A mulher que traficava livros

Um conto de Arthur H. Herdy

Arte: Sarah Sado/Revista Seca

Bolinha. Quadradinho. O que é esse? Merda! Bolinha. Quadradinho. Parece uma árvore. Seria uma árvore? Merda, merda, mil vezes merda. Deveria ter aprendido isso antes.

Vamos começar de novo. Bolinha. Quadradinho.

Não é possível. Eu sou uma mulher letrada. Já fui para o Japão. Como não consigo decifrar isso?

Lá de dentro, as vozes abafadas e risadas hipócritas chegam aos meus ouvidos como uma onda. Aumentam minha irritação e a minha dor de cabeça. Preciso me manter calma.

“Está tudo bem por aí, querida?”

“Claro que sim, Silvana! Um minuto só e já vai estar pronto.”

Precisava de mais tempo. A maldita lasanha era meu álibi.

Meu corpo está tão quente pela raiva que as rajadas de vento gélido não conseguem esfriar meu colo, decorado com um pingente que nada significava. Era apenas mais um símbolo idiota. Que nem bolinha. Quadradinho. Folha. Folhinha. É orgânico. É vegano. Achei essa merda.

Fecho a geladeira. Silvana está ali, parada, como se estivesse me observando há muito tempo.

“Por que demorou tanto, Liz? Pensei até que você tinha desaprendido a ler.”

E deu uma risadinha, daquelas bem cínicas, de gente rica e escrota, mostrando os dentes em meio a um grunhido sem graça. Eles riem de tudo. Como podem? Com tudo o que já aconteceu.

Silvana pegou mais uma taça de vinho e logo saiu, passando a mão em meus ombros. Condescendente. Mulherzinha asquerosa.

Alguns minutos antes, um dos convidados disse que estava em um detox. Silvana entrou em pânico. Lembrou de algo na geladeira. Me prontifiquei a ajudar. Era o tempo que precisava  ter sozinha naquele lado da casa.

Agora vamos lá. De volta ao rótulo da lasanha. Como eu vou esquentar isso? Bolinha, quadradinho, folha… Caixa. Bolinha. Quadradinho. Folha. Caixa?

Como eu vou preparar essa merda?

Não existem mais microondas. Eles foram banidos. Era o ano VII depois da proibição do alfabeto.

Eu devia ter 25 anos naquela época. Veio mais rápido do que qualquer um poderia imaginar. Informação é poder. E o poder estava em mãos erradas. Meus pais que o digam.

Intelectuais, letrados, qualquer um que usasse mais do que dois neurônios na porra da cabeça agora era considerado um perigo.

A polícia do governo os encontrou, tirou-os à força de casa. Nem chorar eu consegui. Foi tudo muito rápido. Como chegamos aqui, nesse ponto?

O alfabeto, tal qual uma moeda, foi substituído. Como é de praxe, os livros foram destruídos. Eu achava isso. Todos achavam. Quem sabia ler, sabia, isso eles não poderiam tirar de nós. Mas os caracteres mudaram. Agora era esse caralho de bolinha para cá, quadradinho para lá.

Eu estava me arrumando para a recepção na casa da Silvana. Ela era um zero à esquerda. Quem me interessava mesmo era o marido. Diplomata, puxa-saco de marca maior, ele tinha acesso no alto escalão do governo. E pelo o que a Resistência descobriu, sabia onde estavam galpões e galpões com livros e mais livros. Isso que eu precisava saber. Isso e o paradeiro dos meus pais.

Eu também estava rodeada por livros. Ilegais. Me tornei traficante. Logo eu, que nunca nem fumei maconha. Meu negócio era a palavra. À primeira vista era um quarto normal. Um olhar mais atento perceberia um vão debaixo do pesado móvel de madeira encostado na parede. Para disfarçar, ele era coberto com bibelôs. Mas por dentro era vazio. Quando todos iam dormir nessa roça, eu abria a porta do meio, tirava os apoios, me esgueirava, abria o fundo falso da parede e rastejava até um outro cômodo. Uma pequena biblioteca. Era ali que copiava os textos dos pensadores. O pouco que havia sobrado. Mandávamos para nossos núcleos de resistência. A rede era pequena, mas eficiente. O trabalho? De formiguinha. Precisávamos ter mais gente do nosso lado. O caminho era a leitura.

Peguei um vestido preto decotado. Os filhos da puta não permitiam mais que a gente lesse. Só que, mesmo com todo o poder do mundo nas mãos, ainda eram governados pelo pau no meio das pernas.

A campainha tocou. Kevin, o vizinho, ia me levar ao jantar.

Tadinho. Tão ignorante. Bonzinho. Um joguete. Ele e a esposa. Acreditavam tudo estar às mil maravilhas. “Para que precisamos saber tanto de tudo quando temos um ao outro?” Argh. Íamos os três.

Kevin e Marta se conheceram na escola. Mas isso já com quase 30 anos. Na nova escola. A escola sem alfabeto, onde os professores serviam praticamente como tradutores. Era para aprender símbolos. Os tais quadradinho, bolinha.

Eu estava clandestina. Preparada para a missão. Me infiltraria em uma cidade menor, perto da Capital. Meu alvo era o diplomata.

Nos Núcleos, uma junção de cidades, municípios e até estados como os conhecíamos, eles eram os únicos que tinham autorização para viajar, seja de avião, carro ou ônibus.

Eles eram quase o topo da cadeia alimentar. Ele tinha acesso. Para ele, o mundo não tinha mudado tanto. Aliás, para uma parcela deles. Quem se fodeu foi… Bem, quem se fodeu foi quem já vinha se fodendo desde que o mundo é mundo.

Eu também havia sido treinada. Treinada para me calar. A vida inteira.

Um ano naquele lugar, fazendo bolo, caminhando, desligando o som pontualmente às 22 horas. Fingindo ser parte dali.

Minha missão era conseguir um artefato daquele homem. Os registros de viagem dele.

Para começar.

Bolinha. Quadradinho.

“Você não sabe ler, não é verdade?”

O diplomata sussurrou no meu ouvido.

Arrepiada, olhei para trás.

“Cinco minutos no forno, temperatura alta.”

Meu sangue pulsava forte, preenchendo minhas veias de gelo e vontade de lutar.

“Silvana vai desconfiar. Ande logo com isso.”

Continuei parada. Antes de sair, ele fez a saudação que só nós sabíamos. Nós, da Resistência.

Era meu aliado.

As coisas começaram a mudar mesmo naquela noite.


Arthur H. Herdy

26 de Fevereiro de 2018