Cama de conchinha

Um conto de Suely de Moraes

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

A menina tinha quase quatorze anos e havia fugido de casa devido aos maus tratos do pai. Morava com ele e mais quatro irmãos numa casinha pobre na zona rural de uma cidade grande, suja e mesquinha. A mãe havia sido assassinada há quatro anos: assalto seguido de estupro e estrangulamento. Desde então a menina passou a servir à família nas atividades domésticas. Deixou de ir à escola, assim como também abandonou a única boneca que a divertia, afinal, sempre tinha muito trabalho a fazer e nenhum tempo para brincar.

Não poder mais ir à escola era o que a deixava mais entristecida. Ela amava isso, nem tanto pelas companhias, mas pelas oportunidades que lá encontrava de aprender tudo que não sabia e se encantar com os livros que podia ler na biblioteca. Sempre pegava três livros emprestados por semana e lia todos com tanta paixão que suas horas de sono à noite eram facilmente substituídas pela leitura. Quando o sono finalmente a vencia, ela sempre sonhava com seus personagens prediletos e, nesses sonhos, podia ir aos lugares onde queria. As aulas que mais gostava eram de ciências e português e já havia decidido que quando crescesse seria professora para poder ajudar outras crianças a serem felizes com tudo aquilo que só se aprendia na escola.

Acordou cansada naquela segunda-feira, de tanto que trabalhou com seus irmãos no domingo, vendendo balinhas na feira em frente à igreja da praça, onde foi comemorado o dia da padroeira da cidade. A festa foi uma beleza, mas eles não conseguiram dinheiro suficiente para comprar o que faltava no armário e na geladeira da casa. O pai ficou raivoso por isso, como sempre ficava por qualquer outro motivo que o desagradasse e, como fazia habitualmente, passou a noite no boteco da rua de trás. Chegou em casa mal havia amanhecido o dia e, de novo, estava com aquele cheiro de cachaça que fazia a menina enjoar. Pediu café, mas ela lhe serviu fraco e sem açúcar porque no pote acabou o café e o açúcar não tinha mais. O pai, sempre agressivo, puxou-lhe os cabelos e xingou-a com aquelas palavras que ela não ousava repetir. Deitou-se no que restava do sofá na sala, enrolado num lençol sujo e dormiu imediatamente. Seus irmãos há tempo já haviam saído para a estação de trem onde tentariam embarcar sem pagar passagem. Todo dia eles iam para o centro da cidade engraxar sapatos, mas nem sempre voltavam com o dinheiro para comprar mais passagens no dia seguinte. Enquanto isso ela decidiu caminhar até a biblioteca da escola e devolver os últimos livros que havia tomado emprestados. Um deles era a história fascinante sobre um marujo que havia viajado pelos sete mares num submarino. O outro era sobre todas as flores do mundo e ela adorava as ilustrações. O terceiro era o livro que ela mais gostava, porque tinha todas as palavras e seus significados: um dicionário.

Após sair da escola, sentiu-se arrasada como se o mundo tivesse finalmente acabado e nada mais restasse a fazer. Não via mais razão em voltar para casa, em servir seu pai e seus irmãos, em ser quem ela não queria ser. Pensou nas possibilidades de sua vida difícil e sabia que não tinha condições de fazer nada por si mesma naquele momento e, desesperançosa, continuou a caminhar sem rumo como se seus pés tivessem sido libertos de sua vontade e agora apenas se satisfaziam andando por onde simplesmente queriam andar. Cansada e com fome, não se deu conta mais de onde estava, que rua era aquela, que pessoas eram aquelas, que vida era aquela, e quis apenas deitar e dormir e sonhar com os sete mares, as flores e as palavras. Deitou-se na sombra de uma árvore, numa rua sem saída, e acordou horas mais tarde, reparando que já era noite e ela não sabia mais realmente onde estava. Sentiu medo e, ao mesmo tempo, teve aquela sensação de liberdade tão intensa, a mesma que tinha quando lia seus livros, e até achou que poderia ir para onde quisesse e ser quem ela quisesse, mas não reparou que ainda era muito jovem para saber dessas coisas da vida. A menina se sentiu perdida e desesperada, mas, como ela acreditava em sonhos, sinceramente achou que tudo ia dar certo.

