roupinha. Cansada das brigas em casa, das festas de final de ano e seus compromissos sociais compulsórios, deitou ao lado de Luna, passando um dos braços sob a cabeça e o outro sobre o corpinho da filha. Deixaram-se ficar as duas, por um momento, abraçadas e preguiçosas.

Devem ter se passado alguns minutos mais do que Júlia queria ter permitido. Um cutucar na nuca incutia em seu descanso a sensação de ser observada. Mastigou ainda algumas palavras de protesto antes de abrir os olhos. O formigamento insistente atrás do pescoço ia fazendo crescer o sentimento vácuo de ânsia em seu peito. Estava sendo observada. Voltou sua atenção para o próprio corpo e notou que seus braços estavam vazios. Ergueu a cabeça e arregalou os olhos para o forro em que deitara Luna. Apenas o macacão que vestira na filha repousava, aberto. Com o canto dos olhos, reconheceu um corpo franzino de pé em frente à cama. A anfitriã ninava a bebê em seu colo, cantando uma cantiga que Júlia não reconheceu. Pareceu-lhe mesmo que fosse outra língua. A velha tinha linhas pretas de maquiagem escorrendo dos olhos até os cantos da boca, como se chorasse. Uma dúzia de fios de cabelo desgrenharam-se do penteado rígido e se erguiam no ar. O olhar era opaco, sem vida, e os braços pareciam engolir o corpo da criança. Luna tinha novamente as mãos fechadas sobre o próprio peito e os olhos muito abertos.

Júlia levantou-se com o movimento mais rápido e direto que pôde. Tomou a filha das mãos da velha e partiu em direção à porta. Encontrou o apartamento vazio, exceto por dona Rute, parada à porta da sala, bloqueando a passagem.

“Calma, menina.” disse, buscando imprimir candura nos olhos. “Nós só queremos o elixir.”

“O quê?”

“Fazer verter o leite das veias da sua criança, pois é ele o elixir da juventude.”

“Era só o que me faltava…” suspirou Júlia. “Essas velhas filhas da puta querendo beber os anos da minha filha.”

Rute crispou os lábios e em seus olhos acendram brasas. Júlia correu à cozinha e pegou a maior faca que encontrou. Voltou à sala brandindo a arma, com a ponta ameaçadora direcionada nos olhos da velha. Rute caminhou lentamente para trás e Júlia conseguiu se esgueirar até o elevador aberto.

No estacionamento, encontrou Marcos perambulando sem rumo. Ele explicou que fora deixar uma fã em seu carro e ficou trancado para fora. Júlia conteve a vontade de atravessar um soco no queixo do marido e entraram no carro batendo as portas.

“Até que as suas clientes são gente fina.” comentou o homem ao volante.

“Caralho, eu odeio o Natal…”


Vitor Camargo de Melo

29 de dezembro de 2017