Dois meses

Um conto para a coluna Jogando em Casa

Foto: tatlin/Reprodução com alterações

Genival foi o amor da minha vida. Pobre, ladrão, sem estudo e pai dos meus dois filhos. Aos setenta anos de idade, eu posso dizer que vivi um pouco de tudo no amor. Me casei três vezes, fui viúva, fui largada e fui amada. Foram muitos os homens que se encantaram por mim, mas o meu grande amor foi Genival.

Sendo eu alguém que recebia joias de presente na juventude, e frequentava as melhores festas do Ceará, mas escolheu Genival contra tudo isso, não é de se espantar a situação em que me situo hoje. Sem dinheiro para ­plano de saúde, vivendo de salário mínimo na casa do meu filho.

Quando eu era mocinha, Vicente, filho do governador do Ceará, ficou louco por mim. Eu era mesmo muito formosa. Meu corpo, meu sorriso, meu charme. Eu tinha um jeito de ser que atraía os homens. Isso porque eu não saí com os olhos verdes da minha irmã mais nova, Teresa, e nem com a altura e o cabelo da mais velha, Denir. Não eram essas miudezas que me valorizavam, era o conjunto. Mamãe dizia que eu ia dar muito trabalho. Ela estava certa.

Vizinho a minha casa, havia um rapaz que me convidou para uma festa da sociedade, eu não me lembro o nome dele, e nem como ele conseguiu os convites, fui por diversão. Aluguei um vestido que custou meu salário de funcionária no cartório do meu tio avô. Chegando à festa, no minuto em que esse rapaz foi ao banheiro, chegou perto de mim o Vicente. Alto, bem vestido, com um terno e um chapéu impecáveis, um verdadeiro príncipe. Conversamos um pouco e em duas semanas ele estava tocando acordeão embaixo da minha janela. Papai quase desmaiou quando soube que ele era filho do governador. Nós passeávamos e nos divertíamos muito, ele me dava presentes, joias, que me salvaram em momentos difíceis décadas mais tarde. Mas ele tinha alguma coisa que eu não gostava, não sei bem se era o cabelo muito arrumado, sem um fio fora do lugar, ou se era seu jeito muito respeitador. Só sei que o namoro foi esfriando, e eu não deixava engatar para uma coisa mais séria. Eu tinha 18 anos de idade, e era imatura. Papai e mamãe passaram dois meses sem falar comigo direito depois que terminei com ele.

Eu não dava a mínima. Antes mesmo de eles voltarem a falar comigo, eu já estava saindo com Duílio. Ele tinha sido meu primeiro amor de menina, e o reencontrei no cartório resolvendo uma papelada para o pai dele.

Namoramos quando eu tinha 14 anos, e ele, 16. Namorinho besta de pegar na mão.  Até que um dia, na festa de aniversário do irmão dele, com quem eu cruzaria nas ruas de Fortaleza, anos depois, Duílio me levou até seu quarto, dizendo que ia me mostrar sua coleção de selos. Mal entramos e ele já foi fechando a porta e apagando a luz. Me deu um beijo e enfiou a mão em baixo da minha roupa, me deitou na cama e eu fui deixando, e aconteceu que ele foi o meu primeiro homem.

No dia seguinte foi o maior falatório na vizinhança, todo mundo deu pela nossa falta na festa, porque a visita até o quarto foi bem na hora do parabéns. E para evitar que a fofoca chegasse até papai e mamãe, me afastei de Duílio, e sofri muito de saudade e da sensação de acabar o que ainda não tinha vivido.

Pois no cartório apareceu ele, e já veio pra frente, não mudara nada. Havia deixado a casa dos pais e me levou para conhecer o apartamento onde morava com o irmão, que, por acaso, seria o meu primeiro marido.

Entramos no apartamento, e ele já foi logo me levando para o quarto. Nós combinávamos muito e o romance foi maravilhoso. Até que, dois meses depois, ele conseguiu uma passagem para São Paulo, para realizar o sonho de estudar na Escola Politécnica. Fiquei arrasada, e arranjei consolo nos braços de Zé Filho, o irmão.