Passou alguns dias perambulando pelas ruas, com fome, com sede e com as roupas sujas e molhadas pela última chuva, que caiu enquanto ela dormia embaixo do banco da parada de ônibus, no centro da cidade.

Costumava pedir esmola nos semáforos. O que ganhava durante o dia, às vezes, dava para comprar pão com margarina e café com leite na padaria. Almoçava sobras de comida de um restaurante e revirava tudo que as pessoas desperdiçavam e que o faxineiro jogava no container do final da rua lamacenta e malcheirosa.

A menina era morena e seus longos cabelos pretos estavam encardidos e embaraçados de tanta sujeira. Seu corpo era esguio e belo e já apresentava o cheiro sutil e indecifrável das meninas quando começam a se transformar em mulheres. Ela reparou que havia menstruado pela primeira vez.

Vagando sem destino pelas ruas, ela sentia tanto fome quanto solidão. De repente, tudo ao seu redor escureceu e ela caiu com todo o peso de seu corpo, sem forças e sem dignidade que pudessem caber em sua alma. Acordou algumas horas depois numa cama limpa e cheirosa. Sentiu saudades da mãe. Sentiu raiva do pai e dos irmãos. Lembrou-se das suas mãos e dedos deslizando sobre sua pele e apalpando e entrando dentro dela. Vomitou. Muito. E começou a chorar, como sempre fazia antes de dormir. Sem forças para reagir, abriu os olhos e viu ao lado de sua cama uma mulher muito branca, de olhos grandes e cabelos avermelhados. Batom vermelho na boca exageradamente grande. A menina sentiu medo. Na verdade, ficou horrorizada. A mulher aparentava uns sessenta anos maltratados de idade e era muito feia. Sua voz parecia que saía de dentro de uma caverna e o hálito era pesado.

A menina passou vários dias sendo alimentada e cuidada pela mulher esquisita e feia. Ela quase nunca conversava com a menina. A não ser no dia em que ela se levantou da cama sozinha para ir ao banheiro. A mulher a seguiu e enquanto tirava à força suas roupas, enfiou-lhe um dedo entre as pernas. Depois disso falou para a menina, com um sorriso alargado, mostrando os dentes amarelados pelo cigarro: você me serve direitinho. Deu banho nela e a vestiu como se vestem as putas que invadiam as ruas depois da meia-noite. Passou-lhe pó no rosto, batom vermelho na boca, ajeitou seus cabelos que agora eram limpos e penteados, e passou um perfume que fez a menina se sentir enjoada e tonta. Levou-a até o bar, que funcionava embaixo de sua quitinete e a entregou para um senhor distinto, de cinquenta e dois anos que a aguardava ansioso enquanto bebia vodca e comia azeitonas pretas. Ele a observou com o olhar atrevido e faminto, colocou-a em seu colo e lhe serviu uma dose de vodca. Ela não conseguiu beber aquilo. Ele acariciou os seios que timidamente nasciam em seu peito e tocou em sua bunda com as mãos pesadas – para sentir a firmeza daquela carne ainda infantil. Logo em seguida levou-a, ainda no colo, para o quarto escondido atrás do balcão do bar. Fechou a porta atrás de si e uma meia hora depois saiu do quarto, entregou uma nota de cinquenta reais para a mulher e deixou o bar silenciosamente. Chegou em casa se sentindo muito satisfeito e sexualmente realizado. Dormiu de conchinha com sua mulher.

