Achados e perdidos

Um conto de Marcela de Melo

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

O sol entra rasgando a cortina e eliminando qualquer possibilidade de dormir até tarde! Um dia perfeito para uma corrida no parque, um café na padaria, ou uma simples volta pela cidade. Só não vale ficar em casa! Desbloqueio a tela do celular para chamar as meninas; nem todas são solteiras ou estão livres e dispostas, na manhã de um sábado qualquer.

Primeira tentativa: FAIL. Lorena está com seus pequenos demônios assistindo algum desenho animado; consigo sentir nas mãos seu iphone de última geração melecado com o que deve ser geleia caseira que ela prepara para eles; que desperdício.

Tento falar com a Sol, mas ela nem sequer está recebendo as mensagens; desde que começou a namorar nunca atende de primeira; as vezes nem de terceira. Finalmente consigo falar com Leticia.

“Léts, vamos correr no parque e tomar uma aguinha de coco?”

“Amiga, hoje não vai dar, tenho aquele curso que te falei”.

Nao lembro exatamente qual o curso, provavelmente algo do tipo “como dominar o mundo antes do almoço”. Respiro fundo e ligo para o Dan.

“Bicha, vamos fazer qualquer coisa PELO AMOR DE DEUS”.

Vale aqui dizer que Dan é o boy mais requisitado dessa cidade. Além ser um digital influencer, ele é estilista  em uma das maiores agências de moda do país.

“Poxa Beca, não vai rolar hoje, tenho uma montagem marcada para as 10h”.

Deligo o telefone quase o jogando pela janela.

“Ninguém está cooperando nesses últimos dias!” Grito para absolutamente ninguém.

Puta que pariu! Calço meu air max (parcelados em 10x) e vou para o parque, determinada a queimar toda aquela cerveja que consumi ontem.

Caminho em direção ao metrô ouvindo Drake nos fones quando sinto alguém me cutucando levemente. Socorro; o boy do bar cujo número nem sei onde enfiei. Sorrio um pouco sem graça e penso comigo mesma: não está nada fácil ser solteira em uma manhã qualquer de sábado.

“Ei você estava no Achados e Perdidos ontem! Rebeca né?”

Quase respondo que me chamo Serafina e Rebeca é minha irmã gêmea que não tenho contato há anos. Com um sorriso no rosto, balanço a cabeça afirmando que sim.

Por que estou sorrindo?

O sorriso logo desapareceu quando noto que ele está com uma bermuda de corrida, regata e um air max. Filho da puta, tá indo pro parque!

“Fui ao banheiro ontem e quando voltei vocês já tinham desaparecido! Pensei que tomaríamos uma cerveja juntos”.

“Poxa, tínhamos marcado de vir dar uma corrida cedo, sabe como é, carnaval chegando.”

Mentira, eu era a única que não tinha namorado, filhos, um super emprego ou algo parecido, e que já estava pensando no carnaval em pleno outubro.

“E cadê todo mundo?”

MEU DEUS, ele vai querer correr comigo! Antes mesmo que eu consiga inventar uma desculpa e seguir para o vagão exclusivo de mulheres ele coloca a mão no meu ombro.

“Já que não tomamos nossa cerveja, pelo menos uma água de côco no parque?”

Sem desculpas e desarmada (como não notei sua pele dourada ontem?), respondi sem graça:

“Pode ser. Mas só ia dar uma corridinha rápida, tenho alguns compromissos de tarde.” Mentira; minha agenda nunca esteve tão livre.

No vagão vazio, Luca me conta que é veterinário e tem uma clínica com seu irmão mais velho. Gosta de barzinhos, mas troca qualquer noitada por uma manhã na praia ou um churras de tarde com os amigos. Mora só e sempre que o trabalho permite, se joga em alguma viagem.

O filho da puta é pra casar.

Escuto atentamente, lutando pra não me perder em seus olhos castanhos levemente puxados. Será que ele é descendente de índio?

Não, Rebeca! Pare de se perguntar sobre Luca! Você vai correr maravilhosamente, tomar uma água de coco e seguir com a programação do fim de semana; que no caso era chegar em casa e procurar alguma balada para ir.

Descemos na parada do parque e andamos para lá em 5 minutos. Dentro desse tempo conto um pouco da minha vida. Coisas superficiais; o suficiente para manter o papo fluindo sem deixar ele saber demais.

Escolhemos o trajeto de 6km. Cada um coloca seu fone de ouvido e corremos em sintonia. No geral não gosto de correr com pessoas que nao tenho afinidade, mas por algum motivo, corro os 6km como se estivesse ao lado de Lets.

Não consigo escapar da água de côco. Sentamos e continuamos a conversar sobre tudo aquilo que pessoas conversam quando estão se conhecendo. Geralmente acho isso um tédio, ja cheguei até a trocar beijos para não ter que ficar me aprofundando com pessoas que serão nada mais que uma transa casual.

Mas com Luca é diferente. Ele tem assunto que somente um bar 24h e infinitas torres de chops dariam conta. Conversamos sobre seus 3 cachorros, minhas várias mudanças e viagens pelo Brasil. Chegamos até a conversar sobre nossos últimos relacionamentos.

“Você gosta de estar solteira?”