Encontrei-o na rua e ele veio com uma história de que sempre tinha sido louco por mim. O namoro era meio morno, mas ele me lembrava muito Duílio, então me apeguei a isso e fui levando. Após 1 ano de namoro, nos casamos. O casamento durou dois meses. Foi interrompido por um acidente na esquina da minha casa. Zé Filho foi atropelado quando voltava do trabalho. Fui viúva moça. Estava fazendo o jantar quando me avisaram. Havia enfeitado a mesa com toalha de cambraia branca, que engomara satisfeita, e colocado a louça nova que ganhamos de presente de casamento, retirada da caixa naquele mesmo dia.

Voltei para a casa da mamãe, e passei muito tempo sem sair do quarto, a dor seria quase insuportável não fosse Inácio, filho do meu tio, que viera do interior para trabalhar em Fortaleza, e que papai acolheu em nossa casa. Ele dizia que tinha muito carinho por mim e ia me visitar no quarto de madrugada. Eu estava fraca e triste demais para negar. Foram dois meses de namoro às escondidas, até que uma noite papai entrou no quarto e nos surpreendeu dormindo na mesma cama. Eu nunca soube se foi ao acaso ou se papai havia planejado por alguma desconfiança.

Papai deu uma peia em Inácio, alegando que era seu tio, portanto, quase um pai. E depois de muito implorar, dizendo que eu era uma pobre viúva de vinte anos de idade, que eu não merecia a dor dessa nova separação, papai aceitou nosso namoro, e aguardamos um ano do falecimento de Zé Filho para anunciar o noivado.

Nós nos casamos e fomos morar em Crateús. Foi o pior inferno da minha vida. A mãe dele não aceitava nosso casamento porque éramos primos, mas anos depois, no leito de morte, tia Célia me confessou que não suportava ver todo esse amor que seu filho sentia por mim, e era por isso que ela estava morrendo. Fico imaginando se ela estivesse viva nos dez anos restantes do meu casamento, com certeza se juntaria ao coro dos que me julgavam seca por não engravidar. Foram doze anos de casamento, nenhum filho. De tanto sofrer pressão das irmãs, Inácio me largou por não ter dado nenhum herdeiro a ele. E eu acreditava que o problema era comigo.

Retornei à casa de mamãe. Eu já tinha para lá de 30 anos, sem filhos, muito velha para me casar de novo, muito moça para ser viúva e desquitada. Mamãe andava doente e eu me dediquei a cuidar dela como missão na minha vida. Acreditei que o amor não era mais para mim.

Nos quinze anos da minha sobrinha, mamãe já havia morrido, lembrei-me da minha própria festa de debutante, quando era uma mocinha cheia de sonhos, ansiando por me casar com um rapaz rico e ter filhos, nunca poderia ter imaginado o destino infeliz que tinha sido reservado para mim. Chorei durante toda a festa, dizendo aos outros que era de emoção, afinal, Tatiana era minha afilhada, filha de minha irmã Denir.

Peguei uma garrafa de vinho e fui chorar do lado de fora do salão. Ali havia um garçom me olhando com cara de sem vergonha. Perguntei a ele o que estava olhando, se nunca havia visto uma mulher chorando, e ele me respondeu com uma cantada barata, dizendo que já tinha visto, mas nunca uma tão bonita. Falei que ele era petulante e que devia estar dentro do salão servindo os convidados em vez de estar fumando e incomodando as senhoras de respeito. Ele olhava para mim e sorria. Eu podia ter voltado para o salão, mas eu tinha uma fraqueza por homens altos e nada a perder. Ofereci vinho a ele, mas ele não bebia em serviço. Nos beijamos a noite toda. Na hora de ir embora, ele me ofereceu carona em seu carro, que algum tempo depois, eu decobriria ter sido roubado de um dos convidados da festa. Conversamos muito durante o trajeto, ele botava uma mão no volante e a outra na minha perna. Eu dizia “olhe para frente, homem, que eu perdi um marido num acidente de carro”. “Seu marido era um fraco”, ele dizia. Fiquei espantada com o abuso daquele caboco, o que só me dava mais vontade de beijá-lo. Chegando à rua de casa, disse a ele que parasse na esquina, longe das vistas de papai, que não podia me ver chegando em carro de homem. Ele disse que, por experiência própria, a rua era muito perigosa àquela hora da noite. Achei que ele tinha sido assaltado, mas depois descobri que quem assaltava era ele. Antes de partir, perguntei “como é seu nome”, ele disse “Genival”.