***

Acordou cedo no dia seguinte, antes do horário acostumado. Tomou banho, barbeou-se e vestiu-se elegantemente. Por várias vezes olhou-se no espelho para certificar-se de que ainda era um homem muito atraente, afinal, gastava uma fortuna por mês na academia de musculação, além das corridas na praia com seu personal trainer, que era o mesmo de sua esposa. A esposa era uma mulher mais nova que ele alguns anos. Casara-se com ela logo após o divórcio com a mãe de seus filhos. Era uma mulher vibrante, bastante vaidosa, dona de uma das lojas mais luxuosas do bairro e que, além de todas as melhores qualidades humanas, adorava promover eventos sociais onde sempre liderava campanhas de arrecadação para portadores de deficiências funcionais e crianças portadoras de câncer. Ele a achava maravilhosa. Mulher melhor não havia neste mundo. Era alta, magra, muito delicada, tinha bom gosto para joias, roupas, bolsas e sapatos. Gostava de viagens ao exterior e sempre considerava certo o que ele achava, sem nunca, jamais, discordar de seus pontos de vista. Nessa manhã ela já havia retornado da aula com o personal e o aguardava para o desjejum na varanda da enorme cobertura, toda decorada com móveis nas cores branco e azul e almofadas douradas nos estofados enormes. Nas mesinhas de apoio haviam vasos floridos. Quadros adquiridos em galerias de arte de vários países revestiam as paredes que também eram brancas, assim como o piso. O teto era todo revestido de madeira nobre e com lâmpadas encravadas em bocais também dourados. Objetos de arte indiana também faziam parte da decoração da enorme varanda, que mais parecia um salão. Na parede central havia um enorme Buda esculpido em mármore branco, arrodeado de velas e incensos. O Buda, comprado em Nova York durante a lua de mel, era a pura representação do que o casal mais admirava no mundo: a compaixão. Na enorme janela de vidro fumê, as cortinas de seda mantinham-se abertas para que os moradores da casa pudessem apreciar a bela paisagem do oceano logo em frente. Não haviam plantas, pois a esposa não gostava muito da cor verde. A mesa do desjejum era composta de sucos, frutas, geleias, queijos, iogurtes, croissants e pães feitos em casa pela cozinheira que ali trabalhava desde que eles se casaram. Era uma mulher idosa, filha da ama de leite da esposa, que sabia como ninguém preparar tudo que a patroa gostava de comer. Pena que ela estava sempre de dieta e o desjejum era recolhido quase que intacto, e tudo ia para o freezer até que a data de validade a permitia doar o que não servia mais para o porteiro do prédio. Naquela manhã, porém, ele estava muito atrasado e não poderia fazer-lhe companhia para verificar as possíveis mensagens que os filhos talvez lhe enviassem pela internet. Afinal, eles nunca mandavam notícias mesmo. Acenou-lhe de longe antes de sair do apartamento e dirigiu-se à garagem do prédio, onde estava guardado seu carro que acabara de comprar: o último modelo importado da Toyota. Ao sair da garagem, reparou como o dia estava ensolarado e o mar era verde do outro lado da rua.

O consultório ficava numa parte nobre da cidade, onde os prédios pareciam tocar nas nuvens e as árvores foram substituídas por avenidas e anúncios luminosos. A primeira consulta do dia decidiria a necessidade de sua paciente, de apenas dez anos de idade, se submeter a um arriscado transplante de fígado. Ele se compadecia sinceramente pela situação de risco de vida da menina. Afinal, ele era um médico pediatra reconhecido como um dos melhores cirurgiões do mundo. A menina era neta de um velho e raposo político, dono de banco que estava disposto a pagar o que fosse pela recuperação de sua saúde.

O segundo paciente agendado do dia era um menino de onze anos que estava em situação terminal. Desse ele não se compadecia. Acreditava, como bom religioso, que se colhe o que se planta e que Deus castiga os pecadores, atribuindo ao menino a sentença final com a morte prematura por ter nascido em uma família tão pobre.

Mais uma paciente e ele encerrava o expediente do dia. Dessa vez, era uma criança com três anos de idade, que sofria de má digestão crônica e que ele atendia por caridade, para um orfanato espírita. Fazendo assim, considerava que a prática da compaixão pelo próximo garantia o merecimento de uma vida abençoada com prosperidade. Além disso, sempre cooperava com dinheiro para campanhas de inclusão social que o centro espírita promovia nas comunidades carentes.

A primeira atitude, ao terminar o expediente, foi tirar o jaleco e pendurá-lo com alívio no cabideiro indiano, dado de presente por sua mãe. Eram 15h e ele se sentiu cansado e com fome. Resolveu sair caminhando até um restaurante próximo dali e logo estava sentado numa bela mesa, ar condicionado, e sendo servido com uma refeição delicada, com salada e arroz integral com shitakes e amêndoas.  Pediu a primeira dose de vodca enquanto retornava mensagens no celular. Em certo momento, sentiu-se apático e, observando ao redor as pessoas nas outras mesas, perdeu-se para ele a graça daquilo tudo e foi quando pediu mais uma dose.

