Cheiro de Mar

Quando eu parei o carro em frente ao portão, já pude ouvir o som do trinco correndo na fechadura. Eu estava ansioso, confesso. Esperava por aquela viagem há muito tempo.

“To find a queen without a king

They say she plays guitar and cries and sings”

(Led Zeppelin – Going to California)

Quando eu parei o carro em frente ao portão, já pude ouvir o som do trinco correndo na fechadura. Eu estava ansioso, confesso. Esperava por aquela viagem há muito tempo. Meu peito gelou feliz ao notar sinais de antecipação nervosa também dentro da casa. Seriam três dias na praia. Só nós dois. Mas não foi ela quem abiu a porta e cruzou o quintal na minha direção. Foi a mãe. Veio caminhando devagar, com os braços cruzados. Não estava certa se deveria permitir que a filhinha dela viajasse comigo, era o que me dizia em silêncio. E podia ainda mudar de ideia a qualquer momento, acrescentavam os olhos um tanto desconfiados.

Não dei confiança à postura teatral, que eu já conhecia. Beijei-lhe a testa, talvez com um carinho inapropriado. Estiquei um sorriso meio cínico e perguntei se ela daria uma festa, com a casa só para ela por tanto tempo. Ela riu e me tocou no braço, como se dissesse que eu não tinha jeito mesmo.

“Ela já tá pronta?” Perguntei.

“Há horas. Já viu essa menina atrasada?”

Foi quando ela despontou na porta de casa, com uma pequena mala de rodinhas quicando no caminho de pedra. Usava o vestido que eu dei no último natal, amarelo e rosa. Alçou o corpo levemente na ponta dos pés, jogando os braços ao redor do meu pescoço e me estalou aquele beijo na bochecha direita que nunca falha em me derreter.

“Juízo, vocês dois!” Riu a mãe, ao se despedir.

“Ainda gosta de Led, Magrela, ou já ficou velho demais pra você?” Perguntei com a mão no rádio do carro.

“Começa com Going to California.”

Deixei o carro no estacionamento do aeroporto, o que ia me custar uma pequena fortuna em diárias. Cortamos os procedimentos chatos, só levando bagagem de mão, um hábito que eu criei nela quase a força. Na sala de espera, ela bebeu café comigo, um gosto que surgiu por volta dos sete anos de idade. Eu briguei para evitar que virasse hábito, mas fui derrotado. Durante o voo, não conseguimos encontrar um filme no catálogo que interessasse aos dois. Não importava.

***

Quando pisamos a areia quente na manhã seguinte, cheguei a pensar em desistir daquela história. O calor surrava o mar, os corpos, os tetos das barracas, o calçadão e o asfalto. Meu café da manhã pesou três quilos a mais, dentro da barriga, no instante em que o mormaço nos abraçou.

“Não vejo a hora de cair nessa água, hein, Magrela?”

Desde muito pequena ela adorava praia. Teve sua fase de construir castelinhos de areia. Se arreganhava de rir quando era enterrada até o pescoço. Logo se interessou pelo mar, e aí nos tornamos parceiros inseparáveis. Toda viagem de férias era a mesma coisa, largávamos o pouquinho de roupa debaixo da barraca, uma dose rápida de protetor solar e saíamos os dois desembestados em direção à água. Tínhamos um ritual. Ela parava ao meu lado e nós dois respirávamos fundo o cheiro de mar. Olhávamos para o horizonte sem fim e entrávamos na água pé ante pé, furando as ondas com as costelas. Eram sempre muitas horas mergulhando, pegando jacaré e aprendendo a boiar. Nenhum dos dois saía da água antes do pôr-do-sol embrutecer a maré, ou a fome se tornar insuportável. Entrelaçávamos os dedos enrugados no caminho de casa e o sorriso largo no seu rosto de menina parecia que nunca mais iria embora.

Naquele dia, quando finalmente consegui alugar a barraca, larguei a camiseta enrolada na madeira do guarda-sol, enfiei os óculos na mochila e esperei que ela corresse comigo até o mar. A menina deitou as costas da cadeira, se empapou de bronzeador, esticou a canga e deitou debaixo de um sol somaliano. Sacou o celular, sabe-se lá de onde e começou a trocar mensagens sabe-se lá com quem. Antes, porém, tirou uma foto das próprias pernas com a areia e o mar ao fundo e postou sabe-se lá onde.

Eu soltei os braços ao longo do corpo e curvei a cabeça derrotado. Afundei em uma cadeira que ainda estava na sombra. Minha filha tinha crescido sem o meu consentimento. Estirada, torrando naquele sol inclemente, ela hoje se parecia muito mais com a mãe, mulher feita, que comigo, pai brincalhão que ficou para trás. Notei então que seu biquíni era muito menor que o aceitável, e outros homens também já o haviam notado. Fechei a cara por trás dos óculos escuros e pedi uma cerveja.

“Me dá um gole?” Ela pediu. Parecia em transe, com os olhos grudados na tela do telefone e as costas fritando no óleo de bronzear. Mas o estalo do alumínio não passou batido pelo seu ouvido.

“Claro que não. Você não tem idade pra isso.”

“Pai, qual é? Eu tenho quinze anos. Você acha mesmo que eu nunca experimentei?”