Cada dia Genival ia me buscar em um carro diferente. Eu não ligava, achava que se havia de ser sozinha para o resto da vida, merecia me divertir. Ele me levava para o subúrbio e eu adorava. Papai jamais podia imaginar que eu andava metida em festa de cunhã. Na certeza de que não podia ter filhos, nunca me preveni, e em dois meses de romance eu engravidei. Foi o maior desespero da minha vida. Como contaria a papai? Escrevi uma carta, deixei na mesinha de cabeceira de seu quarto, arrumei minha mala e fui morar com Genival no subúrbio de Fortaleza.

Ele não tinha emprego fixo, vivia de bicos e pequenos furtos. Quando nosso primeiro filho nasceu, a família dele nos acolheu. Àquela altura, eu já havia aprendido a ser atrevida, fui até a casa das irmãs de Inácio, aquelas duas cobras, que nunca se casaram. Para mim, antes viúva moça, do que moça velha. Apresentei meu filho a elas e perguntei se Inácio já tinha conseguido engravidar alguém. Elas riram da minha cara e disseram que antes não ter filhos a ter filho de um negro. Em matéria de atrevimento, elas eram mais experientes que eu. Pedi então a Genival que lhes mostrasse a arma, e disse que, por essa falta de respeito, iríamos pegar alguns objetos de valor.

As duas arregalaram os olhos. Saímos de lá com joias e dinheiro, porque eu sabia que o velho meu tio gostava de guardar dinheiro embaixo do colchão. Levamos também um conjunto de louças, que dei a minha sogra. Não fosse minha preocupação com o futuro de Flavinho, Genival teria gastado o dinheiro todo em pouco tempo.

Eu estava grávida de Aldenice quando Genival foi preso. Até barriguda, eu conseguia conquistar os guardas para me deixarem levar as coisas para ele na prisão. Minha sogra fazia bolo de macaxeira, que eu levava com um maço de cigarro e até uma garrafa de café. Eu olhava para as mocinhas na fila aguardando serem revistadas para verem seus namorados, maridos ou irmãos. Elas eram tão bonitas, mas tão abestadas. Não se interessavam em utilizar a beleza a favor delas.

Aldenice nasceu num dia, e Genival foi julgado no outro. Gastei todo dinheiro do velho meu tio e algumas joias para pagar o advogado. Ele ficaria mais dois anos preso, e eu tive que ir trabalhar. Não sabia nem por onde começar, com dois filhos pequenos. Precisei vender a última joia que tinha, uma que Vicente me deu. Aquela foi só mais uma dor entre todas as outras que eu já sentira. Tentei não me apegar a isso, em função de tudo que eu estava vivendo, mas senti, quando vendi aquela joia, que a última lembrança de uma juventude feliz estava indo embora junto.

Lembrei-me da arma. A mesma que fez Genival ser preso, mas que escondi tão bem, que ele foi condenado só a dois anos. Fui até a casa de Inácio, que tinha se juntado com uma moça quinze anos mais nova que ele.

Entrei com as crianças. Era domingo, eu podia tê-las deixado na minha sogra, mas queria que ele tivesse pena de mim e remorso por ter me largado. Falei que era uma coitada, que só tinha engravidado porque ele, junto com as irmãs, me fizeram acreditar eu era incapaz de gerar vida, que Genival fora preso injustamente, e que minha vida foi de mal a pior desde a noite em que ele foi me visitar no quarto enquanto eu ainda chorava a morte de Zé Filho.

