As sete mulheres

Em homenagem às mulheres. Todas. Com cores várias e crenças mil. De sonhos únicos e palavras múltiplas. De sorrisos ensolarados e com olhos nublados.

arte: Sarah Sado

Eram sete, e número mais cabalístico não havia de ter.
Sete mulheres. Sete almas capazes de levar o mundo nas costas com o bom e velho sorriso aberto. Não consigo pensar em beleza mais intensa e força mais sólida; em coração mais bom , em karmas tão complexos.

Mulher 1: A mais velha virou mãe das outras miúdas quando a mãe natural morreu. O coração parou. Talvez não tenha suportado as mazelas do mundo ou talvez amasse tanto que explodiu de emoção. Mas, com hipóteses à parte, ela já tinha ido e deixado a cargo da número um o árduo trabalho de cuidar das outras seis. A um era uma mulher bonita, de olhos charmosos e de sorriso galanteador. Casou-se, perdeu o brilho e ganhou filhos. Perdeu a autonomia e ganhou regras. A família multiplicava, no mesmo compasso da dor de não saber o que fazer com o futuro.

Mulher 2: Era quem carregava com mais cuidado o dom da calma. Mulher mais paciente não existia e, por ter o tempo tão lento, deixou que caminhassem a pé os desejos e vontades. Virou esposa tardiamente e mãe com mais atraso ainda. Não tinha diploma, mas o título de mãe e mulher – o que não lhe bastava. Porém, o tal Cronos traria para ela sonhos, nem que fossem só para serem sonhados.

Mulher 3: Por sorte ou destino nunca foi o clichê-mãe. Não que não quisesse, mas não lhe deram opção. E sem mais nenhum caminho para trilhar, foi rumo ao cuidado de todos os outros, e assim, foi materna com cada um que passou na vida dela. E justo a vida foi quem a mais ameaçou, e por algumas vezes quis lhe deixar. Mas, como mulher, não deixou que escapasse e multiplicou a existência com a voz e com o olhar.

Mulher 4: Filha do meio, não tinha lá nem cá e por isso, escolheu a metade. Metade menina, metade mulher. Meio ser humano, meio ser do céu. Era como um anjo protegendo seus queridos e semelhantes. E ao cuidar demais do outro fez com que cuidasse menos de si. Criou filho, marido e vínculos até com quem não era dos seus. A bondade era a qualidade que caminhava com o egoísmo, entornado para si. O equilíbrio era outra cara metade que ela não conhecia.

Mulher 5: A mais vaidosa. Tinha uma beleza mais histérica que a número um, e um charme menos sutil. Todavia, mesmo maquiada de paz e felicidade, não escondia a dor que sem querer apontava no canto do sorriso amarelo, emoldurado por lábios vermelhos. Produzia-se para o mundo e desnudava-se dentro de si… Enfeiando-se. Todos os homens da vida da número cinco ou partiam, deixando um vazio choroso como o ronco da cuíca, ou ficavam, castigando-a como a mão no couro do tambor. Na batucada da vida, um samba triste anunciava a quarta-feira de cinzas.

Mulher 6: A risada ecoada pela casa facilmente se confundia com o pranto espalhados pelos cantos. O bom humor típico era tão constante como a rabugice que surgia em dias nublados. Era de todos pela simpatia ímpar. Era de ninguém em dias que passavam de par em par.

Mulher 7: A última era doce. Mais doce que doce de batata doce. Tinha olhar meigo, mãos quentes e coração aflito. O talento em criar roupas, artes e alimentos não era identificado no amor. O tinha de sobra e deixava em cada cachecol, colar ou comida que fazia. Deixava amor em todos os lugares e de, tanto distribuir, um dia, ficou sem para si. Criou fórmulas e receitas para tê-lo sempre que precisasse, e dessa maneira resolveu botá-lo sempre que a convinha. Pitadas de amor eram espalhadas como migalhas de pão, a fim de atrair quem desejasse mais…

Eram sete, mas poderiam ser 14, 21 ou 1 milhão. Eram só uma parcela do gene XX que o mundo criou sem saber ao certo como administrá-la. Eram sete em uma casa com homens de menos e dores demais. Sete multiplicadas por outras tantas e divididas por outros mais.


Maíra de Deus Brito

11 de agosto de 2017