“Magrela, o que você faz com seus amigos, longe da minha vista, não é problema meu. Isso é regra fundamental da adolescência. Não conte pro seu pai o que ele não quer mesmo saber.”

Ela riu. O peito subiu e desceu violento, o cabelo sacudiu o brilho do sol e os dentes se arreganharam num sorriso branco e alinhado, conquistado com cinco anos de mensalidade do aparelho odontológico. Minha vontade foi mandar que ela se aquietasse, que eu estava falando sério. E se alguém mais a visse naquele momento, linda como estava. Um gosto amargo encerrou-se em minha boca.

Emburrei pelo resto do dia. Neguei todos os seus pedidos e me escondi atrás das páginas de um livro ruim, empolado, que em nada combinava com a praia. Aos poucos, ela foi começando a aborrecer-se. Contive o sorriso que tentava repuxar os cantos dos meus lábios. Depois envergonhei-me de apreciar tanto aquela vingança mesquinha.

***

Tirei a vasilha do forno com cuidado e pousei na mesa de madeira. A lasanha fumegava. Umas bolhas de ar pipocaram no molho de tomate e me fizeram pensar no sol da praia. Ela saiu do banheiro com os cabelos molhados e a pele vermelha. Sentou-se, enfiou o queixo nas mãos e perdeu o olhar nos próprios pensamentos. Cortei a lasanha em seis pedaços iguais, como ela insistia que era o certo, e posicionei um deles no centro do seu prato. Com um gesto desatento, dispensou o queijo ralado. Levantou, abriu o armário e pescou um pacote de batata palha.

Eu franzi o cenho, sem compreender. Batata palha, na minha experiência de vida, só acompanhava estrogonofe e cachorro-quente. Ela ignorou minha perplexidade e virou um punhado crocante no prato, junto à lasanha.

“Sério mesmo?” Perguntei.

“É bom. Faz esse croc-croc de comida gostosa. Mamãe só come lasanha assim.”

“Tinha que ser.”

“Pai, às vezes eu fico meio perdida.”

“Como assim, filha?”

“Tem horas que eu me sinto tendo duas vidas. Uma na casa da minha mãe, outra na sua. É como se eu não conseguisse saber direito quem eu sou. Quando eu faço alguma coisa, eu tenho dúvida se foi porque eu quis, ou porque você quis, ou pela mamãe. As regras são diferentes pra cada um, e eu fico achando que fico de lá pra cá, só seguindo as ordens de vocês.”

“Magrela, eu e sua mãe fazemos a maior força pra você se sentir segura e confortável. A gente se fala, se organiza, monta estratégia. Eu sei que você tem duas casas, e isso pode ser meio confuso, mas quem cria você somos eu e sua mãe. Juntos.”

“Eu sei que você e a mamãe se esforçam pra tudo funcionar e eu me sentir bem. Mas vocês são diferentes. Aí eu fico no meio do tiroteio. Tenho que me preocupar com as suas expectativas pra nossa relação, com as expectativas dela pra minha relação com ela. E ainda tenho que sacar quem eu quero ser e o que eu sou, do que eu gosto mesmo. Não posso ficar no meio tentando agradar os dois e não ser eu mesma, pai. Se não eu fico doida. E é difícil não ficar doida.”

“E o que eu posso fazer? Eu não posso casar com a sua mãe de novo por você. Nem acho que ia resolver.”

Ela suspirou, com um ar cansado das obviedades.

“Pai, às vezes, quando eu te conto alguma coisa que tá rolando comigo, eu só quero que você entenda. Que você saiba como é, pra eu não me sentir sozinha. Você não vai resolver todos os meus problemas por mim.”

Dei um sorriso amarelo, constrangido em não saber de onde aquela menina tirava tanta sabedoria em tão pouco tempo de vida. Peguei o pote de batata palha e me servi com a mão mesmo. Ficou gostoso, deu mesmo um toque crocante.

“Agora também só vou comer lasanha assim.”

Depois de jantar, jogamos baralho e vimos um filme. Aos poucos, à medida que a noite avançava, ela voltava a ser aquela menininha que pegava jacaré, e menos a mulher que tomava sol. Dormiu no sofá. Eu acariciei seus cabelos e a tomei no colo, reeditando a rotina antiga de quando ela tinha o superpoder de dormir em qualquer lugar e acordar em sua cama.

Acordou com a cabeça pousando no travesseiro. Enquanto ela vestia o pijama, preparei um leite com nescau, como fazia quando ela era criança e levei na cama. Esperei que tomasse tudo, como sempre. Beijei sua testa antes de recolher a caneca vazia e desejei boa noite. Sonolenta, ela fazia piadinhas com o enredo do filme.

“E se eu chegasse em casa com um namorado de cabelo roxo, pai?”

“Você sabe que não tem chance. Que você tem que me apresentar, e perguntar minha opinião antes de beijar qualquer marmanjo por aí.”

“Tarde demais.” Ela bocejou, me deu as costas e dormiu. Sem peso na consciência. Meu peito se apertou e o ar não veio quando eu precisei. Ela achou mesmo que eu estava brincando a respeito dos segredos de adolescente.


Vitor Camargo de Melo

26 de setembro de 2017