Ele me olhou com pena, era tudo que eu precisava, não queria usar a arma. Me deu um dinheiro e fui-me embora.

Eu ia me virando com aquele dinheiro, às vezes ajudava minha sogra a fazer queijadinha, e ela me pagava. Minhas irmãs também me acudiram, mas eu não gostava de pedir muito a elas, porque tinha de ouvi-las falando mal de Genival.

Faltando dois meses para Genival ser solto, me lembro até hoje, eu estava sentada no batente em frente de casa enquanto vigiava Flavinho brincando na rua. Aldenice ainda tirava a soneca da tarde. Eu estava com um pano branco enrolado na cabeça, tinha ajudado minha sogra na cozinha. Estava morta de cansada e admirava o pôr do sol quando avistei o irmão de Genival, vestido num terno barato. Ele era funcionário público e tinha telefone em casa, e por isso foi o primeiro a saber. Ele veio me dar notícia de Genival. Fora morto por um dos guardas da prisão. Minha vista sumiu.

Custei a acreditar, a morte de Genival levou com ele minha última alegria de viver. Eu sentia um vazio tão grande dentro do peito, que era como se minha alma tivesse saído do corpo. Meus meninos ficaram abandonados à própria sorte, minha sogra vinha me banhar e pentear meu cabelo, eu era morta-viva.

Dona Janaína não tinha mais saúde para cuidar das duas crianças, então Teresa, minha irmã, veio buscar Aldenice. Depois disso, nunca mais recuperei o amor da minha filha, e ela nunca mais me chamou de mãe. Ela chama Teresa de mãe e a mim de tia.

Flavinho, que já era maior, ficou com d. Janaína, a quem considera uma mãe. Ele é um pouco traumatizado, porque viu muito do meu sofrimento. Quando ficou rapaz, andou querendo se meter a levar a vida do pai, mas ele não era valente o bastante.

Papai já era de idade, mas quando soube da minha situação, pagou o melhor médico de Fortaleza, que me passou uns remédios, dos quais dependo até hoje. Foi quase como um passe de mágica, recuperei meus 5 anos de tristeza em cima de uma cama em pouco tempo. Mas para Aldenice já era tarde, quando fui buscá-la, ela não sabia quem eu era. Teresa disse “deixa ela comigo, ela já está acostumada, chama o primo de irmão, e ela é muito apegada a Joaquim, chama até de pai. Venha visitá-la sempre que quiser”.

Segui minha vida com Flavinho, que também não queria ficar comigo, mas ele não teve muita escolha, D. Janaína já andava muito cansada para cuidar dele. Ela me dizia: “você precisa se casar, refazer a vida, trabalhar”. Mas como é que eu ia me casar com quase cinquenta anos de idade? “Os tempos são outros”, ela disse. Entendi que fiquei parada no tempo, eu me olhava no espelho, estava magra feito um palito, a cara cheia de rugas e o cabelo todo branco. Botei um vestido, um salto, pintei o cabelo e fui para uma festa no bairro. Foram muitos os pretendentes, fazer o quê, eu tinha charme.

Nos finais de semana eu ia para as festas e dançava até suar, às vezes levava algum namorado para casa, às vezes dormia na casa deles. Essa fase durou pouco tempo em minha vida. Percebi que aquelas festas não me satisfaziam mais, e ter um homem ao meu lado não amenizava a minha dor. Passei então a viver mais reclusa, principalmente depois que Flavinho se casou. Fui morar com ele, porque não tinha condições de me sustentar sozinha.

Se o mundo dá voltas para o mal, dá também para o bem. Sou eu hoje quem cuida de Patrícia, a alegria da minha vida, para Aldenice poder ir trabalhar. Teresa não pode cuidar da menina, dá aulas na universidade e nem pensa em se aposentar.

Ela me chama de avó, e Teresa, de vó Teresa. Fico imaginando se um dia ela irá me amar. Não tenho como saber. As únicas certezas que tenho nessa vida são três: me diverti muito,  sofri demais, e amei Genival.


Gabriela Parente

15 de outubro de 2020