Sua casa ficava a quarenta quilômetros dali e a chuva estava grande naquela noite. A rua onde estava aquele bar ficava no caminho de casa. Pensou em dar uma parada rápida para mais uma dose de vodca e, quem sabe, seria um bom tempo para a chuva diminuir. O bar estava iluminado por velas, por conta da queda de energia elétrica. Tinha pouca gente ali.  Ele se sentou e logo veio ela, lhe servir com os mesmos olhos grandes e batom vermelho da noite anterior. Os cabelos vermelhos estavam presos de lado com uma rosa amarela de plástico. Ele lhe perguntou pela menina. Ela respondeu que teria que esperar porque tinha quatro na frente. Ele aceitou mais uma dose de vodca.

A chuva pingava e a noite era fresca lá fora, na rua. As luzes amareladas dos postes tremiam molhadas. Agora não via a hora de chegar em casa, sentir-se bem, acolhido e confortável depois de um exaustivo dia de trabalho.

Dessa vez tomou um relaxante banho antes de deitar-se em sua cama ao lado de sua mulher. Afinal, ele adora dormir de conchinha.

***

Dia seguinte e a menina não sai da cama. Cansada e enfraquecida, ela mal consegue se sentar. Seu corpo sofrido tem arranhões e manchas vermelhas. Marcas de dedos de homens. Cheiros insuportáveis.

A mulher de cabelos e batom vermelhos entrou no quarto. Bora, filha, levante e tome um banho, coma seu pão com café que você vai se sentir melhor, disse num tom sarcástico. Na verdade, ela sabia que a menina mal conseguia se sentar. E sabia também da dor latejante em sua alma.  Mas o que se há de fazer? A vida é assim. Dona, eu acho que estou doente. Sinto muita dor em todo corpo. A mulher ouviu aquilo e sentiu-se confusa, porque sabia de qual dor se tratava. Também havia sentido essa mesma dor em muitos momentos de sua própria vida. Pois tome um banho e coma, que você se sentirá mais forte. Por hoje não precisará trabalhar, mas amanhã é um novo dia e a vida continua. A menina saiu da cama com grande esforço. Parecia que o peso do mundo estava sobre ela. Não conseguiu ficar de pé e deixou-se cair como uma folha que se solta da árvore em dia de outono.  A mulher a ajudou a levantar-se e voltar para a cama. Minha nossa senhora, você está com muita febre. Vou pegar um remédio para lhe dar.

Três dias se passaram e nada da menina melhorar. Além da febre contínua, tinha aquele sangramento entre as pernas que não parava nunca. A mulher cada dia se tornava mais impaciente, porque os clientes reclamavam a presença da menina no bar. Ela se tornara, em pouco tempo, a preferida daqueles homens errados na vida. Todos perguntavam pela sua ausência e a mulher respondia que a estava engordando para ficar mais gostosa. Só que a menina piorava, a ponto de ter alucinações e chamar pela mãe até quando estava dormindo. No quarto dia, a mulher começou a ficar preocupada com o estado de saúde da menina, que mais parecia um fantasma deitado na cama. Decidiu levá-la ao centro espírita do outro lado do bairro, que acolhia crianças órfãs e adoentadas.  Lá, eles saberiam como tratá-la com toda Compaixão.