“Sim, hoje isso é uma opção minha. Apesar de já ter me envolvido com algumas pessoas, nao dou continuidade por que tenho algumas metas que são mais importantes que um relacionamento”

Ele me olha. Parece confuso, admirado e instigado ao mesmo tempo. Sinto frio na barriga.

“Mas qual é o problema de cumprir tais metas com um parceiro?”

Parece que estou falando com minha amigas.

“Problema nenhum. Mas sei como relacionamentos funcionam. E dentro da vida que levo hoje seria bem difícil. Não tenho intenções de ficar aqui por muito tempo. Estou em um momento que meu relacionamento sério é comigo mesma.”

Ele abre um meio sorriso e do nada lembro que foi esse mesmo sorriso que me chamou a atenção no bar.

“E se você se apaixonar?”

Que abusado! Desconcertante!

“Sei que é meio difícil de abraçar essa ideia mas não somos todas que colocamos uma paixão na frente dos nossos objetivos. Existem outros sonhos além do amor!”

Paro de falar e noto que meu tom estava um pouco alterado. Já dei esse discurso milhares de vezes, mas por algum motivo ele agora parece bastante opaco diante de Luca.

Ele me olha com ternura, parece que ao ouvir minhas palavras consegue entender de fato o que eu sinto. Parece capturar no ar minhas dores e suas causas. Consegue sentir na minha voz minha sede de liberdade e justiça. É como se ele visse em meus olhos o medo de um dia novamente sentir a dor de um coração esmagado e uma alma ferida.

Quem é esse demônio Senhor?

“Acho que ja te aluguei demais. Você disse tinha algo pra fazer agora de tarde, não é mesmo?”

Lembrei da minha agenda que se resumia a zero vezes zero. Olho no relógio.

“Puta que pariu! Já são 13H!”

Como se eu tivesse algo pra fazer.

“Ja furei com minhas amigas. Quer almoçar?”

Ele abre aquele sorriso que agora está gravado na minha memória.

“Claro. Sugere algum lugar?”

“Pode ser em algum restaurante perto do metro. Mas preciso passar no meu apartamento para pegar minha carteira. Você se importa? É ao lado da parada onde nos encontramos.”

Mentira. Eu estava com o cartão que parcelei o air max. Mas por algum motivo queria levar esse estranho para meu apartamento. Não aguentava mais só olhar-lo sem sentir sua pele queimada e sua boca na minha. Era uma atração que não sentia desde que pegaram meu coração e jogaram em um buraco profundo.

“Sem problemas. Vamos nessa.” Ele responde como se não tivesse entendido, mas seus olhos, e sua rapidez em pagar a conta mostram ao contrário.

No caminho de volta descubro que ele é canceriano raiz; daqueles que amam o amor e que adoram se apaixonar. Já não o enxergo como um estranho. O conheço há poucas horas, mas parece que nos conhecemos há muitos carnavais.

Moro no oitavo andar. Entramos no elevador e é como se a porta do universo se fechasse e entrássemos em outra dimensão por alguns segundos. Não sei bem se ele me beijou ou se fui eu que o ataquei, mas foram o 15 segundos mais intensos que ja passei dentro daquele elevador.

As portas se abrem no oitavo andar. Entramos no meu apartamento e ele surpreendentemente sabe onde fica o quarto.

Transamos.

Definitivamente aquilo não foi uma transa casual como as últimas. Foi paixão, suor, química e, por incrível que pareça, amor – muito amor. É como se nos conhecêssemos há muitos anos; nossas peles se alisavam na sintonia de uma coreografia ensaiada.

Nos olhamos; de novo o tal sorriso.

“Já que você sabe onde fica tudo nesse apartamento, pega um cerveja na cozinha pra gente”

Me arrepio quando ele me da as costas.

Luca volta com duas cervejas na mão. Logo noto que na outra ele segura um papel.

Minha passagem; estava na porta da geladeira.

“Só ida?”

Já não exibe mais seu sorriso. Me sento na ponta da cama e ele está de pé; sinto o calor de seu corpo. Olho para cima enxergando os olhos levemente puxados vidrados em mim.

“Sim”

Ele me entrega a cerveja.

“Prioridades né, Rebeca?”

“As vezes o amor não cabe no agora, Luca.”

“Não se planeja o amor menina. Ele simplesmente ‘é’. A verdade é que quando o amor decide mostrar as caras, os planos se tornam pequenos demais para ele.”

Ele se reclina levando minha cabeça a encostar em seu abdômen ainda quente.

Enquanto ele faz carinho na minha cabeça, penso em pegar a passagem e rasgá-la em pedacinhos. Jogar tudo pra cima e me aventurar com esse homem.  Mas sei que não farei isso. Já fiz coisas parecidas e sempre acaba na mesma. Sim, ele é diferente, mas hoje eu também sou; tive que cavar nos buracos mais profundos para resgatar meu coração, e alguns pedaços nunca mais voltaram comigo.

Olho para ele. Ele balança a cabeça como quem já entendeu. Não era necessário dizer mais nada.

Ele se veste, me coloca em seus braços e ficamos ali por alguns minutos.

Ele beija minha testa.

Se levanta e me dá as costas mais uma vez.


Marcela de Melo

26 de Fevereiro de 2018