O diretor do centro ficou encabulado ao receber uma menina naquele estado, porém não questionou como ela havia chegado nesse ponto, quase à beira da morte. Sua função era a de receber as crianças e tentar ajudá-las. Por coincidência, era dia de apoio médico e o atendimento começaria em poucas horas, assim que os médicos voluntários começassem a chegar. O primeiro que chegou para o trabalho de caridade foi o pediatra. Nesse dia ele não trabalharia em seu luxuoso consultório, mas faria visitas ao centro espírita onde, como bom cristão que era, examinaria as crianças adoecidas. Assim que chegou, o diretor o encaminhou até a paciente que mais necessitava de cuidados. Então, doutor, essa menina chegou aqui desse jeito. A mulher que a trouxe não deu explicações. Apenas informou que a encontrou na rua nesse estado e a trouxe imediatamente para cá. Deveria tê-la levado diretamente ao hospital público, mas talvez a vergonha a tivesse impedido de fazer isso e a trouxe para nós. O doutor se aproximou da menina e, quando olhou seu rosto abatido, teve um constrangimento como nunca havia tido em sua vida. Não soube o que fazer, não soube o que falar, não sabia se desmaiava ou se mantinha íntegra a sua aparência.  Sentiu como se o mundo caísse sobre sua cabeça e precisou sentar na cama para não cair junto com o peso de sua consciência. Sim. Ele a reconheceu. E ele sabia por que ela estava naquele estado. E ele sabia que era também responsável por aquilo. Tentou não transparecer nada ao diretor, mas foi impossível quando seus olhos escureceram e ele quase teve um desmaio. Precisou apoiar-se nas pernas do diretor para não cair da cama. O senhor está bem? Precisa de algo? Um copo d´água? Não, respondeu o doutor, não preciso de nada, não. Apenas me lembrei que tenho um compromisso inadiável com minha esposa. Ela está me aguardando e eu não devo mais me atrasar. Mas, doutor, e a menina?  O senhor não vai ajudar? Sinto muito, mas hoje eu não posso.

Entrou no carro tão atordoado que mal conseguia localizar a entrada da chave de ignição. Precisava afastar aquilo tudo de sua mente. Sim, era ela. A menina com quem esteve por duas vezes no quartinho atrás do bar. Disse para si mesmo, em pensamentos chacoalhados pela sua consciência, que não era o responsável por aquilo, afinal, ela havia estado com outros homens. Finalmente conseguiu ligar o caro e saiu apressado daquele lugar. Ninguém sabia do que ele sabia. Qual a importância disso? Era apenas mais uma menina prostituída entre tantas outras. Mas foi a primeira com quem ele esteve. Antes, só ficava com putas maiores de dezoito. Mas se culpava por não ter resistido. Jamais deveria ter feito isso. E agora o que seria da sua reputação se alguém o denunciasse? Logo veio em sua mente a imagem da mulher de cabelos vermelhos. Será que ela seria capaz de tamanha maldade? O que seria de sua vida se isso acontecesse? E seu luxuoso consultório de pediatria?  E sua esposa? E seus dois filhos? E sua exemplar conduta moral dentro do centro espírita? Dirigiu por muito tempo sem saber para onde ia. Sentiu fome. Já passava das quatro da tarde. Por onde ele tinha andado? Resolveu seguir até o restaurante que ficava na esquina da avenida para comer algo. Sentou-se elegantemente na mesa perto da janela e pediu ao garçom uma dose de vodca. Decidiu que era melhor não considerar nada do que tinha acontecido. Não lembrar, não pensar, e afastar vez por todas a imagem daquela menina à beira da morte. Pediu outra dose de vodca. Mais uma. Mais outra. Comeu azeitonas pretas servidas num pratinho dourado.  Apesar de sentir fome, não conseguia engolir mais nada além disso. O estômago se embrulhava e ele se sentia um pouco tonto. Pensou que poderia tirar umas férias. Mandar os filhos para a casa dos avós e viajar com a esposa quem sabe para um cruzeiro romântico onde poderia descansar e estar ao lado de quem ama. Sim, ela era a mulher de sua vida e ele faria de tudo para mantê-la ao seu lado até que a morte os separasse.

Pagou a conta, levantou e saiu. Lá fora chovia e ele correu ensopado até o carro. Decidiu dar a ré e seguiu por outro caminho, que não era o de sua casa.  Era tarde e nas ruas desertas apenas os trabalhadores da noite se atreviam a dar as caras. Parou o carro ao avistar uma mulher encostada no poste com um enorme guarda-chuva vermelho a protegê-la. Abriu a porta do passageiro e convidou-a a entrar. Seguiu para o motel mais próximo e por ali ficou por aproximadamente duas horas.

Seguiu de volta para casa. Tomou banho, colocou o pijama e deitou-se na cama ao lado da esposa. Dormiu abraçado com ela de conchinha.


Suely de Moraes

26 de Fevereiro de 2018